HONK! RIO 2025: cinco dias de fanfarras, ocupação e festa pelas ruas da cidade

As ruas do Rio de Janeiro voltam a pulsar entre os dias 19 e 23 de novembro com a chegada do Honk! Rio 2025, o maior encontro de fanfarras ativistas do país. Serão 43 bandas e mais de 100 apresentações ocupando diferentes cantos da cidade, transformando o espaço público em celebração, arte e movimento. O festival, que nasceu em Boston e floresce no Rio desde 2015, reúne músicos de rua, coletivos culturais e público em uma grande festa colaborativa. A nova edição promete cinco dias intensos de música, cortejos, encontros e ocupações urbanas. E, como sempre, tudo é gratuito, aberto e vibrante — do jeito que o Honk! sabe ser.
A programação atravessa bairros como Santa Teresa, Glória, Lapa, Méier, Ipanema, Centro e Aterro do Flamengo, cada um recebendo parte dessa maratona sonora. A abertura acontece na Cinelândia, coração histórico da cidade, enquanto o encerramento toma o Aterro do Flamengo em um final épico à beira da Baía. No caminho, o público passa por rituais na Aldeia Maracanã, batalhas de rimas no Méier, festas em Santa Teresa e mergulhos no Arpoador, além de encontros que fortalecem causas sociais no Teatro dos Anônimos. É música, corpo e território caminhando juntos. O festival mais vibrante do ano está só começando.
Para entender a trajetória do Honk! no Brasil, seu caráter ativista e seu impacto na formação de fanfarras pelo país, conversamos com Juliano Pires, músico, produtor e responsável por trazer o festival para o Rio em 2015. Ele conta como tudo começou, explica as diferenças entre bloco e fanfarra e revela como o Honk! se organiza para seguir crescendo de forma colaborativa. Confira a entrevista a seguir.

Como surgiu a ideia do Honk! e como foi a primeira edição no Brasil?
O Honk! nasceu nos Estados Unidos, em Boston, há cerca de 20 anos, e depois se espalhou para outras cidades como Nova York, Providence, Texas e Seattle. Os Siderais foram a primeira fanfarra da América Latina convidada para participar do festival — tudo pago pelos organizadores.
Fui atrás do Honk! em 2012, pesquisando festivais de fanfarra no Facebook. Começamos a conversar, produzimos juntos essa ida dos Siderais e, em 2013, chegamos lá. Fizemos reuniões com a direção do festival e pedi a permissão para trazer o conceito para o Rio. Eles aceitaram, desde que mantivéssemos os princípios originais.
Assim nasceu o Honk! Rio, cuja primeira edição aconteceu em 2015.
Como funciona hoje para que existam edições em várias cidades?
Desde o início, uma regra permanece: cada cidade tem autonomia, mas o festival precisa ser produzido por músicos das fanfarras locais, as fanfarras anfitriãs. Não pode ser alguém de fora.
A única coisa que não pode mudar são os princípios:
- festival colaborativo
- trabalho voluntário
- independência de empresas e patrocinadores
- ocupação do espaço público
- caráter ativista
O Honk! é gratuito, ocorre nas ruas e tem origem em um festival que se autodefine como “Festival de Fanfarras Ativistas”. No Brasil, adaptamos para “Festival Ativista de Fanfarras”, porque aqui não existiam tantas fanfarras ativistas no início. O objetivo é incentivar que elas se tornem ativistas, promovendo arte como transformação social, política e ecológica.
O que uma fanfarra precisa para tocar no circuito do Honk!?
Como todo festival, existe uma curadoria, com autonomia para aceitar ou não bandas inscritas. Os critérios incluem:
- qualidade artística
- coerência com os princípios do festival
- não ser um grupo comercial demais
- ser uma fanfarra (e não um bloco)
A curadoria busca agregar o máximo de fanfarras possível — todo ano só uma ou outra não é selecionada. Também há espaço para voluntários, que ajudam em diversas funções na produção, e apoiadores que entram via escambo, já que a proposta é colaborativa.
Por que blocos não podem tocar no Honk!?
Porque o Honk! é um festival que fomenta fanfarras.
Se abríssemos para blocos, o festival seria rapidamente engolido, especialmente no Rio, onde existem milhares de blocos e muito menos fanfarras.
Desde que o Honk! Rio existe, surgem cerca de cinco novas fanfarras por ano, muitas dizendo claramente: “nós criamos a fanfarra para tocar no Honk!”.
Isso mostra que restringir o festival às fanfarras gera impacto real no cenário.
Qual a diferença entre bloco e fanfarra?
Juliano destaca quatro pontos fundamentais:
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Relação e responsabilidade do grupo
– No bloco, quem quer vai; quem não quer, não vai.
– Na fanfarra, é uma banda: cada ensaio, show e decisão é combinada. Todos são responsáveis e fazem parte da organização. -
Número de integrantes
– Blocos podem ter até 100 pessoas (ou mais).
– Fanfarras costumam ter 8 a 20 músicos. -
Finalidade e calendário
– Blocos existem para o carnaval.
– Fanfarras tocam o ano inteiro e têm trabalho contínuo. -
Arranjos musicais
– Blocos trabalham arranjos mais simples e uníssonos.
– Fanfarras têm arranjos elaborados, com vozes independentes — se faltar um instrumento, falta uma parte da música.
O lado político e social do Honk!
Juliano explica que fanfarras e blocos vivem sempre no limiar entre:
– serem ferramentas de transformação, ocupação e consciência
ou
– virarem parte da lógica do “pão e circo”, da alienação e do consumismo.
O Honk! tenta sempre reforçar o primeiro caminho: usar a arte como ferramenta política, sem perder a alegria, a festa e a liberdade.