About nas Eleições: Jefferson Vinco fala sobre Carnaval, educação e políticas públicas para as periferias

outubro 2, 2026

Jefferson Vinco, professor da rede pública, mestre e doutorando em Geografia Urbana pela UFRRJ, construiu sua trajetória política a partir da Baixada Fluminense e da educação pública. Nascido e criado na Baixada, ele leva para a disputa por uma vaga na Alerj pautas ligadas ao direito à cidade e à redução das desigualdades territoriais. Sua atuação também passa pela mobilidade urbana, com campanhas em defesa dos trens expressos do ramal Santa Cruz e pela Tarifa Zero. Na entrevista a About, Jefferson fala sobre transporte público, Carnaval, cultura, moradia, educação e planejamento urbano. Entre as propostas, defende a integração dos modais, a ampliação dos horários dos transportes e o avanço da Tarifa Zero no Estado. O candidato também aborda a descentralização dos investimentos culturais, a valorização dos servidores e políticas voltadas às periferias e à população LGBTQIAPN+.

Para Jefferson, transporte, moradia, educação e cultura precisam ser pensados de forma integrada para garantir o direito à cidade. Ele defende a integração entre trem, metrô, barcas e ônibus, com ampliação dos horários e redução das tarifas como caminho para avançar na Tarifa Zero. No Carnaval, propõe uma operação adequada durante a madrugada e mais estrutura e programação nos bairros da Zona Oeste, da Baixada e de outros territórios periféricos. Na cultura, fala sobre aumento do orçamento, descentralização dos recursos e fortalecimento de equipamentos, bibliotecas comunitárias e produtores locais. Na educação, defende novos concursos, valorização dos profissionais e o pagamento do piso dos professores da rede estadual. Jefferson também apresenta propostas para habitação de interesse social, planejamento regional, participação popular e políticas de enfrentamento à LGBTfobia.

1. Você nasceu e foi criado na Baixada Fluminense, é professor da rede pública, mestre e doutorando em Geografia Urbana pela UFRRJ. Como essa trajetória, entre educação e pesquisa sobre a cidade, influencia as prioridades que você pretende levar para a Alerj?

A minha origem na Baixada, ser filho de trabalhadores informais e ser fruto da educação pública me mostraram, desde muito cedo, como a educação pode transformar a vida de uma pessoa e de toda a sua família. Eu sonhei em ser professor, consegui chegar à universidade pública e escolhi continuar vivendo e construindo a partir da periferia. Ao mesmo tempo, essa trajetória também me colocou diante das desigualdades que marcam o nosso estado. Eu vivo o sucateamento da universidade pública, agravado pelas políticas de austeridade e pelo arcabouço fiscal, e enxergo essa desigualdade principalmente no transporte precário, na saúde sucateada e na dificuldade de acesso à cultura e ao lazer. Toda essa vivência forjou a minha luta política. E a Geografia me deu ferramentas para compreender como essas desigualdades se expressam no território e produzem uma cidade partida, em que o lugar onde você mora ainda determina quais direitos você consegue acessar. É justamente isso que eu quero enfrentar na Alerj. Para mim, garantir o direito à cidade e fazer o Estado chegar a quem historicamente foi negligenciado, significa inverter a lógica das prioridades políticas. Precisamos ampliar o investimento público e colocar mais recursos nos territórios e nas políticas que atendem à classe trabalhadora, que é quem constrói todos os dias o estado do Rio.

2. Você já disputou uma vaga na Alerj em 2022 e retorna agora como candidato. O que mudou na sua experiência política e na sua leitura sobre os principais problemas do Estado desde aquela eleição para a atual?

