Bloco da Frida fortalece a diversidade cultural no carnaval com oficinas abertas ao público

O Bloco da Frida nasceu em 2018 no Rio de Janeiro, trazendo a potência criativa do carnaval em um espaço livre, inclusivo e formativo. Com oficinas de música que unem ritmos afro-latinos, o bloco valoriza a diversidade cultural e a formação coletiva. As aulas de percussão e sopro acontecem sempre às terças-feiras, das 19h às 21h, no Estúdio Casa Grande, na Lapa, com mensalidades a partir de R$ 170.
Além das oficinas, o bloco se inspira na estética e resistência de Frida Kahlo, misturando cores, símbolos e latinidades em seus desfiles. Para entender mais sobre o projeto, conversamos com Ana Duarte, integrante da organização e responsável pela comunicação do Bloco da Frida, que compartilhou a trajetória, inspirações e detalhes das oficinas. Confira a entrevista completa abaixo.

Seria interessante primeiro você começar se apresentando para as outras pessoas conhecerem melhor. Qual o seu nome e de que forma você atua no Bloco da Frida?
Meu nome é Ana Duarte, tenho 34 anos, sou formada em Psicologia e faço parte do bloco desde 2019, quando começaram as oficinas. Em 2023 entrei também para a organização, onde sou responsável pela comunicação interna e externa. Além disso, toco surdo, meu hobby desde 2017. Para mim, o carnaval é um espaço político que alcança todas as pessoas, e estar em um bloco que reforça valores nos quais acredito é um verdadeiro privilégio.
Para apresentar o Bloco da Frida para quem ainda não conhece, como e quando vocês começaram? Quais eram os objetivos e pretensões no início e como vocês enxergam a construção do bloco atualmente e em planos futuros?
O Bloco da Frida surgiu em 2018 da união de músicos, artistas e produtores culturais que queriam compartilhar a alegria e a potência criativa do carnaval em um espaço livre, inclusivo e formativo. No primeiro desfile éramos poucas pessoas, mas em 2019 abrimos nossas primeiras oficinas — gratuitas, sustentadas por vaquinhas e apoios — e recebemos mais de 100 inscrições.
Desde então, crescemos muito! Hoje nos vemos como um coletivo que ultrapassa a festa do carnaval, promovendo oficinas no carnaval e também no Julino (em homenagem à vida e à morte de Frida Kahlo), ocupando e revitalizando espaços públicos e fortalecendo vínculos comunitários. O futuro que projetamos é de um carnaval ainda mais diverso, potente e coletivo, sem perder a raiz da formação e do aprendizado compartilhado.

O bloco traz a força e a estética da Frida como inspiração. De que forma a figura da artista mexicana influencia na identidade, nas oficinas e na expressão cultural do bloco?
Frida Kahlo é símbolo de resistência, autenticidade e liberdade criativa. Essa força atravessa a nossa identidade, a estética dos desfiles e a pedagogia das oficinas, que valorizam a expressão de todas as pessoas, independentemente de sua bagagem musical.
Nossa inspiração está tanto na obra quanto na vida da artista, que trouxe à tona temas como identidade, pós-colonialismo, gênero, classe e raça — questões com as quais também nos identificamos. Essa estética aparece nas cores, flores, caveiras mexicanas e símbolos que carregamos no estandarte, nos figurinos e até nos bonecões, como o que confeccionamos em 2020 com a dupla face Frida/Catrina e com o feito em 2025 com galão de água e papel machê. Os artistas que produziram esses cabeções foram Du jorge (@dujorgee), Cassia Lyrio (@cali_nassar) e Luna Jatobá (@luna.jatoba) e nosso estandarte foi feito coletivamente com pessoas do bloco.
Vocês também se baseiam nas latinidades, que trazem tanta riqueza e diversidade cultural. Como esse elemento aparece nas oficinas e no desfile, e o que significa para o bloco trazer essa mistura para o carnaval?
As latinidades são parte fundamental da nossa identidade sonora e estética. Elas aparecem nos arranjos musicais, na energia dos desfiles e na forma como ocupamos a rua, sempre em diálogo com os ijexás e outras referências da diáspora africana.
Para nós, trazer essas misturas é reafirmar nossa conexão com a diversidade cultural que compõe o carnaval e também celebrar as raízes latino-americanas — cores, símbolos, ritmos e espiritualidades que se encontram com a batucada e transformam o bloco em um espaço plural e vibrante.

Agora falando mais das oficinas, elas acontecem desde quando? Como começou e quais são as atividades oferecidas hoje?
As oficinas começaram em 2019 como um espaço de formação coletiva. Hoje oferecemos aulas de percussão e sopro, com arranjos que variam entre repertório simplificado (para iniciantes) e arranjos completos (para quem já toca). O objetivo é que todas as pessoas consigam se encontrar na música, em um ambiente de aprendizado, potência e troca.
Quais referências servem de inspiração para vocês nas oficinas?
Nossas principais referências são os ijexás e as músicas latinas, dialogando também com cirandas, pontos de matriz africana e outras sonoridades da cultura popular brasileira. Essa mistura dá identidade ao bloco, ao mesmo tempo em que conecta o nosso carnaval às tradições afro-latino-americanas.

