Corpo Solto: projeto de Jéssica Queiroz celebra o funk, a dança e o corpo como formas de valorização e liberdade

Com aulas que unem técnica, liberdade e muito funk, o Corpo Solto, projeto criado pela dançarina e coreógrafa Jéssica Queiroz, oferece uma experiência de dança voltada para soltar o quadril e o corpo inteiro. As atividades acontecem todas as segundas, quartas e sábados, em formatos on-line e presenciais — às segundas pelo Zoom, às quartas na Lapa e aos sábados na Praia do Flamengo (Posto 1). Os valores variam de R$ 35 (aula colaborativa) a R$ 70, com bolsas de 50% para pessoas negras, indígenas, periféricas e estudantes de Dança, além de gratuidade para pessoas trans.
Com um trabalho que mistura dança, empoderamento e valorização da cultura do funk, Jéssica tem levado o Corpo Solto para além do Rio — em 2025, o projeto passou por seis países europeus. Veja mais detalhes da nossa conversa com a Jéssica Queiroz, fundadora do Corpo Solto, sobre sua trajetória, desafios e as conquistas do projeto que celebra o rebolado como potência cultural e política.

Seria interessante primeiro você começar se apresentando para as outras pessoas te conhecerem melhor. Quem é a Jessica Queiroz e como começou sua relação com a dança?
Sou Jessica Queiroz, 34 anos, filha da Socorro e do Roberto, cria da Penha, artista da dança, coreógrafa, dançarina, professora de dança e performer. Também atuo em áreas de produção cultural, como curadoria, produção executiva e produção artística. Meu contato com a dança vem desde criança.
Cresci em lugares que envolviam música e dança o tempo todo: dentro de casa tentando acompanhar meus pais que dançavam funk, samba, charme principalmente naqueles domingos de churrasco, por programas de tv com grupos de dança e videoclipes com coreografias, pelas festas de bairro, de família, de amigos e eventos ou aulas que envolviam dança na escola.
Tenho até hoje memórias do meu pai, da minha mãe e de tias me ensinando a fazer passinhos sociais da época dos bailes blacks que eles iam, minha mãe me ensinando a sambar, eu dando a vida dançando na boquinha da garrafa… Na escola, eu participava de qualquer coisa que envolvesse dança. Me apresentava sozinha ou em grupo nos festivais, feiras e mostras escolares.
Mas minha porta de entrada pro estudo profissional começou mesmo há 15 anos quando eu ingressei no curso de Bacharelado em Dança na UFRJ em 2010. Minha base de pesquisa em movimento que me identifico e me representa são as danças urbanas periféricas como o hip hop dance, o funk, a house dance, o charme, o dancehall e as danças populares afro-brasileiras.
Eu atuo no campo da arte e cultura através de diversos projetos coletivos e pessoais. Como coletivo, sou integrante do bloco de Carnaval de Rua “Amigos da Onça” e do coletivo de House Dance “Bonde do Jack”. Sou idealizadora e professora da aula de dança Corpo Solto que é uma aula de rebolado com base em técnicas para soltar o quadril no ritmo do funk e que acontecem desde 2019 na Lapa, centro do Rio de Janeiro.
Como é ser uma artista independente neste meio? Quais são os desafios?
É desafiador. Tem que ter muita coragem, disciplina e ousadia. É uma hora você estar se perguntando se é o momento de desistir e no outro dia estar se orgulhando dos seus feitos. Tem um lado bom que é você enxergar os caminhos através da sua visão de mundo, da sua forma de fazer, mas tem também o lado de você saber que com apoios, os caminhos ficam menos pesados e cansativos.
E esse é um dos desafios: conseguir apoios estruturais, institucionais, suportes de um modo geral para que as criações tenham consistência e sejam realizadas com dignidade. O Brasil é um dos países com a maior diversidade artística e cultural, mas ainda precisa caminhar muito na luta pela valorização e pelo reconhecimento.
Isso gera um enorme desgaste e disputa dentro da própria classe pelas poucas oportunidades. E como professora de rebolado com abordagem sobre o funk, ainda tem o desafio do enfrentamento ao preconceito da sociedade e instituições que insistem em descredibilizar a cultura do funk por ser um conhecimento de origem negra e periférica ou porque não aceitam mulheres falando, dançando e exercendo seu direito à liberdade sexual, enfim… é um desafio até dentro da própria classe da dança, que por muitos ainda é visto ou considerado menos dança do que outras danças.