Em 2022, eu tive 8.380 votos na minha primeira candidatura a deputado estadual. Foi uma experiência muito importante porque percorremos diferentes territórios e conseguimos entender ainda melhor como os problemas do Rio de Janeiro se conectam. De lá para cá, eu amadureci politicamente e continuamos construindo o Coletivo Tudo Numa Coisa Só, que eu presido na Zona Oeste, ampliamos nossa atuação na educação popular e aprofundamos o debate político nos territórios. Hoje, coordeno quatro polos de pré-vestibular comunitário, oferecidos gratuitamente à população de Campo Grande, Bangu, Pedra de Guaratiba e Santa Cruz. Além disso, percebi que muitas das lutas que apresentávamos em 2022, como transporte público, direito à cidade e valorização dos servidores, continuam extremamente necessárias. Tivemos alguns retrocessos nesses últimos quatro anos, e a conjuntura hoje é ainda mais delicada do que aquela que enfrentávamos naquela eleição. Os recentes escândalos envolvendo relações entre setores do poder político e o crime organizado, as denúncias de fraudes e a sucessão de casos envolvendo recursos públicos reforçam, para mim, a urgência da renovação política de que o nosso estado precisa. Hoje eu tenho ainda mais consciência  da minha responsabilidade, enquanto parte do campo progressista, de enfrentar os grupos políticos que governaram o Rio nos últimos anos.

Nós vimos dinheiro dos servidores ser colocado em investimentos ligados ao Banco Master, enquanto faltaram recursos para serviços públicos essenciais. Vimos o transporte se deteriorar e o Estado ser drenado e capturado por uma lógica política que, durante décadas, desviou recursos e prioridades daquilo que realmente importa para a população. E isso fica muito evidente quando eu olho para os trens, que já eram uma das principais pautas que eu defendia em 2022. Quatro anos depois, o cenário é de ainda mais deterioração, perda de qualidade do serviço e tarifas mais altas. Por isso, eu chego a esta eleição com mais experiência, mais clareza sobre os desafios do nosso estado e muita disposição para ocupar uma cadeira na Alerj e representar um projeto político diferente para o Rio de Janeiro. Quero contribuir para enfrentar a extrema direita no estado e, no plano nacional, defender a continuidade do governo Lula. Depois de tudo o que construímos e aprendemos nesses quatro anos, eu me sinto muito mais preparado para essa missão.

3. Sua atuação tem sido bastante ligada à mobilidade, inclusive com a campanha “Que Saudade do Meu Expresso”, em defesa dos trens expressos do ramal Santa Cruz, e hoje com o Rio Sem Passagem. O que você considera necessário para transformar essas reivindicações em uma política estadual de mobilidade. 

Em 2022, os trens expressos do ramal Santa Cruz foram retirados, aumentando ainda mais o tempo de deslocamento de milhares de trabalhadores. Então fomos para as ruas com a campanha “Que Saudade do Meu Expresso”, reivindicando a volta dos trens expressos e melhorias no transporte ferroviário. Essa mobilização desencadeou uma imersão que fizemos por todos os ramais. Como moro na Baixada e sou professor na Zona Oeste há mais de dez anos, a minha vida sempre esteve entre os ramais de Japeri e Santa Cruz, e eram esses os problemas que eu conhecia mais de perto. Mas decidimos percorrer todos os ramais, conhecer os tempos de deslocamento, ouvir as demandas dos usuários e apresentar tudo isso em uma série nas redes sociais.

Desde então, venho cobrando melhorias, mobilizando atos e defendendo a redução das tarifas. Temos uma das passagens mais caras do Brasil e, por isso, também fomos para as ruas com o projeto Rio Sem Passagem, para conversar com as pessoas e mostrar que a Tarifa Zero é possível. Nacionalmente, esse debate já vem avançando, e tive acesso a estudos elaborados pela UnB e pela UFRJ que apontam caminhos para o financiamento público do transporte. E, respondendo objetivamente ao que é necessário para transformar essas reivindicações em uma política estadual, para mim a primeira coisa é mudar a lógica com que o transporte público é tratado. Transporte é um direito e não pode ser pensado apenas como um negócio que precisa dar lucro. É uma infraestrutura fundamental para garantir que a população consiga acessar emprego, escola, hospital, cultura e lazer.

