Oficinas do Não Monogamia Gostoso Demais aproximam público do carnaval de rua

O bloco Não Monogamia Gostoso Demais nasceu em 2022 como um estandarte que reunia amigos e amigas pelas ruas do carnaval carioca e, em pouco tempo, se transformou em um coletivo que promove encontros, debates e muita música. Hoje, o projeto vai além do cortejo: com oficinas semanais de sopro e percussão, o grupo oferece um espaço de aprendizado e acolhimento que mistura técnica, diversão e carnaval. As aulas acontecem às terças-feiras, das 19h às 22h, majoritariamente na Praça Paris, e são conduzidas por professores com formação acadêmica em música, como o trompetista Thiago Garcia e a percussionista Clarice Maciel.
A oficina dura nove meses, do início do ciclo até o desfile de carnaval, e ainda conta com uma política de bolsas para garantir que mais pessoas possam participar. Para entender melhor como o Não Monogamia Gostoso Demais se consolidou como bloco e como funciona a dinâmica das oficinas, conversamos com Silvio Coelho, idealizador e integrante da direção do coletivo.
Seria importante primeiro você começar se apresentando para as outras pessoas te conhecerem melhor. Qual o seu nome e de que forma você atua no Não Monogamia Gostoso Demais?
Meu nome é Silvio Coelho, tenho 37 anos e vivo o carnaval de rua desde sempre. Sou idealizador do Não Monogamia Gostoso Demais e hoje atuo na direção do bloco em conjunto com mais 7 pessoas que compõem a gestão:
Silvio – @87silvio
Diego – @diegodpinheiro
Priscila – @priburini
Sylvio – @barbosasylvio
Juca – @luigiojuca
Marioca – @marioca_ss
Rafaela – @rafaelanartinsnas
O bloco é fruto de uma constante construção coletiva e tudo é realizado com muito trabalho e carinho de todas as pessoas envolvidas. A princípio, era só um estandarte que foi criado pra reunir amigas e amigos como um ponto de encontro pelas ruas do carnaval em 2022.
O movimento de transformar em bloco veio depois que, em maio de 2022, levamos o estandarte pra a Praça Paris em uma tarde e chamamos amigas e amigos pra tocar e pernaltar, sem repertório definido, só pra todo mundo se divertir mesmo. Ali, vimos o quão agradável e acolhedora acabou sendo aquela tarde.
A partir daí, nos reunimos e começamos a pensar em possibilidades de repertório, sempre construído numa grande mistura de músicas brasileiras que falam sobre amor, liberdade, empoderamento, resistência, diversidade e que chamem as pessoas pra vir se entregar ao carnaval e dançar com o bloco.

O Não Monogamia Gostoso Demais é um bloco que nasce de um assunto para além da música, como vocês trazem esse assunto no dia a dia de vocês? Há rodas de conversa sobre a não monogamia? De que forma vocês abordam esse tema?
Logo quando começamos a levar esse estandarte pra as ruas, criei a página no Instagram e as pessoas tiravam fotos e marcavam a gente. Quando percebemos que a página veio crescendo rápido, já nasceu a ideia de promover espaços como rodas de conversa, mas tudo não passava ainda de uma ideia bem crua naquela época.
O projeto das rodas de conversa foi efetivamente iniciado em abril de 2023, quando convidamos a página @snaomono pra tirar a ideia do papel naquele primeiro encontro.
O primeiro encontro já foi um sucesso e, a partir daí, seguimos fazendo esses encontros periodicamente, buscando ocupar espaços públicos e conectar pessoas pra ampliar suas redes e trocar experiências sobre as vivências.
Nosso princípio é promover um espaço em que todas as pessoas se sintam seguras para poder trocar em um grande bate-papo, sem ter a figura de uma pessoa palestrante ou dona do assunto. Entendemos que este é um aprendizado constante e todas as pessoas têm algo a somar.
Ainda sobre as posições políticas e filosóficas, como é a relação do bloco com pessoas monogâmicas?
Todas as pessoas são bem-vindas para fazer parte do NMGD, inclusive pessoas monogâmicas, desde que entendam o espaço que estão ocupando e colaborem ativamente pra que este seja um espaço de respeito e acolhimento à diversidade e aos tipos de relação.
Percebemos ao longo desse tempo que esse movimento incentivou muitas pessoas que participam a experimentarem novas formas de se relacionar, inclusive pessoas que passaram também a viver a não monogamia. Para o coletivo, isso tudo é uma grande alegria, porque vemos o quão agregador o espaço que estamos construindo se tornou.
Nunca fez parte do nosso intuito criar um espaço restrito onde apenas quem já experienciou a não monogamia possa participar. Queremos poder falar sobre NM para todas as pessoas, inclusive pra quem não viva isso no seu cotidiano. Este é um assunto importante pro coletivo e queremos poder falar pra fora e não somente pra um espelho. Dar publicidade à não monogamia é um caminho que desconstrói estigmas e incentiva o respeito.
Agora falando sobre a oficina, como começou? Quanto tempo a oficina tem? Conte um pouco sobre os professores.
Estamos caminhando para o nosso quarto carnaval. No início, somente nos reuníamos e ensaiávamos sem muito material ou direcionamento profissional, como acontece no nascimento de muitos blocos de rua. No início do ciclo de 2024, decidimos iniciar a oficina como um novo passo do coletivo.
Atualmente, o NMGD conta em sua equipe com professores com formação acadêmica em música para passar ensinamentos técnicos: o trompetista Thiago Garcia e a percussionista Clarice Maciel.
A criação dos arranjos também é conduzida pelo André Ramos, músico com formação acadêmica, em conjunto comigo durante as aulas de teoria musical que tenho com ele.

