About nas Eleições: Mallu Côrtes propõe Folia Sem Catracas e Tarifa Zero no Rio

outubro 2, 2026

Mallu Côrtes, cria de Xerém, na Baixada Fluminense, construiu sua trajetória política a partir da luta por mobilidade urbana e direito à cidade. Sua atuação passou pelo movimento estudantil, pelo Vida em Trânsito, pelo Observatório dos Trens e pelo Tarifa Zero RJ. A experiência de enfrentar longos deslocamentos e as barreiras financeiras do transporte público orienta as propostas que pretende levar à Alerj. Entre as principais pautas estão a Tarifa Zero, a ampliação do acesso à cultura e a redução das desigualdades territoriais. Na entrevista a About, Mallu fala sobre transporte público, Carnaval, economia cultural e a realidade de quem vive na periferia. Ela também aborda a relação entre mobilidade, gênero, raça, tempo e acesso aos serviços e espaços da cidade.

Para Mallu, o transporte público precisa ser tratado como um direito social e não apenas como um serviço de deslocamento. Ela defende a Tarifa Zero como política permanente e também como forma de garantir acesso ao Carnaval, à cultura, ao lazer e ao trabalho. Entre as propostas está o Folia Sem Catracas, com gratuidade nos transportes de concessão estadual durante o Carnaval e o pré-Carnaval. A candidata também defende mais integração entre os modais, funcionamento durante a madrugada e políticas específicas para trabalhadores da economia cultural. Na Baixada, propõe descentralizar investimentos culturais, ampliar equipamentos e fortalecer a circulação entre os municípios. Mallu também relaciona mobilidade e desigualdade racial e de gênero, destacando o impacto do tempo e do custo dos deslocamentos sobre mulheres negras e trabalhadores periféricos.

1. Você é cria de Xerém, na Baixada Fluminense, e sua trajetória na mobilidade urbana começou ainda no movimento estudantil, passando pelo Vida em Trânsito, pelo Observatório dos Trens e pelo Tarifa Zero RJ. Como essa vivência na periferia e nos deslocamentos pelo estado moldou as prioridades que você pretende levar para a Alerj? 

Eu sei o que é ficar mais de 6 horas no transporte público, sei o que é deixar de chegar à faculdade e a tantos outros espaços por falta de dinheiro para a passagem. Vivi a vida inteira vendo minha mãe sair de casa antes de eu acordar e chegar quando eu já estava indo dormir, e hoje entendo que essa não é uma realidade isolada: é a vida de grande parte das famílias da Baixada, que acordam a cidade do Rio de Janeiro e encontram no transporte público um pesadelo que rouba dinheiro, dignidade, oportunidades e tempo com a família. Foi vivendo essa realidade e me organizando para transformá-la que construí minha trajetória no movimento estudantil, no Vida em Trânsito, no Observatório dos Trens e no Tarifa Zero RJ. É essa experiência que quero levar para a Alerj: uma política de mobilidade pensada a partir de quem vive o transporte todos os dias e que enfrente não só o preço da passagem, mas também o tempo perdido, a falta de qualidade e a desigualdade que define quem tem, ou não, direito à cidade.

 

2. Você vem construindo sua atuação política principalmente a partir da pauta da mobilidade e do direito à cidade. O que muda quando essa atuação passa do movimento social para um mandato de deputada estadual?

Eu acredito que quem vive os problemas do território também tem as respostas. O movimento social tem um papel fundamental de organizar essas demandas, propor políticas públicas e pressionar o poder público para que elas saiam do papel. E o mandato popular precisa funcionar nessa mesma lógica: ter como base quem vive o território, conhece os problemas e sabe o que precisa mudar. O que muda é que a gente passa a ter mais instrumentos para transformar essas propostas em políticas públicas, disputar orçamento, fiscalizar e cobrar o poder público. Mas eu não quero chegar à Alerj achando que tenho todas as respostas. Quero continuar construindo junto com quem está na ponta, porque ninguém conhece melhor os problemas de um território do que quem vive nele.

3. O transporte público conecta trabalho, educação, saúde, lazer e também cultura. Na sua visão, como a política estadual de mobilidade pode deixar de tratar o deslocamento apenas como uma questão de transporte e passar a enxergá-lo como parte do direito à cidade? 

A primeira mudança é entender que transporte não é um fim em si mesmo. Ninguém pega um ônibus porque quer andar de ônibus. A pessoa pega o ônibus porque precisa chegar ao trabalho, à escola, ao hospital, a um bloco, a um show, à casa de alguém.