Por isso, eu defendo que o Estado volte a assumir responsabilidade sobre o transporte sobre trilhos, com recuperação das estações, melhoria da frequência e da qualidade dos trens, integração entre trem, metrô, barcas e ônibus e ampliação dos horários de funcionamento. E precisamos avançar na Tarifa Zero. Ela significa mais dinheiro no bolso do trabalhador e circulando na economia, amplia o acesso à cidade, fortalece o transporte coletivo e pode contribuir para reduzir a dependência do carro. No Rio, discutir um sistema público e integrado de mobilidade também significa enfrentar a fragmentação do transporte e a atuação de grupos criminosos sobre esse serviço em determinados territórios. É esse modelo que eu quero defender na Alerj.

4. O transporte público define quem consegue acessar trabalho, educação, saúde, lazer e cultura. Como a discussão sobre tarifa zero se relaciona, para você, com o direito à cidade e com as desigualdades entre capital, Baixada e Zona Oeste?

Infelizmente, a gente ainda vive em uma cidade e em um estado que concentram grande parte da oferta de lazer e cultura na região do cartão-postal. É no eixo Centro–Zona Sul que encontramos uma oferta maior de cinemas, teatros, grandes eventos, parques e espaços públicos mais estruturados. Para um morador da periferia usufruir desses espaços no seu momento de lazer, muitas vezes precisa se deslocar 40, 50 quilômetros. E, em uma cidade com pouca integração entre os modais e muitas baldeações, esse deslocamento pesa no orçamento. Quando uma família com dois filhos, por exemplo, decide sair em um fim de semana, precisa colocar na conta a alimentação, o ingresso e a passagem para ir e voltar. Isso acaba limitando o acesso e a circulação de uma parcela enorme da população pela própria cidade. Por isso, quando eu falo em Tarifa Zero, eu estou falando também em direito à cidade. É fazer com que o custo do deslocamento deixe de ser uma barreira para as pessoas ocuparem e usufruírem de espaços que pertencem a todos.

É claro que, ao mesmo tempo, precisamos avançar na descentralização da cultura, levando mais equipamentos, investimentos e atividades para a Zona Oeste, para a Baixada e para o interior. Mas o que eu defendo é a garantia de que qualquer pessoa possa circular pelo estado e usufruir de tudo aquilo que ele oferece, independentemente do lugar onde mora ou da renda que tem. Isso democratiza os espaços, promove o encontro entre pessoas de diferentes territórios e torna a cidade mais plural. Eu venho estudando caminhos para viabilizar a Tarifa Zero e sei que ela é possível. Hoje, por exemplo, o custo para manter a operação dos trens representa cerca de 0,7% do orçamento total do Estado. Mas também entendo que essa transição precisa ser feita com planejamento e responsabilidade.

Um primeiro passo é avançar na Tarifa Zero nos fins de semana e feriados, acompanhada da ampliação dos horários de funcionamento dos trens e do metrô. Porque isso já permitiria que a população vivesse a espontaneidade da cidade. A possibilidade de acordar em um sábado e decidir ir a um parque, visitar um museu, assistir a um show, encontrar os amigos. O poder público precisa entender que o transporte público é um instrumento de democratização do acesso ao lazer, à cultura e ao próprio direito à cidade.

5. No Carnaval, o transporte também é parte da estrutura necessária para garantir a ocupação das ruas. Que mudanças você defenderia para que o sistema de transporte estadual consiga atender melhor blocos, trabalhadores e foliões, especialmente nos territórios mais afastados do centro?

Eu acabei antecipando um pouco essa resposta na pergunta anterior, quando falei da minha proposta de ampliar o horário de funcionamento dos trens e do metrô. Como eu moro na Baixada, essa é uma situação que eu já vivi várias vezes. Você vem assistir a uma peça, vai a um show, fica até mais tarde em um bar com os amigos e, quando vai chegando determinado horário, começa aquela preocupação: “O trem vai parar de funcionar. Como é que eu volto para casa? Vou ter que dormir na casa de alguém? Vou ter que dividir um Uber?”. São questões que fazem parte da rotina de quem mora na periferia. E isso não diz respeito apenas ao lazer. São milhares de trabalhadores que saem tarde do trabalho e também precisam do transporte público para voltar para casa. Quando a gente traz isso especificamente para o Carnaval, o dilema fica ainda mais evidente. Neste ano, por exemplo, tivemos operação durante 24 horas, mas com intervalos muito longos.

