Do chão ao céu: conheça o Projeto Girô e suas oficinas que movimentam a cultura popular

Oficinas de danças brasileiras, percussão e perna de pau para todas as idades, com música ao vivo, ritmos tradicionais e encontros cheios de afeto, pertencimento e ancestralidade: assim é o Projeto Girô. Criado por Natalia Sant’Anna e Bruno Cezzá, o projeto oferece aulas abertas para crianças e adultos aos domingos na Praça Paris, na Glória, e às segundas-feiras na Fundição Progresso, no centro do Rio. Com turmas inclusivas, descontos e bolsas voltadas para pessoas pretas, LGBTQIA+ e em situação de vulnerabilidade social, o Girô segue expandindo sua roda com quem deseja aprender e se reconectar com a cultura popular brasileira.
Nesta entrevista, conversamos com Natalia Sant’Anna, uma das idealizadoras do projeto, que conta como o Girô nasceu, quais oficinas estão com inscrições abertas, os ritmos trabalhados, a importância da escuta aos mestres da cultura popular e como o bloco de carnaval surgiu de forma espontânea, em um cortejo de fim de ano. Confira a trajetória, inspirações e sonhos que mantêm esse movimento vivo e pulsante.

Fotos: Igor Siqueira
Como nasceu o Projeto Girô?
Tudo começou numa encruzilhada, literalmente. Há 15 anos, conheci o Bruno numa esquina famosa da Lapa, o Bar da Cachaça. Ele também vinha de um território popular, Nilópolis, e já tocava desde os 12 anos compondo suas músicas.
Nos unimos pela arte e começamos a realizar ações culturais nos nossos territórios, com poucos recursos, mas muita vontade. Em 2019, uma amiga pediu aulas de carimbó. Relutei, mas aceitei. Era para ser uma troca de saberes, sem nome, sem estrutura. Bruno foi junto com o tambor e tudo começou ali. Logo depois, veio a pandemia e passamos para o formato online, o que nos conectou com pessoas de vários lugares do Brasil e do mundo.
Quem é Natalia Sant’Anna? E qual é o seu papel no Projeto Girô?
Sou nascida e criada na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Desde pequena, a arte já pulsava em mim: montava as apresentações na rua, organizava os banquinhos e chamava os vizinhos para me assistir. Mas nunca imaginei que poderia viver disso. A arte era algo distante profissionalmente.
Trilhei outros caminhos, entrei para a Marinha e me formei em Biologia pela UFRJ. Foi na universidade que reencontrei meu coração batendo forte: participei de rodas culturais e descobri a potência da arte popular. Desde 2009, venho trilhando esse caminho — nas ruas, com mestres e mestras.
Foi de forma orgânica que nasceu o Projeto Girô. Hoje, eu e Bruno Cezzá somos idealizadores, professores, cantores e diretores artísticos do projeto. Além disso, sigo sendo dançarina, com o mesmo brilho daquela menina que fazia shows na rua.
Quais oficinas o Projeto oferece atualmente?
Temos oficinas regulares na Praça Paris (Glória), aos domingos, e na Fundição Progresso (Lapa), às segundas. As atividades incluem:
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Danças brasileiras
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Percussão (crianças e adultos)
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Perna de pau (crianças e adultos)
No momento, estamos no módulo junino, com ritmos como carimbó, ciranda, baião, xote, galope e samba de coco. Teremos um arraiá dia 20 de julho, na quadra da vizinha faladeira, em Santo Cristo, homenageando Lia de Itamaracá e Dona Selma do Coco.
Em agosto, começa o módulo de carnaval, com ritmos como jongo, maracatu, ijexá, maculelê e samba de roda.

Créditos: Igor Siqueira
Quais mestres e mestras inspiram o trabalho de vocês?
Nosso trabalho é guiado por quem mantém viva a cultura popular. Nomes como Mãe Beth de Oxum, Dona Selma do Coco, Lia de Itamaracá, Mestre Maurício, entre tantos outros. Também temos como referência coletivos como Jongo da Serrinha, Quilombo São José, Nação Estrela Brilhante e Nação Porto Rico. Tradição é movimento, e cada encontro com essas figuras é um aprendizado vivo.
E como é a metodologia das oficinas?
São espaços vivos de troca. Respeitamos as trajetórias de cada participante, acolhendo desde iniciantes até quem já tem experiência. Fortalecemos a ancestralidade, o pertencimento e o amor pela cultura brasileira. Sempre com muita escuta, alegria e, claro, música ao vivo!
Como os professores ingressam no projeto?
Tudo nasce das vivências. Convidamos quem compartilha dos mesmos valores. Alguns nomes da equipe:
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Danças brasileiras: Lucas Sampaio, Bruno Cezzá, Wesley Sant’Anna, Gaby Ribeiro, Natalia Sant’Anna e Pablo Carvalho
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Percussão: Pablo Carvalho, Marina Maia, Pedro Amparo, Negadeza, Jeferson
Souza, Gaby Ribeiro, Rapha Morret e Rodrigo Maré -
Perna de pau: Wesley Sant’Anna, Guilherme Sant’Anna, Natalia Sant’Anna, Bruno Cezzá e Isa Carvalho
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Redes sociais: Mannu
Muitos começaram como alunos e foram crescendo junto com o Girô.
Quantas pessoas fazem parte do projeto hoje?
Cerca de 30 profissionais colaboram diretamente. São artistas, músicos, produtores, dançarinos e educadores. Temos uma média de 200 alunos por módulo, além das pessoas que participam das ações culturais, rodas e apresentações.
O Bloco Girô também surgiu das oficinas?
Sim! Em 2022, fizemos um cortejo de fim de ano com as turmas, que cresceu e virou o Bloco Girô, com estandarte feito por aluna, música ao vivo, perna de pau, tudo criado por quem vive o projeto. Um símbolo da força coletiva do Girô.

Créditos: Igor Siqueira
Há vagas abertas nas oficinas?
Sim! Ainda temos vagas para perna de pau e danças brasileiras no módulo junino. E já abrimos inscrições para o módulo de carnaval.
Oferecemos descontos para quem faz mais de uma oficina ou vem com familiares, além de bolsas para pessoas pretas, LGBTQIA+ e em situação de vulnerabilidade social.
Quais são os dias, horários e locais das oficinas?
Praça Paris – Glória (Domingos):
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10h30 – Danças brasileiras
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13h30 – Percussão (adulto)
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14h – Percussão (crianças)
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14h – Perna de pau (adultos e crianças)
Fundição Progresso – Lapa (Segundas):
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19h – Danças brasileiras
Temos alunos de 5 a 86 anos!
E os instrumentos usados nas oficinas de percussão?
Trabalhamos com instrumentos tradicionais da cultura popular:
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Alfaia e surdo (Pablo Carvalho)
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Caixa (Gaby Ribeiro)
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Pandeiro e leves (Rapha Morret)
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Timbal (Pedro Amparo)
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Xequerê (Marina Maia)
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Percussão infantil (Rodrigo Maré)
Como entrar em contato com o Projeto Girô?
WhatsApp: (21) 96721-6371
Instagram: @projetogiro