Quais são as referências da oficina?
Nosso intuito é que a oficina cresça e se consolide sempre proporcionando aprendizado para as pessoas inscritas, prezando por garantir também um espaço agradável e seguro.
O desfile do bloco não tem instrumentos microfonados e prezamos por esta construção de som coletivo em que todo mundo presente é um pedaço dessa grande entrega para o público.
Entendemos que as oficinas podem e devem promover algum ensinamento de música encontrando o equilíbrio entre um espaço de aula e um espaço de carnaval. Precisa ser gostoso e agradável, mas também precisa oferecer uma oportunidade das pessoas que têm interesse expandirem seu conhecimento.
Entregar isso tudo semanalmente demanda muito trabalho e dura nove meses por ano entre o primeiro dia de oficina e o desfile de carnaval. Tudo é feito com muito carinho e dedicação pelas pessoas que fazem parte.
A enorme maioria das pessoas que tocam no carnaval não tem isso como sua carreira, mas sim como um hobby. Por isso, encontrar o ponto de leveza desse equilíbrio é importante em um espaço onde nos encontramos semanalmente à noite, na realidade em que a maioria das pessoas está saindo do trabalho em busca desse interesse em comum. O bar pra relaxar depois da oficina e encontros de confraternização também são uma realidade constante, o que é essencial nesse cenário.

Quais instrumentos ou modalidades vocês oferecem?
Na gama de instrumentos do bloco, temos flautas, trompetes, saxofones, clarinetes, trombones, bombardinos e tubas no sopro, e surdos, caixas, repiques, timbais, agogôs e xequerês. Para este ciclo, ainda temos vagas abertas para todos os sopros.
Quais são os dias que acontecem? Quais são os valores? Tem algum tipo de bolsa? Onde acontecem as aulas? O que o aluno pode esperar dela?
As oficinas ocorrem às terças-feiras entre 19h e 22h, majoritariamente na Praça Paris, firmando nosso intuito de ocupar os espaços públicos.
Recebemos alunas e alunos em qualquer nível, desde que já tenham algum contato inicial com o instrumento. A proposta da oficina é ensinar a tocar as músicas do repertório e aprimorar o conhecimento, mas não haveria tempo e espaço para um ensinamento do zero.
O valor atualmente está em R$90 para cobrir os custos dos profissionais contratados e todas as despesas do bloco ao longo do ano e no dia do cortejo oficial. Há uma política de bolsas parciais e integrais para pessoas que não têm condições de arcar com a mensalidade, mas têm desejo de aprender e fazer parte do coletivo.

Interessados em saber mais sobre as aulas, oficinas e outros projetos, qual é o melhor meio de contato com vocês? O perfil no Instagram ou pelo WhatsApp?
O contato pode ser feito através da própria página do Instagram, onde há um formulário de inscrição para as pessoas interessadas em fazer parte da oficina.