Eu mesmo cheguei à estação para pegar o Japeri e teria que esperar cerca de uma hora. Acabei desistindo, fui de metrô até a Pavuna e, de lá, chamei um Uber. Mas eu pude fazer essa escolha. E quem não pode pagar por outra alternativa? Por isso, não adianta simplesmente dizer que o transporte vai funcionar 24 horas. É preciso garantir uma operação adequada durante toda a madrugada e com intervalos regulares. Imagina um trabalhador que passou horas em pé trabalhando durante o Carnaval e, quando finalmente termina o expediente, ainda precisa esperar uma hora por um trem para conseguir voltar para casa.

E tem também uma questão de segurança, especialmente para as mulheres. Quanto maior o tempo de espera durante a madrugada, maior pode ser a exposição nas estações. E existe uma segunda questão, que é descentralizar o próprio Carnaval. A gente precisa incentivar e garantir mais blocos, programação e estrutura nos bairros da Zona Oeste, da Baixada e de outros territórios periféricos. O Carnaval é uma das maiores manifestações da nossa cultura popular e não pode ficar concentrado apenas no Centro e nas áreas mais turísticas.

6. Você também coloca o direito à moradia entre as pautas da candidatura. Como pensar habitação junto com transporte, equipamentos públicos, escolas, saúde e cultura para evitar que a população seja empurrada para áreas cada vez mais distantes dos serviços?

Eu tenho denunciado a expansão desses microapartamentos, os chamados estúdios, na região central do Rio. São novos empreendimentos ou prédios antigos que passam por retrofit e são transformados em unidades de 25, 30 metros quadrados, muitas vezes pensadas como investimento e destinadas às plataformas de hospedagem de curta duração. E isso acontece em um estado que tem um déficit habitacional de mais de meio milhão de moradias, enquanto milhares de trabalhadores continuam vivendo cada vez mais longe das regiões que concentram empregos e serviços, muitas vezes em territórios com problemas de saneamento, transporte, infraestrutura e até em áreas de risco. Existe uma lógica histórica de produção da cidade que foi afastando a população mais pobre das áreas centrais. E o que a gente percebe agora é que o chamado Reviver Centro, em vez de romper com essa dinâmica, na verdade tem favorecido os interesses do mercado imobiliário. A própria ideia de “revitalização” é problemática, e a gente precisa discuti-la com seriedade.

O que a gente vê é o poder público flexibilizando parâmetros urbanísticos, permitindo unidades cada vez menores e oferecendo incentivos para novos empreendimentos, sem colocar no centro dessa política a necessidade de ampliar a Habitação de Interesse Social. E isso tem impacto, inclusive, sobre o transporte. Hoje, milhares de trabalhadores ficam reféns desse movimento pendular. Eles saem da Zona Oeste e da Baixada pela manhã para trabalhar no Centro e na Zona Sul e retornam para casa à noite. São horas da vida gastas em deslocamento e uma pressão enorme sobre trens, ônibus e metrô. Quando a gente aproxima moradia e emprego, portanto, também está falando de mobilidade e qualidade de vida. E existe outra contradição nessa narrativa de que a Zona Portuária está se consolidando como um novo bairro residencial. Para um território se efetivar como bairro, é preciso garantir os serviços necessários para a vida cotidiana.

