Dia de Reis no Rio: tradição, fé e cultura popular marcam as Folias que atravessam janeiro

No dia 6 de janeiro, quando o calendário cristão celebra o Dia de Reis, ruas, becos e morros do Rio de Janeiro se transformam em caminhos simbólicos guiados por cantos, tambores e fantasias. É nesse período que a Folia de Reis ganha força, renovando uma tradição centenária que mistura fé, música e encontro comunitário. Mais do que uma data específica, a celebração se estende por semanas, atravessando bairros, cidades e gerações. No coração da Zona Norte, o Morro da Formiga mantém viva uma das expressões mais emblemáticas desse rito. Ali, a estrela nunca deixa de brilhar.
Na Formiga, a Folia de Reis é prática cotidiana, memória coletiva e resistência cultural. Desde o Natal até o dia 20 de janeiro, grupos percorrem casas, igrejas e ruas em uma verdadeira jornada ritual, mantendo viva uma tradição que chegou ao morro há mais de 70 anos. Em diálogo com a cultura urbana do Rio, as folias incorporam novas estéticas, sons e linguagens, sem perder o elo com o sagrado. O resultado é uma manifestação híbrida, potente e profundamente popular. Uma herança que segue em movimento.

A Folia de Reis, também conhecida como Reisado, tem origem nas tradições católicas ligadas à visita dos Três Reis Magos ao menino Jesus. No Brasil, a prática ganhou características próprias, atravessando estados, zonas rurais e, com o tempo, os grandes centros urbanos. No Rio de Janeiro, especialmente em territórios populares, a folia encontrou terreno fértil para se reinventar sem romper com suas raízes.
No Morro da Formiga, na Tijuca, essa história começou a ser construída há mais de sete décadas, quando famílias negras vindas de Minas Gerais e descendentes de trabalhadores do antigo Morro da Providência passaram a ocupar a região. A tradição se enraizou de tal forma que hoje o território abriga três folias ativas: A Brilhante Estrela de Belém, A Brilhante Estrela do Oriente e Estrela Guia. Cada uma com suas cores, mestres, músicos, palhaços e bandeiras, mas todas guiadas pelo mesmo princípio: visitar casas, levar cantos de louvação, pedir licença, espalhar mensagens de fé, união e proteção.
Na Formiga, a Folia não se limita ao dia 6 de janeiro. As saídas começam ainda no Natal e seguem até o dia de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio, em 20 de janeiro. Para quem acompanha de fora, o Dia de Reis costuma atrair mais visitantes, curiosos e fotógrafos. Para quem vive a tradição, no entanto, cada dia da jornada tem o mesmo valor simbólico: caminhar, cantar e manter viva a estrela.
Essa força também se reflete em iniciativas contemporâneas, como produções audiovisuais independentes que acompanham o cotidiano das folias, registrando a prática a partir do olhar de quem vive o território. Gravados com celulares e apoio direto da comunidade, esses registros revelam como a Folia de Reis, em contextos metropolitanos, absorve referências da cultura de rua, da estética urbana e até da cultura pop, criando uma linguagem própria, sem perder o vínculo com o sagrado.
Além da Formiga, outras regiões do Rio e da Região Metropolitana também recebem as folias ao longo de janeiro. Igrejas, praças, ruas de bairros da Zona Norte, Zona Oestee Baixada Fluminense entram no roteiro das jornadas, reafirmando o caráter coletivo e itinerante da tradição.
Programação de Folia de Reis — a partir de 6 de janeiro
6 de janeiro
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Penha
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Rua Uruguai (Tijuca)
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Borel
9 de janeiro
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Nova Iguaçu
10 e 11 de janeiro
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Cidade de Deus
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Santa Cruz
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Salgueiro
17 e 18 de janeiro
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Duque de Caxias
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Prazeres (Santa Tereza)
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Morro do Turano
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Formiga
19 de janeiro
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Formiga
20 de janeiro
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Igreja dos Capuchinhos
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Salgueiro
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Piabetá
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Formiga
As datas fazem parte do roteiro das folias ligadas ao Morro da Formiga e podem sofrer alterações conforme a dinâmica das visitas, que costumam ser organizadas diretamente com moradores, instituições e comunidades anfitriãs.
Em um Rio frequentemente associado apenas ao Carnaval, a Folia de Reis segue lembrando que o calendário cultural da cidade é mais amplo, profundo e diverso. Entre cantos antigos e novas formas de expressão, a tradição segue atravessando ruas e gerações, reafirmando que, enquanto houver estrela, haverá caminho.