Oficina Perna de Pau abre inscrições para o módulo de Carnaval

A tradicional Oficina Perna de Pau está de volta com o módulo de Carnaval, que começa no dia 11 de outubro. As aulas acontecem aos sábados, nos jardins do MAM (Museu de Arte Moderna) e em uma edição especial na Praia do Flamengo, em dois turnos: das 8h às 10h e das 11h às 13h. Com pacotes a partir de R$ 600 (seis encontros), a oficina oferece também bolsas sociais destinadas a pessoas pretas, trans, indígenas, quilombolas, caiçaras e mães atípicas. Todo o material é fornecido pela organização, incluindo pernas de pau e joelheiras.
Além de ensinar a técnica de andar em pernas de pau, o projeto também fortalece redes comunitárias, fomenta a criação de grupos carnavalescos e propõe uma vivência transformadora. Veja mais detalhes da conversa com a fundadora da iniciativa, a atriz e educadora Raquel Potí.
Quem é Raquel Potí e de que forma você atua no Oficina de Perna de Pau?
Raquel Potí, atriz, pernalta, produtora cultural, diretora artística, educadora, mãe. Caiçara de Pedra de Guaratiba, fundadora da @oficinapernadepau, grande entusiasta da cultura pernalta no Rio desde 2014. Co-gestora no @blocodaterreirada e @blocoamigosdaonca. Fundadora da @fabricadegigantes_, incubadora de projetos culturais com impacto social. Homenageada com moção honrosa na câmara municipal pela relevância de seu trabalho cultural para a cidade do Rio de Janeiro, premiada pelo Serpentina de Ouro do Jornal O Globo como destaque do carnaval, e homenageada pela Rede Telecine como protagonista na sua área de atuação.

Para apresentar a Oficina de Perna de Pau para quem ainda não conhece, como e quando você iniciou com o projeto? Quais eram seus objetivos e pretensões no início e como você enxerga a construção do projeto atualmente e em planos futuros?
Quando tinha 5 anos, vi a folia de Reis em Pedra de Guaratiba, e aquela magia do palhaço me apresentou o mundo da encantaria. Eu nunca mais fui a mesma. Passei o resto da vida buscando essa magia de novo. Em 06/01/2009, dia de Reis, um grande companheiro faleceu por linfoma de Hodgkin. Nesse momento eu morri junto. Renasci para construção de uma nova possibilidade de existência, em que eu gostaria de gastar meu tempo de vida, com algo que fizesse sentido. Que de alguma forma contribuísse na construção de uma sociedade mais amorosa, equânime e justa.
Entre viagens pros interiores, do Brasil, América do Sul, América Central e Ásia. Convivendo com mestres e mestras da cultura popular, conheci a perna de pau. Mas foi durante um período no meio da floresta amazônica, no Céu do Mapiá, que senti minhas asas sendo costuradas, desamarradas nas minhas costas. Quando voltei a morar no Rio, incluí a perna de pau em números da cia de teatro chap (companhia horizontal de arte pública), que faço parte. Por um ano realizei oficina perna de pau na quadra do Fogueteiro, uma favela em Santa Teresa, pra 20 crianças. Com o apoio da chap.
Em 2014 fiz uma surpresa pro bloco das Carmelitas, onde desfilava à frente da bateria desde 2010, e no meio do desfile, montei nas pernas de pau com asas enormes. Participei de vários blocos naquele ano. Foram várias capas de jornal e matérias, muita gente dizia que a partir dali, passou a ver a perna de pau como uma possibilidade de performance no carnaval e em eventos diversos. Logo, comecei a oferecer oficinas para blocos de carnaval que não tinham pernaltas ou alas pernaltas organizadas.
E inauguramos alas pernaltas em diversos blocos como Cordão do Boitatá, Bloco da Terreirada, Amigos da Onça, Virtual, Monobloco, Quizomba, entre outros. Com a intenção de compartilhar os saberes desse brinquedo antigo, afrodiaspórico, originário, com mais pessoas. A perna de pau tinha mudado a minha vida e me mostrado uma nova possibilidade de voar, o que simboliza potencializar dons e talentos, fortalecer redes e comunidades e criar ambiente seguro e acolhedor pra esses voos acontecerem. Pra cada pessoa se expressar e se conhecer mais, e consequentemente reconhecer sua comunidade.
No período junino, criamos a Quadrilha de Gigantes, que une pernaltas formados durante todos os anos de vida da oficina, esse ano a Quadrilha de Gigantes completou 10 anos. Numa grande celebração. Convidamos o marcador federado @rodrigorjshow, e com a quadrilha de gigantes já abrimos o show do Alceu Valença na fundição com 200 pernaltas, participamos de diversos arraiás na cidade do rio, somos residentes na Feira de Tradições Nordestinas, e também brincamos em outras cidades, como Rio Bonito e Teresópolis.
Além do calendário da nossa escola, com aulas, ensaios e apresentações, espontaneamente acontecem encontros, viagens, pesquisas, que trazem pro movimento uma série de práticas que o transformam em cultura, cultura pernalta. Com hábitos e costumes, que transformam nosso cotidiano, permanentemente.