Onde estão as escolas? As creches? As Clínicas da Família? Os mercados? As farmácias? Não adianta produzir milhares de apartamentos que, muitas vezes, não atendem às necessidades de uma família sem estruturar ao redor deles os serviços necessários para que as pessoas possam, de fato, morar e construir suas vidas ali. Por isso, a minha defesa é que a gente precisa colocar o povo no Centro de novo. Isso significa enfrentar a especulação imobiliária, ampliar a oferta de Habitação de Interesse Social, destinar imóveis públicos ociosos para moradia, estimular políticas de locação social e articular habitação com transporte, saúde, educação, cultura, saneamento e emprego. Para mim, combater a desigualdade também passa por reorganizar essa lógica de produção da cidade, que hoje está à serviço do capital imobiliário e da demanda turística sazonal.

7. A produção cultural da Baixada e das periferias é grande, mas os recursos e equipamentos culturais ainda são bastante concentrados. Que políticas estaduais poderiam contribuir para descentralizar o investimento cultural e fortalecer quem já produz cultura nesses territórios?

Sei na pele o que é crescer com pouco ou quase nenhum acesso à cultura, aos livros e aos espaços de arte. Por experiência própria, aprendi que para ter quem produza cultura, primeiro a gente precisa garantir que o povo tenha acesso a ela. ​Para fortalecer de verdade quem já faz cultura na ponta, o caminho começa aumentando o orçamento da pasta e garantindo uma distribuição justa desse recurso pelos territórios. Precisamos descentralizar os investimentos e levar mais aparelhos culturais e eventos públicos para a Baixada, Zona Oeste, os subúrbios e as favelas. ​A criação dos Escritórios de Cultura é um passo crucial: eles vão oferecer capacitação, orientação técnica e apoio burocrático aos micro e pequenos produtores locais, ajudando nossa gente a acessar verbas públicas e a fazer da arte uma fonte real de sustento.

Além disso, como falei antes, o acesso à cultura é prioridade, então vou também olhar com urgência para as bibliotecas comunitárias. É preciso ampliar e estruturar esses espaços, garantir verba para acervo e criar editais específicos para fomento. Afinal, antes de exigir ou cobrar que a periferia produza cultura, o Estado tem o dever de garantir o acesso dos nossos jovens aos livros, aos palcos e às oportunidades.

8. O Carnaval de Rua envolve uma cadeia de trabalhadores que vai muito além dos artistas: ambulantes, catadores, produtores, técnicos, profissionais da economia criativa e pequenos empreendedores. Como uma política estadual poderia garantir melhores condições de trabalho e renda para essas pessoas?

Diversas políticas públicas podem ser direcionadas para os trabalhadores da cultura. Mas vou priorizar aqui o direcionamento de recursos para o setor. Com mais investimentos na cultura, vamos possibilitar o aumento no número de projetos e produções de todos os tipos, iniciativas que vão aumentar as oportunidades de trabalho e melhorar a renda dos trabalhadores da cultura. 

Por isso, meu principal compromisso é exigir o aumento da verba estadual destinada à cultura. Com mais recursos, poderemos ampliar o número de aparelhos culturais e eventos, melhorando as condições de trabalho e a renda em todo o setor, melhorando a vida dos trabalhadores diretos e indiretos.

9. Como professor da rede pública, quais são hoje, na sua avaliação, os principais desafios da educação estadual e que medidas você pretende defender na Alerj para enfrentá-los?

A educação estadual enfrenta muitos problemas, mas considero que o processo crescente de desvalorização do servidor público, a elevada evasão escolar, e a ampliação da política de contratos temporários e terceirizações são problemas gravíssimos, frutos de um processo de precarização do ensino público realizado pelas últimas gestões.

Precisamos mudar radicalmente a forma como os educadores e funcionários são tratados. Educação de qualidade se faz com servidores, educadores e funcionários estáveis, que conhecem a comunidade escolar e criam vínculos que são fundamentais para o acompanhamento e desenvolvimento dos estudantes. Por isso, vamos lutar pela criação de novos concursos públicos e pela valorização dos profissionais. Hoje, o estado do Rio não paga o piso dos professores e tem o pior salário do Brasil. Isso precisa acabar. O pagamento do piso no vencimento dos professores é uma luta que vou priorizar na ALERJ, porque sei que educadores valorizados são a base de um ensino de qualidade.