Para apresentar o Corpo Solto para quem ainda não conhece, como e quando você começou com esse projeto? Quais eram os objetivos e pretensões no início e como você enxerga a trajetória do Corpo Solto para os dias atuais e em planos futuros?
O Corpo Solto começou em setembro de 2019.
Na época, um dos meus trabalhos era como professora da oficina de dança do Bloco de Carnaval “Amigos da Onça”, oficina essa que já acontecia há três anos.
Lembro que já havia um tempo em que eu estava me sentindo um pouco saturada e restringida aos conceitos, ao estilo de dança e ao repertório musical que envolviam o bloco de carnaval. Eu sentia falta do contato com outras vertentes culturais da música e da dança que também faziam parte da minha trajetória.
Eu queria compartilhar outros assuntos, trazer mais das coisas que eu estava vivendo e que já tinha vivido e eu fui amadurecendo a ideia de criar um espaço próprio, onde eu pudesse compartilhar a minha dança, minhas vivências e experiências — e foi daí que nasceu o Corpo Solto, como um projeto de aulas de dança pessoal.
No início, ele não tinha o objetivo de ser uma aula de rebolado especificamente — era uma aula mais livre mesmo, com um pouco de tudo que eu já tinha vivido: o funk, o hip-hop, o charme, as danças populares.
A primeira aula era mais danças e passinhos sociais do hip hop e do charme. Já a segunda aula, voltada para o funk. Eu recebia feedbacks das alunas e fui percebendo que toda vez que o tema era funk, o interesse delas aumentava muito.
Elas queriam saber como eu fazia para mexer o quadril — e eu percebi também que o que era muito natural para mim, para elas não era tanto. Comecei a entender que poderia dar esse foco dentro das minhas aulas. Passei a dar esse foco, analisando os movimentos a partir da perspectiva do quadril, pesquisando técnicas, conhecendo referências aqui no Rio, Brasil e no mundo de projetos e aulas que já abordavam o assunto e então passei a construir aulas unindo essas referências com a minha forma de abordagem a partir do que a minha vivência dentro desse contexto tinha para contribuir.

Carrego o funk dentro dessa experiência de sala de aula porque apesar de ter sido estimulada e referenciada a mexer o quadril por diversas fontes de cultura, o meu rebolado na batida do funk, do tamborzão é especial hahaha. De fato, meu quadril solto e requebrante bebeu e bebe muito dessa fonte desde muito nova.
Hoje, o Corpo Solto não é mais um projeto — ele já é uma ideia concreta, uma aula que acontece toda semana há seis anos.
As aulas ajudam pessoas através de técnicas de mobilidade e performance em dança à destravar o quadril e rebolar, que beneficia o campo físico e emocional de diversas formas e fomenta a cultura do funk através de referências da música e da dança. Além de exercícios práticos como a mobilidade pélvica, conduzo as aulas também através de coreografias e práticas de improvisação.
O Corpo Solto também se tornou um espaço de conexão com outros artistas, profissionais do funk e de outros segmentos. Já convidamos professoras de Passinho e Vogue, DJ’s, pesquisadoras da pelve, especialistas em saúde e professoras que trabalham com o rebolado para compartilhar experiências e enriquecer as aulas.
As aulas se expandiram e com as conexões criadas, o Corpo Solto formou uma rede internacional de alunas. Essa rede foi construída também muito com apoio do projeto “Voyage Féminité et Sororité” que é um programa de viagem cultural para mulheres estrangeiras no Rio de Janeiro, idealizado pela youtuber francesa Laetitia Birbes no qual faço parte e sou responsável pelas aulas de funk desde 2019 e que me proporcionou construir pontes com uma rede de pessoas que não são brasileiras e que curtem nossa forma de se expressar na dança, na música, na estética. Criei então uma “Eurotour” em 2023 e 2025 onde levei as aulas de rebolado através do funk carioca para a Europa passando por mais de 12 cidades entre 6 países.

