Entre o jazz e o Carnaval: Diogo Acosta fala sobre música, rua e criação

Um dos fundadores do Amigos da Onça, integrante do Boitatá e personagem ativo da retomada do Carnaval de Rua Carioca, Diogo Acosta construiu sua trajetória entre cortejos que arrastam multidões e projetos musicais autorais. Se muita gente ainda o associa aos blocos que marcaram a história recente da folia no Rio, hoje o músico também se destaca na cena instrumental, levando o jazz para teatros, festivais e ocupações culturais pela cidade. Em entrevista à About, ele reflete sobre essas duas paixões que moldam sua carreira.
Da espontaneidade das ruas ao improviso do jazz, Diogo enxerga conexões profundas entre os universos que atravessa há décadas. O músico fala sobre a evolução do Carnaval de Rua, os desafios enfrentados pelos blocos na era das redes sociais, o trabalho de formação de novos artistas e o momento atual de projetos como o Olho do Mundo, que vem ampliando sua presença na cena cultural dentro e fora do Brasil.

Como um dos fundadores do Amigos da Onça e participante de diversos movimentos importantes do Carnaval Carioca, qual foi o momento em que você percebeu que o Carnaval de Rua tinha se transformado em um fenômeno cultural de grandes proporções?
Foi em 2016, no cortejo do Amigos da Onça, que fizemos na Av. Chile. Eram 3h da manhã de sexta pra sábado de Carnaval, e a avenida já tava lotaaada. Não sabia nem que o ADO tinha essa proporção, e nem que o carnaval já tava desse tamanho.
Você esteve presente em momentos importantes da construção do Carnaval de Rua contemporâneo no Rio, participando de blocos como o Boitatá e o Amigos da Onça. Que lembranças mais te marcam daquela época e o que era diferente em relação ao Carnaval que vemos hoje?
Me lembro muito das fantasias. Como as pessoas entravam nos personagens, brincavam e de fato estavam fantasiadas de alguma coisa. Hoje em dia, a fantasia caiu em desuso rs.
Hoje existem redes sociais, grupos de WhatsApp e páginas especializadas que ajudam a divulgar os blocos e organizar o público. Na sua visão, o que mudou (seja para melhor ou pior) entre o Carnaval que você conheceu há 20 anos e o Carnaval atual?
Hoje em dia é praticamente impossível fazer um bloco pequeno, pq no meio do trajeto, já vão ter compartilhado localização, feito stories, etc, e o bloco vai ficando gigante. Isso é legal por democratizar mais a festa, mas ao mesmo tempo, esse carnaval não-oficial não consegue dar conta de tantos foliões num mesmo bloco: não tem estrutura, espaço físico (pra músico e folião), não tem volume sonoro, e aí muitas vezes o bloco se satura.
Ao longo da sua trajetória você esteve envolvido em diversos projetos musicais, desde blocos de rua até bandas para eventos, trabalhos autorais e produções audiovisuais. O que conecta todas essas experiências e como elas influenciam umas às outras?
Essas experiências se conectam por ter sempre a música como ferramenta de comunicação social. Uma forma de “falar” com muita gente, e no fundo criar um momento de união, de uma experiência potente, que por ser compartilhada por tanta gente, fica mais marcante ainda.
O jazz sempre aparece como uma influência marcante no seu trabalho. Como essa linguagem musical conversa com o Carnaval de Rua e com os projetos que você desenvolve hoje?
O Carnaval de Rua me ensinou a tocar de ouvido. A puxar uma música que eu nunca tinha tocado, e ter que dar um jeito de fazer ela acontecer ali, no calor do momento. E o jazz é exatamente isso: puro ouvido e saber improvisar de acordo com o momento. Além disso, o carnaval me ensinou o poder e o prazer de fazer música instrumental na rua. A partir disso, busco sempre uma forma de ocupar a rua com minha música, seja com o jazz do Pijama Elétrico ou o Olho do Mundo, seja com os blocos de carnaval que faço parte: Bizu, ADO, 442, Boitátá, Virtual, etc. Poder fazer música instrumental na rua, de graça, pra todo mundo, é uma das coisas que mais me move hoje em dia.
Atualmente, o Olho no Mundo parece ocupar um lugar especial na sua trajetória. Como surgiu o projeto e o que ele representa neste momento da sua carreira?
O Olho do Mundo é um projeto que une sonoridades de diferentes partes do mundo à música brasileira, através da linguagem do jazz. Ele me permite abraçar várias referências musicais que eu tenho, e tocar elas do meu jeito. E isso tá abrindo portas. Fiz esse show num festival incrível de jazz no Uruguai, em diferentes teatros do Rio, e agora tenho feito sempre na rua, no Beco da Cultura.
Além dos palcos e dos cortejos, você também atua na formação de músicos, tendo participado das oficinas do Amigos da Onça e de atividades de ensino. O que mais te motiva quando está compartilhando conhecimento com novos músicos?
Ver que a música pode ser feita por todos. Independente de quão bem você toca, você sempre vai evoluir e dominar cada vez mais essa linguagem.
Depois de tantos anos ajudando a construir a cena cultural e carnavalesca do Rio, quais desafios você enxerga para o futuro do Carnaval de Rua e o que gostaria de ver preservado das suas origens?
O Carnaval não pode perder a brincadeira, a alegria, e principalmente a espontaneidade, seja de tocar um repertório novo, seja de criar um bloco de repente, que carrega multidões e faz todo mundo feliz.