Também vou fiscalizar os contratos firmados para a prestação de serviços e fornecimento de insumos para a SEEDUC. Precisamos verificar a pertinência desses contratos e se eles estão sendo cumpridos de verdade. É um dever dos parlamentares zelar pelos recursos públicos e pela qualidade do ensino.

Além disso, vou lutar pelo fim do decreto que criou a dependência em até 6 disciplinas. Essa maquiagem forjada para aumentar o IDEB da rede acaba com a autonomia docente e prejudica gravemente a formação dos estudantes. Vou manter contato constante com o Conselho Estadual de Educação, com o Sepe e outros movimentos de luta pela educação, fomentando debates que possam orientar as políticas da SEEDUC para o combate à evasão e melhoria da qualidade do ensino. Dessa forma, valorizando os servidores e ouvindo os educadores, vamos melhorar a qualidade do ensino público do Rio. 

10. Você também fala em valorização dos servidores públicos. Que políticas considera necessárias para melhorar as condições de trabalho e a valorização dos profissionais que atuam nos serviços públicos estaduais?

Como disse antes, a precarização do serviço público deve ser combatida urgentemente. Ela avançou sobre todas as secretarias e é um retrocesso. Vou lutar pela criação de novos concursos públicos, com o objetivo de acabar, mesmo que progressivamente, com o déficit em todos os setores.

Além disso, meu mandato vai defender o reajuste anual com data-base fixada pelo funcionalismo, mantendo o salário dos servidores digno. Outra pauta fundamental é o cumprimento dos planos de carreira, e a instituição de planos para as categorias que ainda não tem. Hoje, temos uma grande defasagem nos salários e carreiras do estado, e isso precisa mudar se queremos que os serviços essenciais sejam prestados à população com qualidade.

11. Sua candidatura destaca a participação da juventude e dos movimentos sociais na construção política. Como você pretende criar mecanismos para que a população participe efetivamente das decisões de um eventual mandato, para além das consultas pontuais?

Primeiro, meu mandato vai atuar para incentivar a população a comparecer às sessões plenárias, assistindo às votações. Essa participação vai ser fomentada por um mandato aberto à população, um gabinete disponível ao povo. Também vamos promover audiências e debates públicos alinhados aos temas de interesse da população, priorizando nossas pautas principais, que são os direitos da população LGBTQIAPN+, educação, mobilidade e planejamento urbano. 

Além disso, vou continuar a realizar agendas nas ruas, conversando com a população nos calçadões, centros de bairros e cidades e em equipamentos públicos. Essas agendas farão parte da minha rotina semanal, um compromisso meu com a sociedade fluminense.

Nosso objetivo é fomentar os canais de participação popular para que a criação de políticas públicas e a minha atuação parlamentar sejam coerentes com as demandas do povo. 

12. Você também coloca a população LGBTQIAPN+ entre os grupos que pretende representar no mandato. Quais políticas estaduais considera prioritárias para enfrentar a violência e ampliar o acesso dessa população a direitos e serviços públicos?

Infelizmente, a população LGBTQUIAPN+ sofre, e muito, com a violência e a falta de oportunidades. Primeiro, quero fortalecer e ampliar o Rio Sem LGBTIfobia, garantindo atendimento em todo o estado, saúde integral, proteção contra a violência e produção permanente de dados sobre a população LGBTQIAPN+. 

Esse é um programa público que precisa de mais investimentos. O Centro de Cidadania LGBTI, por exemplo, é um equipamento que faz parte deste programa, realiza serviços de acolhimento, orientação e garantia de direitos, e teve uma unidade fechada neste ano em Campos. Precisamos lutar para que esses equipamentos funcionem em todo o estado, e que possamos aumentar o número de unidades pelo Rio.

