Pagode da Gigi celebra cinco anos e leva a força da Vila Aliança para novos territórios

setembro 22, 2026

Há cinco anos, uma roda de samba começava a ganhar forma na Vila Aliança, em Bangu, na Zona Oeste do Rio. Criado pela percussionista Giselle Sorriso, o Pagode da Gigi nasceu pequeno, mas logo criou raízes e passou a ocupar outros espaços da cidade. Ao longo dessa trajetória, a roda se tornou também um ponto de encontro, pertencimento e valorização das mulheres no samba. Neste mês de setembro, o projeto celebra cinco anos e reuniu público, artistas e parceiros no MUHCAB no último dia 07. Da primeira roda até hoje, Giselle mantém o olhar voltado para o território onde tudo começou e para os próximos caminhos que ainda podem ser percorridos.

Em entrevista a About, Giselle Sorriso relembra os caminhos percorridos pelo Pagode da Gigi desde 2021 e fala sobre os desafios de construir e liderar uma roda de samba sendo mulher. A percussionista destaca a importância da Zona Oeste na história do projeto e o desejo de levar essa identidade para novos territórios. Para ela, a roda vai além da música ao criar encontros, oportunidades e redes de afeto. A segurança e o pertencimento das mulheres também estão entre as principais bandeiras do projeto. Agora, com cinco anos completos, Giselle olha para o futuro sem perder de vista a origem do Pagode da Gigi.

O Pagode da Gigi nasceu em 12 de setembro de 2021, no Boêmio da Vila Aliança, em Bangu. Cinco anos depois, olhando para aquela primeira roda e para tudo que vocês construíram até aqui, o que mais te emociona nessa trajetória?

O que mais me emociona é olhar praquela primeira roda, lá no Boêmio da Vila Aliança, e perceber que uma ideia que nasceu dentro de mim ganhou vida própria. O Pagode da Gigi começou pequeno, no lugar onde eu nasci e cresci, na Zona Oeste, e foi criando raízes. Cresceu, circulou por outros lugares, mas continua carregando a mesma essência daquela primeira roda: gente, samba, afeto, território e vontade de fazer acontecer.

O Pagode da Gigi começou como uma roda na Zona Oeste e hoje já ganhou outros espaços e públicos. O que significa para você levar essa roda que nasceu em Vila Aliança para outros lugares sem perder a sua essência?

Pra mim, levar o Pagode da Gigi pra outros lugares é mostrar que a Zona Oeste também produz cultura, cria artistas e tem muita história pra contar. Eu tenho muito orgulho de dizer de onde essa roda veio.
A gente nasceu na Vila Aliança, em Bangu, e foi ocupando outros territórios sem deixar nossa identidade pelo caminho. A essência está justamente nisso: uma roda feita por uma mulher, com mulheres muito presentes, com espaço pra todo mundo chegar, e se sentir pertencente. Onde o Pagode da Gigi estiver, eu quero que as pessoas reconheçam a nossa energia. É levar a nossa maneira de fazer samba, mas também levar a mensagem de que mulher pode estar na roda, no palco, na produção, na liderança e em todos os lugares que quiser.

Você é cantora e também está à frente da criação e construção do Pagode da Gigi. Como foi ocupar esse lugar de liderança e transformar uma ideia em um projeto que completa cinco anos?

Na verdade, eu não sou cantora. Eu sou percussionista e só estou aprendendo uns tons pra cantar uns sambas. Ainda é um processo de muito aprendizado e de muita coragem. Porque uma coisa é ter uma ideia; outra é colocar essa ideia na rua, sustentar um projeto, formar uma equipe, criar uma identidade e fazer as pessoas acreditarem junto com você.

E fazer isso sendo mulher no samba tem seus desafios. Muitas vezes a mulher ainda precisa provar que sabe, que entende, que pode liderar. Então construir o Pagode da Gigi também foi construir o meu próprio espaço. Hoje eu olho e vejo que não sou só eu ocupando esse lugar. Tem muitas outras mulheres chegando, trabalhando, tocando, cantando, produzindo e entendendo que elas também podem estar à frente. E isso, pra mim, é uma das maiores conquistas desses cinco anos.

No dia 7 de setembro, vocês fizeram um samba especial para celebrar esses cinco anos. Como foi preparar essa comemoração e o que esse encontro com o público representou para você?

Foi muito emocionante porque comemorar cinco anos não era só comemorar uma data. Era celebrar tudo que aconteceu desde aquela primeira roda na Vila Aliança. A gente reuniu muita gente que faz parte dessa história e, mais uma vez, ocupou o MUHCAB com samba, encontro e alegria. Ver aquele espaço majoritariamente cheio de gente preta feliz, cantando e se encontrando, me fez pensar: olha onde a gente chegou! Foi um dia de festa, mas também de tudo que ainda está por vir. Porque cinco anos, pra mim, não são uma linha de chegada. São a confirmação de que a roda continua girando.

Uma roda de samba não é só sobre música. Ela cria encontros, fortalece vínculos e movimenta o território onde acontece. O que você acredita que o Pagode da Gigi construiu nesses cinco anos para além do palco?

Eu acho que o maior legado do Pagode da Gigi é justamente aquilo que não aparece no palco. Eu consigo construir uma comunicação direta com o público que frequenta o Pagode da Gigi e com isso a gente construiu encontros, amizades, oportunidades e um sentimento de pertencimento. Criou um lugar onde muita gente chega sozinha e sai conhecendo pessoas. E, principalmente, criou um espaço onde as mulheres podem frequentar uma roda de samba com liberdade, segurança e tranquilidade.

Pra mim, isso é muito importante. A mulher não pode precisar pensar duas vezes antes de ir a uma roda porque está sozinha, porque vai ser assediada ou porque não sabe se aquele ambiente é pra ela. Eu quero que o Pagode da Gigi seja esse lugar: onde a mulher chega, samba, canta, ri, encontra as amigas, faz novas amizades e sabe que aquele espaço também é dela. E tem uma coisa muito bonita: quando você fortalece uma roda, você movimenta o território. Você movimenta artistas, produtores, trabalhadores, vendedores, o público. Então o Pagode da Gigi também é sobre economia, cultura, território e pertencimento.

Na postagem de aniversário, você escreveu que “a roda ainda tá girando. Da Vila Aliança pro mundo”. O que você sonha para os próximos cinco anos do Pagode da Gigi?

Eu quero que a roda continue girando e que ela vá cada vez mais longe, sem esquecer de onde veio. Quero ver o Pagode da Gigi chegando a outros territórios, formando novas parcerias, revelando e fortalecendo mulheres no samba e criando cada vez mais oportunidades para artistas e profissionais que estão ao nosso redor. Também sonho com o Pagode da Gigi cada vez mais estruturado, podendo crescer sem perder aquela energia da roda que nasceu na Vila Aliança.

E, principalmente, quero continuar construindo um espaço onde as mulheres se sintam pertencentes e seguras. Porque se nesses primeiros cinco anos a gente mostrou que uma roda de samba criada por uma mulher pode chegar até aqui, nos próximos cinco eu quero mostrar o quanto essa roda ainda pode transformar.

A roda ainda tá girando. Da Vila Aliança pro mundo.