Hoje, o Corpo Solto representa pra mim uma experiência de liberdade do corpo, de dançar ao som do funk, de celebrar e afirmar uma herança cultural afro-diaspórica que faz parte da nossa identidade. É uma forma de decolonizar os saberes com o mundo, de espalhar a cultura do funk do Rio de Janeiro — e isso, para mim, é uma das grandes conquistas dessa trajetória.
Para o futuro, eu quero que o Corpo Solto cresça ainda mais. Quero que as aulas se expandam para outros territórios, não só mundialmente, mas também dentro do Rio de Janeiro e do Brasil, alcançando novos estados. Desejo conseguir apoios institucionais para realizar grandes projetos com os ideias da aula, realizar imersões, eventos e convidar pessoas que são referências no assunto para compartilhar suas experiências junto às alunas.
Também quero conquistar novos adeptos, novas pessoas interessadas nesse tipo de aula que faz você valorizar o funk, se sentir livre mexendo o quadril e se conectar com o prazer de dançar. Inclusive se quiserem se preparar para o próximo verão, as aulas são um ótimo exercício aeróbico, com um alto gasto calórico. Você sai da aula pingando e se sentindo uma grande gostosa endorfinada.
Mas para além disso, quero que o Corpo Solto continue sendo um espaço de compartilhamento sobre a cultura do funk, sobre seus protagonistas, referências e reconhecendo a importância dessas pessoas para a cultura brasileira. As aulas também têm um papel no combate ao preconceito contra o funk, que a gente sabe que é uma cultura popular que ainda hoje lida com a leitura racista, elitista que marginaliza e criminaliza o movimento. O que é um grande absurdo e me causa revolta visto que o funk é um dos maiores patrimônios da nossa cultura brasileira.
Então, o meu desejo é que o Corpo Solto continue sendo esse espaço de valorização, de liberdade e de afirmação do corpo e da cultura.
Pode contar pra gente um pouquinho sobre seus projetos na Europa? E há mais planos futuros pra lá?
Achei essa pergunta muito chique rsrs. A ideia é continuar nesse movimento de produzir anualmente a expansão das aulas para outros países. Esse ano de 2025 foi a minha segunda experiência levando as aulas para outro continente. Foram 6 países e 12 cidades em 2 meses e desde a primeira Eurotour em 2023 já somam 13 cidades. Em 2026 pretendo retornar sim, mas ainda não tenho as datas. Acompanhem minhas redes sociais rs.
Como você acha que suas aulas podem contribuir para o empoderamento feminino de outras mulheres? Você tem alguma história legal pra compartilhar com a gente sobre isso?
Eu penso muito a aula como lugar seguro onde elas possam se sentir à vontade para quebrar tudo, do quadril aos tabus tá ligado? Um lugar para terem contato mais íntimo com a performance da sensualidade, da jogação da raba e para serem mais ousadas.
O rebolado é um movimento que, historicamente, é visto com preconceito, especialmente quando reproduzido por mulheres. Então, quando a gente rebola com consciência, dentro de um espaço seguro, a gente está de certa forma resgatando o direito de existir neste corpo, de se expressar e de sentir prazer em se mover. E isso cria também um recurso das pessoas saberem como dançar nas festas, nos bailes ou em qualquer lugar onde elas queiram rebolar.
A aula é também um espaço de contato com a autoestima e autoconhecimento, porque muitas chegam tímidas e com o tempo vão quebrando as próprias barreiras, entendendo o movimento como algo natural.
O rebolado protagonizado pelas mulheres dentro da cultura do funk, é uma técnica ancestral, uma ferramenta política e simbólica que valoriza e devolve às mulheres o poder sobre seus corpos e suas narrativas. É uma relação com o empoderamento que nos inspira.

