Entre tambores e cidade: a construção sonora do Percute

novembro 27, 2025

O Bloco Percute mantém viva uma pesquisa profunda sobre percussão de rua, unindo referências afro-brasileiras, latino-americanas e experimentações próprias que moldam sua identidade sonora. Suas oficinas funcionam como um espaço de troca e construção coletiva, onde integrantes desenvolvem técnica, percepção rítmica e a linguagem que o grupo cultiva ao longo dos anos. A proposta vai além da prática musical: é uma imersão no modo como o Percute entende e sente a cidade por meio do tambor. Embora seja um projeto formativo contínuo, a temporada de 2025 já encerrou suas inscrições.

A temporada atual do Percute, iniciada em maio deste ano, segue até fevereiro de 2026, quando o grupo realiza uma apresentação de encerramento para compartilhar o repertório e o processo vivido nas oficinas ao longo do ano. É nesse período que o trabalho rítmico, coletivo e criativo ganha forma diante do público. No entanto, não há vagas abertas para ingressar nesta temporada, que já está em andamento. Quem tem interesse em futuras turmas e atividades deve acompanhar as atualizações diretamente no Instagram do bloco. A seguir, confira a conversa completa com La Rosa, co-fundador do Percute, sobre a construção das oficinas as referências do bloco e muito mais.

Como surgiu a ideia do Percute?

A ideia do Percute nasceu durante a pandemia — e, curiosamente, não começou como uma oficina. A primeira intenção era criar um espaço virtual dedicado à Percussão, começando pelo Instagram: um lugar para celebrar percussionistas, ritmos, instrumentos, movimentos culturais e tudo que orbitasse esse universo. Pensávamos em podcasts, uma lojinha, rodas de conversa (na época as salas virtuais estavam em alta), indicações de discos, shows… tudo que pudesse alimentar essa paixão.
Contei a ideia para vários amigos e o primeiro que embarcou de imediato foi o Leo Santos, do Estratégia, que inclusive me ajudou a escolher o nome “Percute”. Formado em comunicação, Leo já veio com gás total para começarmos o podcast. Gravamos uma temporada completa com convidados próximos, e foi muuuuuuito maneiro. Mas, com o fim do lockdown e a volta das gigs, o ritmo foi caindo. Também percebemos que, para continuar, precisaríamos investir em estrutura, e preferimos dar uma pausa. Ainda pensamos em retomar o podcast (inclusive estamos abertos a parcerias … About, se estiver lendo isso, estamos falando sério!).
Com essa ideia guardada na gaveta e todo esse universo criado em casa, eu e Uyrá decidimos colocar mais uma faceta do Percute no mundo: a oficina.
Em 2022 fizemos algumas aulas em formato de workshop, já imaginando transformar em algo contínuo. A partir dali, oficializamos a oficina, e chegamos até aqui.
Ah! E a lojinha tá on! Temos sempre maceta e talabarte pra vender. Agora tá rolando peles e camisas.

 

Não dá pra não perguntar, como é essa conexão de trabalho entre pai e filho?

Ah, é muito maneiro! A gente já tinha um rolê muito forte, e o Percute só aprofundou tudo. Temos uma relação muito relax, leve mesmo… e a gente sabe o quanto isso é especial.
Como o “coroa do rolê”, eu me sinto aprendendo o tempo todo. E, ao mesmo tempo, o Uyrá tem um respeito enorme pelos meus 30 anos de carnaval de rua. Essa troca de gerações funciona de um jeito muito natural, muito bonito, e acho que isso se reflete direto no trabalho.
O mais legal é que seguimos sonhando juntos, pensando em voos maiores, criando possibilidades. Enquanto tem pais e filhos que marcam o macarrão de domingo (que é maravilhoso, aliás!), a gente está ali trocando figurinha de ritmos, levadas, convenções para usar nas aulas, para estudar, para aprender.
Uma puta conexão… muito verdadeira.
Se ligaram no “sonhando juntos”? Eu acho isso muito foda.

Quais eram os objetivos e pretensões no início e como vocês enxergam a construção do oficina atualmente e em planos futuros?

