Ivone Lara vive: vozes femininas marcam o samba hoje

abril 13, 2026

O samba tem muitas vozes, mas poucas são tão simbólicas quanto a de Dona Ivone Lara. Nascida em 13 de abril, ela não só marcou a história da música brasileira como abriu caminhos para gerações de mulheres que hoje seguem ocupando, com cada vez mais força, os espaços desse gênero musical. A data também marca o Dia da Mulher Sambista, que celebra a trajetória de mulheres que, ao longo dos anos, lutaram por espaço em um cenário historicamente masculino.

Hoje, esse legado segue vivo nas vozes de artistas que continuam transformando o samba por dentro. Para entender como esse caminho vem sendo construído na prática, conversamos com as sambistas Silvia Duffrayer e Mariana Solis, integrantes do grupo Samba Que Elas Querem. Entre desafios, conquistas e resistência, elas refletem sobre o papel da mulher no samba contemporâneo, a importância de Dona Ivone Lara e os movimentos necessários para tornar o gênero mais plural e igualitário.

O legado de Dona Ivone Lara e o Dia da Mulher Sambista

Falar do Dia da Mulher Sambista é, antes de tudo, falar de Dona Ivone Lara. Primeira mulher a assinar um samba-enredo em uma escola de samba e dona de uma obra que atravessa gerações, ela rompeu barreiras em um ambiente dominado por homens e se tornou referência não apenas para mulheres, mas para todo o universo do samba. Mais do que pioneira, Dona Ivone construiu uma trajetória marcada por sensibilidade, talento e resistência. Seu reconhecimento tardio também revela as dificuldades enfrentadas por mulheres no gênero, um cenário que, embora tenha avançado, ainda carrega desigualdades.

“Prefiro começar dizendo que Dona Ivone é a maior referência que temos no universo do samba. Respeitada entre homens e mulheres. O gênero só reforça e acentua sua força”, afirma Silvia Duffrayer. Para Mariana Solis, a importância vai além da música: “Ela atravessou diversos obstáculos para conseguir assinar um samba-enredo. Algo que hoje pareceria absurdo, mas que devemos ser gratas à ela pela coragem e persistência. Ela abriu caminhos mesmo.”

Ser mulher no samba hoje: entre avanços e desafios

Apesar das conquistas, o caminho ainda exige resistência. Silvia aponta que, mesmo em 2026, as estruturas do samba seguem, em muitos espaços, dominadas por homens. “Eu ainda vejo o quanto os homens se protegem e se promovem, se agrupam de forma que eles cantam as parcerias deles, chamam os amigos deles, e a gente segue tentando furar essa bolha”, destaca. A percepção é compartilhada por Mariana, que reconhece avanços, mas reforça que a desigualdade ainda é visível, especialmente em espaços mais tradicionais como escolas de samba.

“O quantitativo de grupos exclusivamente femininos ainda é menor em relação aos masculinos. São pouquíssimas intérpretes, puxadoras e percussionistas mulheres nesses espaços, que ainda são vistos como territórios majoritariamente masculinos.” Ainda assim, ambas concordam que há um movimento em curso. Silvia observa que hoje já é possível ver mais mulheres ocupando rodas de samba, ainda que em número reduzido. “Já vemos muitas mulheres tocando em rodas que antes seriam majoritariamente masculinas. Mas ainda é algo de uma ou no máximo duas integrantes. Precisamos seguir firmes pra ajustar essa balança.”

Barreiras, resistência e afirmação

As dificuldades não são apenas estruturais, mas também cotidianas. Silvia é direta ao falar sobre sua experiência: “Enfrentei e não foi uma nem duas. Enfrento diariamente muitas barreiras e dou meu jeito de driblar pra não ser sucumbida.” Mariana também relembra episódios de preconceito e deslegitimação, especialmente em ambientes profissionais: “Já passei por situações desagradáveis como comentários que colocavam em cheque a qualidade do meu grupo feminino. Lido com isso entregando o que sei fazer, mas confesso que às vezes o embate é necessário.” Nesse contexto, ocupar o espaço se torna, por si só, um ato político.

Múltiplas funções e novos caminhos no samba

Se antes o lugar da mulher no samba era limitado, hoje ele se expande em múltiplas frentes. Cantar, tocar, compor e produzir fazem parte de uma nova configuração do gênero, e ajudam a consolidar essa presença. Para Silvia, naturalizar mulheres como instrumentistas é parte dessa transformação: “Eu penso que cantar e tocar tem sido cada vez mais natural pra mim. E naturalizando essa presença, eu acabo contribuindo com uma revolução.” Ela também está à frente do projeto Samba Da Sil, no Mirante da Babilônia, que busca fortalecer o samba dentro da comunidade e ressignificar olhares sobre a favela.

“Não é só um lugar de sofrimento, mas de um povo lindo que merece acesso ao entretenimento. E também é um espaço pra ser visto e vivido por todos.” Mariana, por sua vez, destaca como sua atuação como percussionista ampliou sua visão musical: “Ter conhecimento de ritmo e técnica transformou meu entendimento das músicas e me inspira a evoluir sempre.” Além do samba, ela também atua como designer gráfica, uma experiência que, segundo ela, contribui diretamente para o trabalho artístico do grupo, inclusive na construção de identidade visual e lançamentos.

O futuro é coletivo

Se há algo que une essas trajetórias, é a construção coletiva. O grupo Samba Que Elas Querem, por exemplo, nasceu de encontros despretensiosos entre mulheres e hoje se consolida como um espaço de criação, troca e fortalecimento. Para Mariana, o caminho passa por apoio mútuo e articulação: “Procurem frequentar rodas com quórum feminino, apoiem mulheres nas redes, estudem, se articulem e comecem. Foi assim que tudo começou pra gente.” Silvia reforça a importância de seguir em movimento: “Se você sente vontade de tocar, cantar, compor… vai fundo.”

Um legado que segue vivo

Celebrar o Dia da Mulher Sambista é reconhecer o caminho aberto por Dona Ivone Lara, mas, sobretudo, olhar para quem segue escrevendo essa história hoje. Entre desafios e conquistas, mulheres continuam ocupando, transformando e reinventando o samba. E, como mostram Silvia Duffrayer e Mariana Solis, esse movimento não tem volta. O samba também é delas, e cada vez mais.