Então, eu vejo que o empoderamento acontece na presença e postura delas durante o processo de sala de aula, na forma como cada uma começa a ocupar o espaço com mais confiança, com apoio entre nós, com o fortalecimento da nossa comunidade.
Sobre uma história, eu já recebi relato de aluna que só passou praticar o ato de rebolar durante o sexo depois que frequentou as aulas, como se tivesse destravado um tipo performance sabe? Passou a ter menos vergonha de si mesma e se sentir mais poderosa.
Tive recentemente também um relato de uma aluna que é atleta de boxe e que participou de um campeonato de kickboxing aqui no Rio e atribuiu a frequência nas aulas como uma das ferramentas de treino que contribuíram para ela ganhar a competição.
E fala pra gente, qual sua ligação com o Bloco Amigos da Onça?
Faço parte desde 2014 do coletivo e bloco Amigos da Onça. Sou uma oncete que junto com outras dançarinas criou a ala de dança do bloco, que diga-se de passagem começou bem antes do projeto de oficinas.
Sou umas das co-gestoras do coletivo, coreógrafa, dançarina, performer e professora de dança da ala de dança. Também atuo em algumas áreas da produção como a curadoria artística dos nossos eventos, ensaios de Verão e etc e colaborando na construção do repertório musical do bloco.
Agora falando mais das aulas, elas acontecem desde quando? Como começou e quais são as atividades oferecidas hoje?
As aulas acontecem desde setembro de 2019. Temos aulas presenciais às quartas na Lapa, sábados de 15 em 15 dias na Praia do Flamengo e aulas online às segundas via aplicativo ZOOM.
Quais referências servem de inspiração para você?
Eu sou muito fã do trabalho das brasileiras que constroem, fortalecem e espalham a palavra do rebolado e do funk há anos por todos os cantos.
Afrofunk (Taísa Machado), Rabalogia (Grecariel), Descolonize Seus Quadris (Maria Chantal), Teka Alma de Baile (Teka Del Gaudio), Funk Class (Jacki Karen), Viva Pelve (Dora Selva), Do Zero ao Funk (Duda Dance), Mova Pelve (Desiree Gundim), Bruxa da Raba (Lara Barcelos), Twerk Na Quebrada (Bia Graboschi) entre outras são algumas das referências que inspiram e que estão em atividade o ano inteiro não só no Rio de Janeiro como em outros estados do Brasil.
Para quem deseja ingressar agora, o que as alunas podem esperar das aulas?
Podem esperar uma aula de dança descontraída, para suar com exercícios práticos didáticos que faz você soltar não só o quadril como o corpo todo, desafios, passinhos sociais, funks sem filtro (sim, aqui toca do comercial light ao proibidão), sem julgamentos e com uma energia contagiante que só uma aula de funk pode proporcionar.

E vocês aceitam homens nas aulas ou são exclusivas para mulheres?
Todas as pessoas de todos os gêneros são bem-vindas.
Você tem alguma história legal do Corpo Solto para compartilhar com a gente?
Sim. Ano passado recebemos o convite de fazer parte de uma matéria que a pauta foi “aula de rebolado” para o programa “Mais Você” da Ana Maria Braga na TV Globo. Foi um espaço muito bacana. Tivemos a presença de uma repórter durante a aula e no dia que o programa exibiu a matéria, a Ana Maria Braga se levantou para aprender o Quadradinho através de um esquema que enviei e foi colocado no painel do programa para a Ana acompanhar o passo a passo. Foi muito bom ver a Ana Maria Braga se jogando para aprender.
Qual o período de duração das aulas?
A aula tem duração de 1 hora e 15 minutos
Quais são os dias e horários?
- SEGUNDAS | ON-LINE | 15H
- QUARTAS | PRESENCIAL | 20H
- SÁBADOS | PRESENCIAL | 10H (QUINZENAL)
Onde acontecem as aulas?
- SEGUNDAS | ON-LINE | ZOOM | 15H
- QUARTAS | PRESENCIAL | LAPA | 20H
- SÁBADOS | PRESENCIAL | PRAIA DO FLAMENGO POSTO 1 | 10H
Quais são os valores? Os preços mudam a depender da atividade?
Sim, mudam.
- SEGUNDAS | ON-LINE | ZOOM | 15H | R$ 60,00
- QUARTAS | PRESENCIAL | LAPA | 20H | R$ 70,00
- SÁBADOS | PRESENCIAL | PRAIA DO FLAMENGO POSTO 1 | 10H | VALOR COLABORATIVO – PREÇO SUGERIDO: R$ 35,00
Também temos pacotes mensais com desconto para 4 ou 3 aulas mensais.
Há algum tipo de bolsa?
Sim. Bolsas de 50% tanto para aula avulsa ou pacotes mensais para pessoas negras, indígenas, periféricas e estudantes de instituições de Dança. Pessoas trans não pagam.
Interessados em saber mais sobre as aulas e outros projetos, qual é o melhor meio de contato com o Corpo Solto?
Nosso Whatsapp comercial é +55 21 99695-7330
Esse é o nosso principal canal para saber mais sobre as aulas.