Desde o início, nosso objetivo foi muito simples e muito profundo: oferecer, com humildade, um pouco do conhecimento que temos para quem estiver disposto a aprender. Não somos entusiastas da lógica dos “craques”. A gente respeita, claro, mas não é a nossa praia. O que nos move é outra coisa.
Temos um respeito enorme pelos tambores e por todos que vieram antes… muitos deles marginalizados, invisibilizados, carregando tudo o que hoje a gente vive com orgulho. Colocar um tambor na rua é muita responsabilidade. O carnaval pode ser profano, psicodélico, caótico, mas tem fundamento. E a gente tenta honrar quem sangrou a mão antes da gente chegar.
O carnaval é a festa mais democrática do mundo, mas se você está com um tambor na mão, você responde por ele. É responsabilidade das grandes.
Sobre o futuro? Temos muitos planos. Queremos crescer, abrir outras frentes, sair um pouco da nossa bolha e explorar outros territórios. Queremos viajar mais com a oficina, como já fizemos algumas vezes, mas de forma mais constante.
Também sonhamos em ampliar o escopo: abrir espaço para outros instrumentos e até para outras frentes do carnaval que andam perdendo força: como oficinas de fantasias, adereços, construção de outros “lugares” de carnaval de rua.
Temos falado muito nisso. Queremos resgatar isso: menos look, mais adereço! O Boitatá dá uma aula nisso.

Ah, e pode anotar: teremos surpresas alegóricas esse ano.

 

Vocês convidam diversos professores para ministrar uma ou duas aulas, certo? Como é feito essa curadoria e qual o ganho dos alunos com essas novas experiências/visões?

Sim! Recebemos mestres nas nossas aulas, e isso tem sido gigante pra gente.
Alguns alunos até nos chamam de “mestre”, com carinho, e entendemos que isso nasce do clima de troca das aulas. Mas, como já falei, a gente tem muito respeito por quem veio antes e abriu caminho. Por isso, trazer mestres é quase uma obrigação ética e afetiva.
Nesses três anos tivemos a honra de receber Lenynha, Garnizé, Mestre Jackson e Minhoca. Se algum desses nomes não soar familiar, vale o Google… é só referência braba.
Cada um chega trazendo história viva: trajetórias pessoais, contextos culturais, memórias de rodas, bastidores de blocos, segredos técnicos… Histórias de como certos ritmos nasceram, quem inventou determinada levada, como uma pegada de baqueta lá de 40 anos atrás transformou a digitação de um instrumento e criou identidade do ritmo até hoje. É de arrepiar.
Esse tipo de encontro enriquece demais o rolê… dos alunos e nosso também. Porque não é só aula: é transmissão. É ancestralidade pulsando ali na nossa frente.
É mágico.
A gente ainda está enebriado com a visita do minhoca. O cara falou de amor! Amor! Isso foi demais. Que cara generoso. Musicalmente e didaticamente. O cara no discurso final destacou os alunos iniciantes, que nitidamente tinham mais dificuldade. Geralmente os “louros” ficam com os alunos mais avançados. Ele resolveu destacar o iniciante. A importância de se colocar no lugar de desafio e não desistirem jamais. Lindo demais! E ainda citou a importância dessa geração nova, destacando Uyra e o Lucas da Lapa (mestre do Orú Mila, que além de amigo é um grande parceiro), que se dispõe a perpetuar todo esse rolê. Lindo demais. Me chamou de velho, mas tudo bem… rsrs
E quanto mais vivemos isso, mais temos certeza de que queremos trazer novas vozes, novas memórias e novos mestres. Porque é assim que se mantém viva a história da percussão.

 

É só de percussão certo? Quais são os instrumentos que têm na oficina?

Por enquanto, sim… é uma oficina focada exclusivamente em percussão. E, apesar de querermos expandir para outras frentes no futuro, a percussão sempre vai ser a estrela desse rolê.
Hoje trabalhamos com:
surdos (dobras e fundo), caixa, timbal, repique/bacurinha e leves (agogô, agbê, ganzá).

 

Quais referências servem de inspiração para vocês nas oficinas?