Para quem deseja ingressar agora, o que os alunos podem esperar das aulas?
Podem esperar um ambiente acolhedor, coletivo e cheio de energia. Não é necessário ter experiência musical: oferecemos materiais simplificados para iniciantes e partituras completas para quem já tem mais prática. Já formamos adultos que tocaram seu primeiro instrumento no bloco e famílias inteiras que hoje desfilam juntas.
Qual o período de duração das oficinas?
As oficinas acontecem em módulos semestrais: no Julino, celebrando Frida Kahlo, e no Carnaval, sempre culminando nos desfiles em que levamos para a rua o que foi construído coletivamente.
Você tem alguma história legal da oficina para compartilhar com a gente?
Em 2019, quando abrimos nossas primeiras oficinas gratuitas, recebemos 114 inscrições e 67 mulheres concluíram o processo. Muitas nunca haviam tocado antes e, ao final de quatro meses de encontros semanais, todas tiveram a oportunidade de desfilar no carnaval de 2020.
Esse foi um momento transformador: ver pessoas que chegaram tímidas ganhando confiança através da música coletiva. Além disso, conseguimos reocupar espaços ociosos na cidade, como um galpão abandonado na Lapa que, graças ao bloco, voltou a ser usado e hoje recebe ensaios de outros grupos também.

Conte um pouco sobre os (as) professores(as) das oficinas, como eles(as) ingressaram no projeto?
Nossos professores são músicos e educadores que acreditam na proposta do bloco de unir carnaval, formação e diversidade cultural. Alguns estão conosco desde os primeiros anos, outros chegaram a partir das oficinas, trazendo bagagens diferentes que enriquecem ainda mais o projeto.
Temos regentes, arranjadores e instrumentistas de diversas formações — do popular ao erudito — que hoje dividem esse espaço pedagógico coletivo.
Ao todo são quantas pessoas que fazem o Bloco da Frida acontecer? De que maneira elas colaboram?
Atualmente, contamos com cerca de 7 pessoas na organização e 6 professores nas oficinas. Cada um contribui em diferentes frentes:
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Stella Pires: responsável pelo financeiro, além de, no seu primeiro ano já ficar à frente como monitora do agogô e agora brilha no trombone.
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Cássia Lyrio: cuida das artes visuais de todos os módulos e constrói os cabeções do bloco.
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Du Jorge: produtor, DJ, artista plástico e idealizador do bloco, além de liderar ações sociais como o Mutirão.
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Caroline Martins: organizadora, professora de xequerê.
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Gabriel Marins: arranjador, regente.
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Ana Duarte: comunicação.
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Luana Vianna: professora de timbal, regente e também toca trompete.
Nos sopros, temos: Lincoln Marques (sax), Karina Telles (clarinete), Carol Sarkis (trompete) e Ernesto Sena (trombone). Todos trazem experiências diversas de outros blocos e bandas para fortalecer o Frida.
Quais instrumentos fazem parte das oficinas?
Na percussão, trabalhamos com surdo, caixa, repique, xequerê, tamborim, agogô e timbal. Já nos sopros, temos sax, trompete, trombone e clarinete.

Quais são os dias e horários das oficinas?
As oficinas acontecem às terças-feiras, das 19h às 21h, no Rio de Janeiro.
Onde acontecem as aulas?
As aulas acontecem no Estúdio Casa Grande, Rua Conde de Lages, 23 – Lapa/RJ.
Quais são os valores das oficinas? Os preços mudam a depender da oficina?
O valor é R$ 200 para novos estudantes e R$ 170 para alunos veteranos.
Há algum tipo de bolsa?
Sim, oferecemos algumas bolsas parciais. Elas são limitadas, pois precisamos cobrir custos de estúdio e produção do carnaval. Priorizamos mulheres e pessoas pretas, além de quem já participou do programa em anos anteriores.
Interessados em saber mais sobre as aulas, oficinas e outros projetos, qual é o melhor meio de contato com o Bloco da Frida?
O melhor meio de contato é pelo nosso Instagram @blocodafrida, onde divulgamos novidades e tiramos dúvidas.
Tem algum assunto que não abordamos nas perguntas que vocês gostariam de falar?
Gostaríamos de destacar que o Bloco da Frida é também um espaço político e afetivo: não toleramos preconceitos ou atitudes violentas. Queremos que seja sempre um lugar de acolhimento e liberdade de expressão.
Durante a pandemia, quando não podíamos ocupar as ruas, gravamos três vídeos coletivos com integrantes tocando de casa, celebrando a resistência do carnaval:
Outro ponto importante é o Mutirão do Bloco da Frida, um movimento em que nos reunimos para revitalizar espaços públicos da cidade, pintando, limpando e plantando, para que voltem a ser ocupados por todas as pessoas. O último foi na Praça Glauce Rocha, em Santa Teresa, e é sempre construído em diálogo com a sociedade e com secretarias do estado. Para nós, o mutirão é mais uma forma de resistência e de ocupar a cidade com alegria, afeto e coletividade.
Taís Aparecida