A própria Política Nacional de Mobilidade Urbana estabelece como objetivo contribuir para o acesso universal à cidade, reduzir desigualdades e promover o acesso aos serviços básicos e equipamentos sociais. Então, quando uma pessoa não consegue chegar a um hospital porque a passagem está cara ou não consegue ir a um equipamento cultural porque o último ônibus passa cedo, isso também é um problema de mobilidade.

É por isso que eu defendo uma política estadual integrada. Precisamos pensar transporte junto com planejamento urbano, cultura, educação, saúde, trabalho, meio ambiente e segurança. E precisamos olhar também para o tempo. Não é normal uma pessoa perder quatro, cinco ou seis horas do seu dia simplesmente para conseguir circular pela cidade.

4. Você criou o projeto Folia Sem Catracas a partir da percepção de que o transporte é uma barreira para o acesso ao Carnaval. O que precisaria mudar no transporte do estado para que o Carnaval de rua seja, de fato, acessível também para quem mora nas periferias e na Baixada? 

O Carnaval escancara profundas desigualdades quando falamos de acesso. Essa festa, vendida como a mais popular do mundo, ainda não conta com políticas públicas suficientes para garantir o deslocamento das pessoas. Quando iniciamos o movimento, o único transporte 24 horas era o metrô. Este ano, conseguimos garantir também o funcionamento dos trens e do BRT. Mas ainda é pouco diante das tarifas caras que temos no estado. Debater Tarifa Zero nos megaeventos é garantir acesso à cultura e ao lazer sem que o transporte público seja uma barreira.

Mas existe também quem faz o Carnaval acontecer. Quando criei o Folia Sem Catracas, não pensava apenas em quem quer ir para um bloco, mas também em camelôs, ambulantes, trabalhadores informais, artistas e produtores. Nosso trabalho escancarou uma realidade dura: trabalhadores que ficam parcialmente em situação de rua porque não têm transporte para voltar para casa ou porque o custo da passagem consome quase todo o lucro do dia.

Por isso, um Carnaval acessível precisa de transporte gratuito, mas também de uma operação que funcione durante toda a madrugada, com mais oferta, integração e segurança. Quem trabalha no Carnaval tem direito de voltar para casa com dignidade. E quem mora fora da Cidade Maravilhosa também tem direito de curtir a festa.

 

5. O Tarifa Zero RJ defende a gratuidade do transporte como política permanente e também durante o Carnaval. Como você imagina a construção dessa política em escala estadual e quais seriam as atribuições da Alerj nesse processo? 

Eu aprendi que uma política pública não nasce pronta dentro de um gabinete. A Tarifa Zero vem sendo construída no cotidiano, nas ruas, nos territórios e no diálogo com os movimentos sociais, a partir de quem vive os problemas do transporte e se organiza para transformá-los. É dessa construção que eu quero partir. Na Alerj, meu papel será transformar essa força social em força institucional: construir os marcos políticos e legais necessários para a Tarifa Zero avançar, disputar orçamento, fiscalizar o poder público e criar as condições para que essa política seja implementada em escala estadual. Quero que o mandato seja uma ferramenta dos movimentos sociais dentro da Assembleia, levando suas propostas para o centro da decisão política e fazendo da Alerj um espaço onde a população também constrói as políticas que vão impactar sua vida.

6. O Carnaval movimenta trabalhadores informais, ambulantes, produtores culturais, artistas e pequenos empreendedores em diferentes territórios. Como uma política de mobilidade mais acessível poderia também fortalecer essa economia cultural que acontece nas ruas?

Quando a gente fala de mobilidade no Carnaval, precisa lembrar também de quem está trabalhando. Para um ambulante, um vendedor ou um trabalhador da cultura, a passagem é um custo que sai diretamente do dinheiro que ele consegue fazer naquele dia. Se a gente zera esse custo, mais dinheiro fica no bolso de quem trabalha. Mas não é só isso. Uma política mais efetiva precisa garantir transporte funcionando durante toda a madrugada, com mais oferta, integração e segurança, e também criar uma política de mobilidade para os trabalhadores da economia cultural, garantindo deslocamento gratuito nos dias de grandes eventos. Isso ajuda quem trabalha, mas também fortalece a própria economia cultural, porque facilita a circulação de artistas, produtores, ambulantes e do público entre diferentes territórios. O Carnaval não acontece só no palco ou no bloco. Ele acontece no trabalho de milhares de pessoas que fazem a festa existir, e a política pública precisa olhar para essas pessoas também.

