Samba da Folga cresce em Niterói, defende o fim da escala 6×1 e busca apoio para edição junina

Criado a partir do encontro de amigos ainda na adolescência, o Samba da Folga nasceu oficialmente em agosto de 2024, em Niterói, como uma roda de samba que vai além da música. Realizado em clima de quintal, o projeto se firmou na região oceânica, em Niterói, com a proposta de ser um espaço acessível de convivência e respiro para trabalhadores. Com raízes no samba tradicional, o evento mantém a simplicidade como essência, reunindo público diverso em encontros que valorizam o coletivo. Ao longo das edições, o crescimento aconteceu de forma orgânica, sem abrir mão da identidade construída desde o início. Hoje, o Samba da Folga se consolida como um movimento cultural em expansão.

Como surgiu o Samba da Folga e de onde veio a ideia do nome?
Tudo começou na nossa adolescência, a partir do encontro de quatro amigos, Thiago, Bruno, Pedro e Gabriel, vindos de diferentes lugares do Rio. O Pedro, que tem a família ligada ao samba em Vaz Lobo, apresentou essa cultura pra gente, e ela acabou virando o elo que nos uniu.
Por volta dos 14, 15 anos, deixamos de só curtir as letras e começamos a nos interessar pelos instrumentos. Sempre que nos encontrávamos, rolava uma batucada despretensiosa no quintal onde crescemos juntos. Foi em um desses encontros que surgiu o sonho de ter nossa própria roda, com tudo aquilo em que acreditamos: um espaço de descanso no meio das semanas corridas, onde a gente pudesse celebrar as casualidades do samba raiz dentro da simplicidade, sem pressão externa.
Com o passar dos anos e a correria da vida adulta, esses encontros ficaram cada vez mais raros. Até que o Gabriel se mudou para uma casa com um quintal simples em Niterói e, em uma visita que reuniu o grupo, Thiago reacendeu aquela ideia lá de trás. Começamos de forma simples: chamamos alguns amigos para um churrasco, cada um levando o que quisesse botar no fogo e contribuindo com um isopor comunitário previamente entupido de gelo. O que era pra ser só uma batucada entre amigos virou um samba leve e alegre em que todos somavam e, a cada edição, mais gente chegava. Com isso, percebemos que precisávamos estudar mais os instrumentos e melhorar a estrutura para conseguir receber todo mundo sem perder a essência.
Desde o início, a ideia sempre foi ter um samba voltado para as questões da vida do trabalhador, como um respiro em meio aos dias caóticos, e que fosse acessível a todos. Pensamos, inclusive, em fazer os encontros próximos aos dias de pagamento, e o nome inicial seria “Samba do Pagamento”. Mas, dias antes de tirar o projeto do papel, em 23 de julho de 2024, entendemos que o nome precisava traduzir melhor o sentimento e assim, no dia 03 de agosto de 2024, nasceu o SAMBA DA FOLGA, o momento mais esperado do trabalhador. Hoje, contamos com a chegada de pessoas muito especiais, que foram fundamentais para o crescimento do projeto. Duda, Breno, César e Arthur ajudaram a transformar a Folga em um movimento, ampliando nossa mensagem e levando essa ideia para além do Rio. Sem eles, a Folga não teria o alcance que tem hoje.
O projeto tem um posicionamento político claro, como a defesa do fim da escala 6×1. Como esse propósito se conecta com o samba e com o público de vocês?
Você acorda de madrugada para chegar às 8h. Chega às 8h para sair às 18h. Sai às 18h para dormir às 22h e acordar de novo de madrugada. Isso não é uma rotina de trabalho, é um cativeiro com horário comercial. Temos orgulho de sermos trabalhadores, mas somos, antes de tudo, seres humanos. Temos sentimentos, ficamos cansados, sentimos saudade e também precisamos, às vezes, quebrar a rotina com uma cerveja gelada. O ambiente de trabalho pode ser traiçoeiro e, em muitos momentos, nos leva a romantizar o excesso, fazendo com que a gente esqueça de VIVER A FOLGA.