São muitas referências! Justamente por não sermos uma escola ou um bloco tradicional, a gente se permite beber de várias fontes, e a gente entende como uma grande possibilidade da oficina.
Buscamos inspiração nos blocos afros e nas matrizes baianas, como Ilê Aiyê, Olodum, Muzenza e Timbalada.
Também olhamos para grandes nomes da percussão do mundo e do Brasil, como Doudou N’Diaye Rose, Mamady Keïta, Mestre Memeu, entre tantos outros que formaram a base do que tocamos hoje.
E, claro, estamos sempre atravessados pelos ritmos brasileiros que fazem parte da nossa vida: baião, funk, ijexá, agueré, e o que mais aparecer.
A verdade é que a gente bebe de tudo, com todo respeito, e mistura isso de um jeito que faça sentido para o nosso grupo.

Para quem deseja ingressar agora, o que os alunos podem esperar das aulas?

Groove — muito groove!
Mas, além disso, os alunos podem esperar um ambiente leve, cheio de troca.
Aqui a gente toca junto, erra junto. E bebe de vez em quando.

Qual o período de duração das oficinas?

O ciclo da oficina começa entre abril e maio, segue até o pré-carnaval do ano seguinte, que é quando colocamos o nosso cortejo na rua, com percussão e sopros. Esse é o fechamento do ciclo.
Antes disso, nos meses de outubro, novembro e dezembro, fazemos os arrastões, que são só de percussão.

9- ⁠Você tem alguma história legal da oficina para compartilhar com a gente?

Não tem exatamente um episódio só… o mais bonito, pra mim, é acompanhar o progresso individual de cada pessoa. Ver alguém que chegou tímido, inseguro ou totalmente iniciante tocando com confiança é muito maneiro.
Outra coisa é perceber que temos um grupo muito maneiro, que topa absolutamente todas as nossas doideiras.

Além de vocês dois, tem mais algum professor direto com a turma? Se sim, qual o papel que ele trás pra oficina?

Hoje somos só nós dois ministrando as aulas.
Planejamos tudo em casa, em reuniões semanais, definindo repertório (esse os alunos ajudam), exercícios, metas.
E assim seguimos tocando o barco juntos.

Ao todo são quantas pessoas que fazem o Percute acontecer? De que maneira elas colaboram?

Hoje, estruturalmente, somos só nós dois tocando tudo. Mas o Percute não acontece sozinho — temos apoios que vêm de todos os lados. Alguns alunos ajudam em criações, ideias, indicações que fazem muita diferença no dia a dia.
E temos também a Fernanda Ojuara, que é quem dá vida às artes e às edições que vão para as redes. Mina braba.

Quais são os dias e horários das oficinas?

As oficinas acontecem toda terça-feira, das 20h às 22h.
Além disso, sempre que as agendas permitem, fazemos ensaios e encontros extras aos fins de semana, principalmente agora, verão chegando e claro nos preparando para o cortejo.

Onde acontecem as aulas?

Rua do Riachuelo 13. Espaço Casarão da lapa.

Quais são os valores das oficinas? Os preços mudam a depender da oficina?

230 reais. Não. É o preço da mensalidade e só.

Há algum tipo de bolsa?

Temos, sim. Hoje oferecemos bolsas para pessoas pretas e trans… ainda de forma tímida. Nossa intenção é ampliar esse alcance no próximo ano. Também temos o desejo de incluir grupos em situação de vulnerabilidade social, mas isso ainda está em construção. Acreditamos que, com uma produção nos apoiando, vamos conseguir chegar em mais lugares e oferecer essas bolsas de maneira mais estruturada.

Interessados em saber mais sobre as aulas, oficinas e outros projetos, qual é o melhor meio de contato com o Percute?

Hoje o nosso principal canal de contato é o Instagram… é onde divulgamos as aulas, avisamos sobre vagas, mostramos os bastidores e respondemos dúvidas. Tem funcionado super bem e é onde estamos mais presentes.

Tem algum assunto que não abordamos nas perguntas que vocês gostariam de falar?

Além dos arrastões, que começamos no ano passado e queremos muito que se tornem tradição, este ano fizemnos também a nossa festa de largo… uma festa junina baiana inspirada no que acontece no Nordeste, e que vem ganhando força como um movimento de resistência aos grandes eventos.
É uma celebração que a gente ama, respeita e quer manter viva: brincar, cantar, tocar e reunir as pessoas na rua, do jeito mais simples e mais forte possível.
A ideia é repetir todos os anos e transformar essa festa em mais uma frente bonita do Percute.