 

7. Muitas manifestações culturais da Baixada e das periferias acontecem longe dos grandes circuitos da capital. Como transporte e investimento cultural podem trabalhar juntos para descentralizar o acesso à cultura no estado?

Eu acho que essa relação passa por dois caminhos. O primeiro é entender que Tarifa Zero também é política de acesso à cultura. Não adianta ter uma programação cultural gratuita se a pessoa não consegue pagar a passagem para chegar até ela. Garantir transporte acessível significa ampliar o público, permitir que mais pessoas circulem pelos territórios e também que a produção cultural da Baixada chegue a outros lugares. O segundo caminho é mudar a lógica de investimento cultural no estado. A Baixada produz muita cultura, movimenta dinheiro e tem uma cena cultural potente, mas esse investimento nem sempre retorna para os territórios onde essa riqueza é produzida. Precisamos de uma política de investimentos regionais que fortaleça equipamentos, artistas, produtores e iniciativas locais, para que o dinheiro arrecadado na Baixada também seja investido na Baixada. Descentralizar a cultura não é só levar eventos da capital para a periferia. É garantir que a periferia tenha estrutura, recurso e condições para produzir e fazer circular a própria cultura.

8. Você já relacionou a discussão da tarifa zero com o acesso ao lazer e à cultura. Se eleita, que políticas poderia defender na Alerj para garantir que o custo do transporte não seja uma barreira para quem quer frequentar blocos, rodas de samba, shows e outros espaços fculturais? 

Viver a cidade de verdade só é possível quando a população pode usufruir da cidade por inteiro, e não apenas no trajeto de casa para o trabalho. Em uma ‘’cidade partida’’ como a nossa, a catraca ainda é um dos maiores muros existentes.  Quem mora na Baixada Fluminense, em São Gonçalo ou na Zona Oeste muitas vezes deixa de curtir um samba, um bloco ou uma exposição porque a soma das passagens de trem, metrô ou ônibus intermunicipal compromete o orçamento da família. A cultura acaba virando um privilégio de quem mora no Centro ou na Zona Sul. 

Você tocou no ponto central: o custo da passagem tira da juventude e do trabalhador da Baixada Fluminense, de São Gonçalo, da Zona Oeste, o direito básico de curtir um bloco, ir a uma roda de samba, a um show ou a uma exposição. Hoje, a cultura é tratada como um privilégio geográfico e financeiro. E é exatamente por isso que a minha resposta, a única política pública capaz de resolver esse dilema de forma estrutural e definitiva, é a Tarifa Zero. 

9. Sua atuação também passa pelo Movimento Mulheres Negras Decidem. Como o debate sobre mobilidade e direito à cidade muda quando olhamos especificamente para a experiência de mulheres negras que vivem nas periferias e passam horas diariamente no transporte? 

A política de mobilidade no Rio de Janeiro falha miseravelmente porque quem sente a dor na pele não está sentada na mesa de decisão. É exatamente essa a urgência: nós não aceitamos mais ser apenas o tema dos debates ou o alvo das políticas públicas feitas por terceiros. Nós queremos a caneta na mão. Ocupar a Alerj é garantir que a nossa vivência seja, finalmente, a régua que vai desenhar e governar a cidade.” 

Quando a gente olha para o planejamento urbano e de transportes hoje, percebe que ele é machista e racista. Ele foi desenhado para o homem que sai de casa, vai para o trabalho e volta no fim do dia. Mas a mobilidade da mulher negra da periferia não é uma linha reta, ela é o que chamamos de ‘mobilidade do cuidado’. É a mulher que sai de casa, deixa o filho na creche ou na escola, vai para o trabalho no Centro ou na Zona Sul, passa no posto de saúde ou no mercado, e só depois volta para casa.

Cada uma dessas paradas, hoje, exige uma nova passagem. A catraca pune financeiramente a mulher que cuida. Por isso, quando defendemos a Tarifa Zero, não estamos falando apenas de economia para o trabalhador padrão; estamos falando de uma política profundamente feminista e antirracista.  

Além disso, a gente precisa falar de duas violências muito específicas que atingem essas mulheres: a pobreza de tempo e a insegurança física. O transporte caro, demorado e precarizado empurra a mulher para pontos de ônibus escuros de madrugada, deixando-a vulnerável à violência. E dentro da condução lotada, a superlotação é o cenário perfeito para a importunação sexual. Como exigir dignidade num sistema onde as pessoas são transportadas como carga?

