About nas Eleições: Professor Josemar fala sobre Carnaval, combate ao racismo e investimentos em educação pública

Professor Josemar, deputado estadual pelo PSOL e professor de Geografia, construiu sua trajetória política em São Gonçalo a partir da defesa da educação pública e dos pré-vestibulares populares. Eleito para a Alerj em 2022, também atuou como vereador do município e hoje preside a Comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos. Na Assembleia, sua atuação reúne pautas como educação, combate ao racismo, transporte público e direitos da população negra. Autor da Política Estadual Vini Jr. de combate ao racismo nos estádios, Josemar também defende a implementação das leis de educação antirracista nas escolas. Na entrevista a About, ele fala sobre Carnaval, cultura periférica, ocupação dos espaços públicos e descentralização dos recursos culturais. Josemar também apresenta propostas para educação, transporte, combate ao racismo e enfrentamento dos efeitos da crise climática no estado.
Para Professor Josemar, o fortalecimento da cultura passa pela descentralização dos recursos e pela participação de quem produz cultura nos territórios. Ele defende que escolas públicas possam funcionar também como espaços culturais abertos às comunidades, com profissionais responsáveis pela manutenção dessas atividades. No Carnaval, destaca a importância dos blocos, escolas de samba e manifestações culturais das periferias, além de questionar a dependência de editais como principal forma de acesso aos recursos. O deputado também relaciona mobilidade, educação e direito à cidade, defendendo redução das tarifas, ampliação do Passe-Livre Intermunicipal e expansão da rede de transporte. Na pauta antirracista, fala sobre a aplicação das leis que determinam o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena e sobre mecanismos de combate ao racismo nas escolas. Para um novo mandato, aponta como prioridades o aumento do orçamento da educação, a valorização dos profissionais e políticas permanentes para cultura e periferias.

1. Você nasceu e foi criado em São Gonçalo, é professor de Geografia e construiu sua trajetória política a partir da defesa da educação pública e dos pré-vestibulares populares. Como essa experiência influencia a sua atuação na Alerj e as prioridades para um novo mandato?
Durante os últimos quatro anos fui um porta voz da luta pela educação pública na ALERJ, sempre me colocando à disposição do movimento estudantil, dos sindicatos de professores e dos movimentos sociais. Juntos, tivemos coragem de enfrentar as máfias e lutar por um Rio de Janeiro que respeite trabalhadores e estudantes. Em relação à educação, lutamos pelo cumprimento do piso do magistério e em defesa da UERJ e das FAETECs. Quero que meu mandato continue sendo um espaço de amplificação das lutas dos estudantes e trabalhadores.
2. Você tem uma trajetória que passa pela Alerj e pela Câmara Municipal de São Gonçalo como vereador. O que a experiência desses dois espaços institucionais te ensinou sobre as diferenças entre as demandas municipais e os problemas que precisam de uma atuação do Estado?
Como vereador pude abrir as portas para os professores em greve de São Gonçalo ocuparem a câmara municipal. Como deputado estadual quis entrar na ALERJ com esse mesmo espírito, de abrirmos cada vez mais portas para aqueles que lutam por direitos. Na ALERJ estão os grandes mafiosos que controlam nosso estado, então é preciso muita coragem para os enfrentamentos. Eu estou disposto a ir até o fim na luta por uma revolução no Rio de Janeiro.
3. Seu mandato tem a educação e o combate ao racismo entre as principais prioridades, e você preside a Comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos da Alerj. Como autor da Lei Vini Jr., criada para coibir práticas racistas nos estádios, quais são hoje os principais desafios para construir uma política antirracista no Estado e garantir a aplicação efetiva dessa legislação?
O Rio de Janeiro foi o maior porto de tráfico de pessoas escravizadas no mundo, e desde então muito pouco foi feito para reparar as violências infligidas ao povo negro. Hoje, vemos nossos jovens com pouca perspectiva de futuro e sofrendo muita violência policial. Não podemos esquecer que, apenas ano passado, vivemos o maior massacre da história recente do Brasil na Penha. Precisamos efetivar o ensino de história negra e indígena nas escolas, pensar outra política de segurança pública e garantir empregos de qualidade para nosso povo. Para isso, é importante elegermos pessoas negras de esquerda e amplificar cada vez mais nossa luta.
4. A gente costuma dizer que o Carnaval é muito mais do que uma festa: ele é uma forma de ocupar a cidade, fortalecer identidades e movimentar a economia. Como você enxerga essa relação entre Carnaval, educação, cultura e direito à cidade?
Acho que o Carnaval está inserido nessa disputa, entre as grandes empresas que buscam lucrar com a festa e os foliões e trabalhadores da cultura que estão ocupando a cidade e circulando debates fundamentais. Foi o caso do cortejo de comemoração pela condenação do Bolsonaro que ajudamos a organizar no ano passado, um grito importantíssimo depois da atuação genocida dele durante a Covid-19. Também tem sido o caso de muitos enredos de escola de samba que tem feito esse trabalho de resgate através da música e da dança da história negra e indígena do país, essa história que a História não conta.