O nosso objetivo com o Samba da Folga é lembrar que trabalhar é importante, mas aproveitar o momento de lazer com as pessoas que amamos é FUNDAMENTAL. É na Folga que reforçamos a essência de conviver, de estar junto e de criar conexões verdadeiras, seja cantando com uma mão pro alto e a outra abraçando o copo no peito, seja numa simples troca de ideia na fila do bar. Porque a Folga é isso: olhar para o lado humano, lembrar de se preocupar e cuidar uns dos outros. Somos contra a cultura de trabalhar sem priorizar o descanso, onde o trabalhador é tratado como máquina até mesmo nos dias de folga.
Vocês sentem que essa proposta mais engajada tem impacto no crescimento do evento e na identificação das pessoas com o projeto? Como o público reage?
Nosso objetivo nunca foi crescer. Tudo começou com um encontro no quintal e, depois, as coisas foram acontecendo de forma orgânica. Então, se não abrir mão do nosso posicionamento significar não ter mais eventos cheios, tudo bem. A gente volta e continua de onde tudo começou: na simples casualidade. O samba é ideologia, e jamais vamos nos desgarrar disso. Entendemos que a Folga é um espaço para crescer e aprender juntos, sendo um canal de transformação de pensamentos e um braço forte na luta diária do trabalhador.
Não há espaço para intolerância ou violência, queremos dialogar e reforçar um pensamento de apoio popular, rompendo com o individualismo que minimiza a luta do proletariado. Afinal, o país que reclama que “ninguém quer trabalhar” é o mesmo onde o ônibus das 5h30 já sai lotado. Acreditamos que nossas rezas em forma de samba e o convívio social têm o poder de transformar a mentalidade das pessoas. Não dá para viver esse movimento sem entender que, no fim das contas, a única forma de permanecer vivo nesse mundo é com amor.
O Samba da Folga vem ganhando destaque na região oceânica de Niterói. A que vocês atribuem esse crescimento e essa conexão com o público local?
A verdade é que não tem sido fácil manter a nossa essência de quintal, mas seguimos firmes. São muitos os fatores que dificultam o caminho, e um exemplo foi o desafio de encontrar um espaço para fazer a roda. Não queremos que seja em uma casa de shows ou algo do tipo. Nosso lugar é no quintal, e a Folga só acontece em um ambiente em que as pessoas possam se sentir em casa, seguras e, principalmente, à vontade.
Vamos sempre lutar para manter esse clima, resgatando a forma como o samba nasceu, que muitas vezes é ofuscado pelo excesso de glamour, não priorizando as encantáveis miudezas da simplicidade. Não se trata apenas de curtir um evento com os amigos; queremos incentivar uma cultura em que ninguém se sinta sozinho no Samba da Folga. A ideia é que todo mundo esteja ali para cantar com quem estiver ao lado e disposto a ajudar caso alguém precise. A cada evento, mantemos um olhar atento aos detalhes, ajustando tudo de acordo com as necessidades dos nossos Folgados, firmando nosso compromisso de manter a Folga como um espaço acessível para todos.
A próxima edição será especial de festa junina. O que o público pode esperar desse evento de junho? Vai ter alguma novidade?
Nossos eventos são sempre temáticos, e, para essa época do ano, não seria diferente. Na Folga, somos viciados em viver as brasilidades, e assim surgiu uma ideia: por que não unir o samba carioca ao forró nordestino? Nossa tradicional roda vai ferver como sempre, e teremos uma surpresa no intervalo que promete transformar o quintal num verdadeiro pé de serra, onde a zabumba toma o lugar do surdo para ditar o ritmo dos Folgados. Além disso, teremos nossos tradicionais brindes temáticos (extremamente limitados), que montamos com muito carinho e distribuímos durante a Folga. Para completar o clima de festa junina, também vai rolar comida típica para equilibrar com a caipirinha e a cerveja gelada.
Hoje, como o projeto se mantém financeiramente e de que formas o público pode ajudar a fortalecer e apoiar o Samba da Folga?
Como falamos anteriormente, um dos nossos compromissos é manter o evento acessível a todos. Por isso, criamos uma dinâmica baseada em um princípio simples: os produtos comercializados têm duas opções, uma popular e outra mais específica, seja no ingresso ou na cerveja.
Assim, conseguimos garantir que qualquer pessoa que queira aproveitar o Samba da Folga possa estar presente, sem abrir mão de oferecer produtos de qualidade e, principalmente, disponível a todos durante o evento. No fim, o que mantém a Folga viva são, sem dúvida, os próprios Folgados.