Portanto, o debate do Direito à Cidade com a lente das mulheres negras escancara que a mobilidade não é só sobre ‘ir e vir’. É sobre direito à vida, à autonomia e à segurança. Como deputada na Alerj, eu quero pautar a Tarifa Zero também sob essa perspectiva de gênero e raça.

10. Você já falou sobre a necessidade de pensar o transporte também como uma política de dignidade e bem-viver. Que mudanças na estrutura atual do transporte público seriam necessárias para transformar esse conceito em política pública estadual? 

O bem-viver é, por definição, o oposto absoluto do que a população do Rio de Janeiro experimenta hoje no transporte público. Hoje, o trabalhador é tratado como carga. Entrar num trem da SuperVia às seis da manhã ou num ônibus intermunicipal lotado na Avenida Brasil é passar por uma sessão diária de humilhação e tortura. Não há bem-viver quando o Estado rouba quatro horas do seu dia no trânsito e ainda te cobra uma fortuna por isso. 

Para transformar o bem-viver em política pública estadual, a primeira grande mudança estrutural que precisamos fazer é de paradigma. O transporte precisa deixar de ser tratado como mercadoria e passar a ser tratado como um direito social universal, assim como a saúde e a educação. Na prática, dentro da Alerj, isso se traduz no enfrentamento direto ao modelo falido das concessões e na implementação da Tarifa Zero.  No geral, o bem-viver é também o direito ao tempo. Quando a gente integra fisicamente e tarifariamente todos os modais, a gente diminui o tempo de viagem. E devolver tempo para a trabalhadora e para o trabalhador é devolver a vida. 

11. A Baixada Fluminense concentra uma enorme produção cultural, mas muitas vezes o acesso aos equipamentos e eventos da capital depende de longos deslocamentos. Como você pretende pensar a relação entre mobilidade, cultura e desenvolvimento dos territórios da Baixada?

A Baixada é um celeiro cultural gigantesco, uma potência de produção de samba, funk, hip hop, teatro, literatura e artes visuais. Hoje, a lógica da mobilidade no Rio de Janeiro é totalmente ‘pendular’ e centro-dependente: o transporte é desenhado apenas para levar a força de trabalho da Baixada para o Centro e a Zona Sul da capital de manhã, e devolver à noite. Isso gera dois problemas graves: dificulta o acesso aos grandes equipamentos culturais da capital e, pior ainda, inviabiliza a circulação dentro da própria Baixada. Você tentar ir de Belford Roxo para um evento em Duque de Caxias ou Nova Iguaçu no fim de semana é uma verdadeira odisseia, seja pela demora, pela falta de linhas ou pelo preço das passagens. 

Para mim, pensar o Direito à Cidade para a Baixada Fluminense exige atacar esse problema em duas frentes na Alerj:

A primeira, inevitavelmente, é a Tarifa Zero e a reestruturação das linhas intermunicipais. Quando a gente implementa a Tarifa Zero, nós estamos quebrando as fronteiras financeiras entre as cidades. Estamos permitindo que o morador de Mesquita vá a um sarau em São João de Meriti ou a um show em Madureira sem que isso signifique tirar a comida da mesa. Precisamos exigir do Estado linhas transversais que conectem as cidades da Baixada entre si, fortalecendo o circuito cultural local.

A segunda frente é a descentralização radical dos investimentos em cultura. O Direito à Cidade não é só dar passagem de graça para o morador da Baixada ir ao Theatro Municipal no Rio. É garantir que o Theatro Municipal não seja o único destino possível! O Estado tem uma dívida histórica de infraestrutura com a região. Como deputada, vou brigar por um orçamento que construa e mantenha lonas culturais, teatros e museus na Baixada, além de garantir editais de fomento específicos que respeitem e financiem os produtores locais. A riqueza produzida lá precisa ficar lá.

E é aqui que entra o desenvolvimento do território. A Tarifa Zero é a maior política de injeção direta na economia local que podemos criar. Pense comigo: aquele dinheiro que o trabalhador da Baixada deixa de gastar com as tarifas abusivas de ônibus e trem, ele não vai guardar no banco ou investir na bolsa. Ele vai gastar no próprio bairro. Ele vai comprar um lanche, vai pagar o ingresso de um evento local, vai consumir no bar do amigo. A mobilidade garantida aquece a economia criativa local e gera emprego na própria Baixada.