Quais são suas referências e inspirações para a arte de Perna de Pau?
Mestres e mestras da cultura popular, seus legados e fazeres, e na artesania do fortalecimento de comunidades. Palhaço da Folia de Reis, Bate Bolas, Reisado de Congo, Mestre Jamelão, carroça de mamulengos, Sei Estrelo, Cia Tem sim Sinho, crianças do omovalle na Etiópia, voduns do Benin, Seu Xico Rocha (pai da Bárbara Vento), Vô Kinho, Vó Ude, Vô Cézar, Vó Baiu, Pretinha, e vários grupos e artistas que vieram antes de nós, alimentando o fogo da esperança, e outros tantos que atualmente movimentam a cena pernalta do seu jeitinho próprio e apoiam na construção de memórias pernaltas no nosso imaginário.
Para quem deseja ingressar agora, o que os alunos podem esperar das aulas?
Aprender a andar com pernas de pau, fazer novas amizades, brincar, vivenciar uma travessia transformadora. Ver a si e o mundo a partir de um novo ponto de vista.
Qual o período de duração da oficina?
Temos dois módulos anuais. Módulo Carnaval que acontece em Outubro e novembro, esse ano as aulas começam dia 11/10. São seis encontros. Depois começam os ensaios para os projetos que fazemos parte.
E o módulo junino, que acontece em abril e maio. Seguido por ensaios e apresentações da quadrilha de gigantes e bloco da terreirada.
Você tem alguma história legal da oficina para compartilhar com a gente?
Já passaram pela Oficina mais de 1.800 pessoas. Somos testemunhas de uma virada de chave na história da perna de pau no carnaval carioca, e na vida de muita gente. Temos diversos depoimentos de ex-alunos ressaltando a participação na Oficina Perna de Pau como fator fundamental pra grandes transformações em suas vidas, contribuindo significativamente pro desenvolvimento da autonomia, melhora de autoestima, saúde mental e desenvolvimento artístico.
Nossa oficina trabalha a técnica, mas também trabalha o fortalecimento de comunidade, e o desenvolvimento pessoal através da arte. Nosso trabalho se estende para além do carnaval, ele é construído ao longo do ano, com as oficinas nos jardins do MAM, e em outros territórios. Formamos o primeiro grupo pernalta do complexo da Penha, o Gigantes da Penha, o primeiro grupo pernalta da zona oeste, o Gigantes de Pedra e também em Salvador, com o Gigantes de Salvador.
Também da nossa oficina nasceu o bloco piranhas perdidas, com a intenção de convidar toda rede carnavalesca brincante, num movimento aberto e acolhedor. Também Somos parte da @fabricadegigantes_ uma incubadora de projetos culturais com impacto social. Além das oficinas de perna de pau, também oferecemos oficinas de figurino, máscaras, teatro popular, estandartes e etc.
Participar da Oficina é literalmente uma travessia. Um salto pra uma nova percepção de mundo. É ver a si e o mundo através de um novo ponto de vista.

Conte um pouco sobre os professores do projeto, são quantos ao todo e como eles ingressaram?
Eu, Raquel Potí, sou a professora e fundadora; e temos uma equipe de apoio voluntária de ex-alunos que voltam para apoiar os novos passarinhos. Além de uma equipe de Produção, com 4 integrantes: Bruno Rubinato, Bruno Simas, Bernardo Santos e Caio Reis (substituindo a Bellas da Silveira).
No total são quantas pessoas que fazem o Oficina de Perna de Pau acontecer?
Em média mais de 50 pessoas se envolvem sazonalmente nas aulas.
De que maneira eles colaboram?
Apoiando nas aulas e dando suporte pro novos alunos.
Quais são os dias e horários das aulas?
Sábados, 8h às 10h e 11h às 13h no módulo Carnaval.
O módulo junino acontece aos sábados de 11h às 13h e 14h às 16h.
Onde acontecem as aulas?
Jardins do MAM e tem uma aula especial na Praia do Flamengo.

Quais são os valores?
A partir de 600 reais o pacote com 6 aulas. Sai a menos de 50 reais a hora aula. Mas se você gostaria de contribuir para além do valor mínimo, temos mais duas opções de valores, onde você pode apoiar no nosso sistema de bolsas sociais. O valor escolhido não influencia em nada do serviço recebido.
Há algum tipo de bolsa?
Bolsas sociais para pessoas pretas, trans, indígenas, quilombolas, caiçaras e mães atípicas.
Interessados em saber mais sobre as aulas e outros possíveis projetos, qual é o melhor meio de contato com vocês? O perfil no Instagram mesmo ou algum outro canal?
Perfil do Instagram da Raquel Potí para projetos, e dúvidas sobre a oficina pode falar direto com o Bruno Rubinato em: (21) 98314-0525.
Tem algum assunto que não abordamos nas perguntas mas que você acha importante e gostaria de falar?
Importante destacar que durante as aulas nós oferecemos todo material: Pernas de pau e joelheiras. Que a nossa escola, além da técnica de andar em pernas de pau, introduz aspectos de segurança e comportamento, para ocupações de espaços públicos, fortalecendo uma comunidade pernalta atenta, generosa e cuidadosa, e muito animada.
Taís Aparecida