Além disso, vou lutar pela produção e divulgação permanente de dados sobre a violência contra a população LGBTQIAPN+. O Rio de Janeiro foi o único estado do país que não enviou ao Anuário Brasileiro de Segurança Pública dados sobre crimes motivados por LGBTfobia e discriminação por orientação sexual e identidade de gênero. A ausência de dados sobre esses crimes, relativos aos anos de 2024 e 2025 é um absurdo. Precisamos garantir que o Estado do Rio de Janeiro mantenha indicadores atualizados para orientar políticas de prevenção e enfrentamento à LGBTfobia.

13. Como pesquisador de Geografia Urbana, você estuda justamente as relações entre território, cidade e desigualdade. Que papel o planejamento estadual deveria ter para reduzir as diferenças entre regiões do Rio de Janeiro, especialmente entre capital, Baixada, interior e periferias?

Eu acredito que o Estado do Rio de Janeiro não pode tratar todos os territórios da mesma forma. Cada região tem suas  potencialidades e necessidades, e o planejamento socioeconômico precisa partir dessas diferenças. Em todo o estado, temos uma grande dependência econômica dos royalties do petróleo. Precisamos, de forma estratégica, investir na diversificação da economia para que o Rio de Janeiro não fique dependente de um único recurso (que é finito!) e tenha sustentabilidade no futuro. Além disso, é necessário levar investimentos em logística, serviços, infraestrutura e saneamento para os municípios, criando novas centralidades econômicas e reduzindo a dependência da Capital.

Para isso, precisamos, também, aproximar o Governo do estado, os municípios e a Alerj. Quero fortalecer essa comunicação direta com os territórios, para que demandas reais da população orientem o planejamento e orçamento público. As políticas precisam ser construídas de baixo para cima, ouvindo quem vive os problemas no dia a dia.

Também precisamos enfrentar a concentração da renda e da atividade econômica no estado. Isso significa uma melhor repartição do orçamento para as regiões, os fundos estaduais e os investimentos do Governo para ampliar a infraestrutura de mobilidade, integrar a Baixada e as periferias aos centros de emprego e garantir saneamento, habitação, saúde e educação de qualidade em todas as regiões.

E, principalmente, precisamos fazer com que as pessoas possam trabalhar e gerar renda perto de onde vivem. Não é justo que milhões de trabalhadores precisem passar horas todos os dias se deslocando para a Capital porque não existem empregos e oportunidades suficientes em seus próprios municípios. Quero um desenvolvimento mais equilibrado, que fortaleça as economias locais, gere emprego nos territórios e combata a lógica das cidades-dormitório.


14.Para fechar: se eleito, qual seria a primeira proposta que você gostaria de apresentar na Alerj para aproximar mobilidade, educação, cultura e direito à cidade?

Se eleito, minha primeira proposta na Alerj para conectar mobilidade, educação, cultura e direito à cidade será apresentar o projeto de lei pela integração plena dos transportes, como o primeiro passo da nossa luta pela implementação da tarifa zero no Estado do Rio de Janeiro.

O objetivo dessa proposta é atuar pela integração de todos os modais de transporte, em um único sistema de bilhetagem. Queremos garantir a integração ilimitada por um período mínimo de 3 horas e o barateamento do bilhete único. Hoje, as pessoas só podem integrar dois modais. Na prática, isso penaliza justamente os trabalhadores e estudantes que moram mais longe, na Baixada e nas periferias e que precisam fazer múltiplas baldeações para se deslocar.

A mobilidade não é só transporte, é acesso, e abre a porta para outros direitos como a educação. Reduzir ou zerar o custo dos transporte alivia diretamente o orçamento das famílias. Isso impede que os jovens abandonem as faculdades por falta de dinheiro para a passagem e possibilita uma formação continuada.

A Tarifa Zero permite acesso à cultura e à cidade! Não adianta termos eventos gratuitos, se a população da periferia não tem dinheiro para pagar o transporte. Uma família com 5 pessoas gasta pelo menos 50 reais (com a tarifa social) para sair da baixada e chegar ao Centro. Garantir a circulação livre é permitir que o cidadão viva e ocupe o Estado por inteiro.