12. Para além da tarifa, existe a questão do tempo: quem mora longe dos centros pode passar horas por dia no transporte. Como esse tempo perdido deveria entrar no debate sobre planejamento urbano, emprego, educação e acesso à cultura no estado? 

Eu costumo dizer que o Estado do Rio de Janeiro comete um crime diário e silencioso contra a nossa classe trabalhadora: o roubo do tempo. O tempo é o recurso mais valioso que nós temos, é o próprio tecido da vida. Mas, hoje, o tempo da mulher negra, do jovem favelado e do trabalhador periférico é tratado pelo poder público como se não valesse absolutamente nada.

Quando falamos de alguém que perde três, quatro horas por dia no trajeto entre a Baixada Fluminense ou a Zona Oeste e o Centro do Rio, nós estamos falando de uma verdadeira pobreza de tempo. E isso impacta todas as áreas da vida de forma estrutural:

Na educação, como a gente exige que um jovem da periferia não desista da universidade pública se ele chega em casa à meia-noite e precisa acordar às quatro da manhã no dia seguinte? A evasão escolar e universitária no nosso estado tem CEP e tem a ver com a exaustão física provocada pela SuperVia e pelas linhas de ônibus precarizadas.

No emprego, o tempo de deslocamento cria um abismo de oportunidades. É muito comum, e cruel, vermos empresas na capital descartarem currículos quando olham o endereço do candidato e percebem que ele mora em Queimados, Japeri ou Santa Cruz. O mercado pune o trabalhador pela ineficiência do transporte que o próprio Estado deveria garantir.

E no acesso à cultura, o impacto é direto: não existe lazer para quem está sobrevivendo à exaustão. Como você vai ter energia para ir a um cinema, a um teatro ou a uma roda de samba se o seu corpo está destruído depois de viajar em pé, num ônibus sem ar-condicionado, durante duas horas? O direito ao lazer pressupõe o direito ao descanso.

Por isso, trazer o ‘tempo perdido’ para o centro do debate sobre planejamento urbano exige uma mudança completa de paradigma. O transporte precisa ser pensado como um direito universal das pessoas e não mais como um instrumentos de promoção de lucro para grandes empresários. 

13. Você vem defendendo a Tarifa Zero como uma política que pode reduzir desigualdades e ampliar o acesso à cidade. Quais seriam os principais desafios para financiar uma política desse tamanho e qual deveria ser o papel do Estado nessa construção? 

A primeira reação do sistema político tradicional é dizer: ‘É impossível, não tem dinheiro’. Mas a verdade é que o principal desafio para financiar a Tarifa Zero não é econômico, é político. O nosso maior obstáculo é enfrentar a máfia dos transportes e a estrutura de poder que ela financia há décadas no Rio de Janeiro.

O dinheiro existe. O que falta é coragem para mexer no bolso de quem sempre lucrou às custas do sofrimento do nosso povo.Para financiar uma política dessa magnitude, nós precisamos entender que o transporte deve funcionar como o SUS (Sistema Único de Saúde) ou a educação pública. A gente não pergunta se uma escola ou um hospital ‘dá lucro’, porque eles são direitos garantidos. O papel do Estado é exatamente este: deixar de ser um balcão de negócios para empresários de ônibus e concessionárias e passar a ser o fiador dos direitos sociais.Nesse cenário, estamos falando de um Sistema Universal que será custeado por aqueles que possuem mais. É a mesma lógica do SUS. 

14. Se eleita deputada estadual, qual seria a primeira pauta ou projeto que você gostaria de colocar em discussão na Alerj para aproximar mobilidade, direito à cidade e acesso à cultura?

Se eleita, a primeira pauta que pretendo apresentar é o Folia sem Catracas. O Carnaval é vendido para o mundo inteiro como a festa mais democrática da Terra. A narrativa é linda: a rua é pública, o bloco é de graça, todo mundo se mistura. Mas a verdade nua e crua, que quem é da periferia conhece bem, é que a catraca é uma barreira para a democratização de nosso Carnaval. Como a gente pode dizer que a festa é do povo se uma jovem de Nova Iguaçu, um trabalhador de Santa Cruz ou uma família de São Gonçalo precisa gastar 40, 50 reais num único dia só de passagem para ir e voltar dos blocos no Centro ou na Zona Sul?

O Folia Sem Catracas é a nossa proposta para acabar com essa hipocrisia. É um projeto para garantir a Tarifa Zero em todos os transportes de concessão estadual durante todos os dias oficiais de Carnaval e nos finais de semana de pré-Carnaval.