5. Em uma entrevista durante a eleição para a Prefeitura de São Gonçalo, você defendeu a retomada do Carnaval do município, o fortalecimento dos blocos e das escolas de samba e o apoio a rodas culturais, rap, funk, trap e samba. O que dessa agenda você acredita que pode ser levado para uma política cultural estadual?
Acho fundamental que o estado impulsione uma política cultural construída pelos trabalhadores e principalmente pelas periferias. Um passo fundamental nesse sentido é o piso de 2% do PIB para cultura, e sua aplicação nos estados. Mas também acho fundamental que esse orçamento seja implementado em diálogo com quem constrói a cultura, e que possamos superar essa lógica de disputa por editais.
6. O Programa Estadual de Incentivo aos Blocos de Carnaval de Rua, criado em 2025, prevê edital anual para apoiar os blocos e permite a adoção de políticas afirmativas na seleção. O que você acredita que ainda precisa ser feito para que essa política alcance de fato os blocos independentes e os territórios fora do circuito mais tradicional?
O incentivo aos blocos de rua é fundamental, mas limitar essa política a editais é muito complicado. Isso porque o edital sempre acaba colocando para os fazedores de cultura uma disputa, e nessa disputa quem tem menos recursos sempre acaba ficando pra trás. Pensa, quem tem já experiência em completar editais, dinheiro pra ter CNPJ, às vezes contratar um contador? Isso só pra poder participar do edital. Acredito que políticas de incentivo a espaços públicos, com servidores concursados e que estejam de fato inseridos nos territórios conseguem ir bem mais longe.
7. São Gonçalo tem uma produção cultural própria, com rodas de samba, blocos, escolas de samba e manifestações ligadas à cultura urbana. Como descentralizar os recursos estaduais para que cidades da Região Metropolitana e do interior tenham mais estrutura para produzir e preservar sua própria cultura popular?
O poder público não tem interesse em fomentar a cultura nas periferias e fora das capitais, porque a arte é uma ferramenta muito poderosa de contestação. Precisamos lutar para a descentralização do orçamento, com a criação de mais centros de cultura, inclusive com a retomada das escolas públicas como centros de cultura abertos para as comunidades, e com concursos públicos para os trabalhadores culturais desses espaços.
8. Muitos blocos e manifestações culturais ocupam ruas e praças de bairros periféricos, mas encontram dificuldades com licenciamento, infraestrutura, transporte e segurança. Como o poder público pode organizar essa ocupação sem transformar a burocracia em uma barreira para a cultura popular?
É necessário mais democracia na gestão da cultura. É necessário que o orçamento não fique só nas capitais e nas áreas mais privilegiadas das cidades, mas é necessário também que o estado tenha mais espaço de escuta efetivos das necessidades dos fazedores de cultura e também das pessoas que acessam esses espaços.
9. Como presidente da Comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos da Alerj, você já promoveu debates sobre educação antirracista e defendeu a formação continuada dos profissionais da educação. Que medidas você considera necessárias para transformar a educação antirracista em uma política permanente nas escolas do estado?
Temos já duas leis muito importantes nesse sentido, a Lei nº 10.639 e a Lei nº 11.645. Em meu mandato atuei pela implementação dessas leis, em parcerias com a Rede Emancipa de Educação Popular, o Coletivo Juntos! e o Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação. Além disso, realizamos uma importante audiência pública sobre o fortalecimento da educação quilombola. Temos que seguir lutando por e fiscalizando essa implementação.
10. Você tem atuação na Comissão de Transportes da Alerj e já participou de debates sobre tarifas e qualidade do transporte público. Em 2026, também foi coautor de uma proposta para ampliar o Passe-Livre Intermunicipal para estudantes que precisam utilizar mais de um modal no deslocamento até a escola. Como você avalia hoje o transporte público como uma questão de acesso à educação, à cultura e ao direito à cidade?
O transporte público é fundamental. Se o transporte é muito caro ou tem horários muito reduzidos, a população não consegue acessar nem educação, nem cultura, nem a cidade. Não podemos ter um metrô por exemplo, que é o mais caro do Brasil, e o estudante deixar de seguir seus estudos porque não consegue pagar. Ou não podermos acessar um bloco ou uma peça no fim de semana porque o ônibus acaba muito cedo. Além do passe livre, precisamos da redução das tarifas, em direção à tarifa zero, que é sim possível. E é necessária também a expansão do transporte, como a criação da Linha 3 do Metrô e a expansão das barcas.
11. A Comissão de Combate às Discriminações, presidida por você, já discutiu a criação de mecanismos para denunciar casos de racismo nas escolas e a aplicação das leis que determinam o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena. Como transformar essas medidas em uma política de enfrentamento ao racismo que também alcance outros espaços públicos e culturais do estado?
Temos debatido a criação da Lei Vini Jr. nas escolas, ou seja, um protocolo de combate ao racismo no ambiente escolar. É necessário explicitar que certas ações são sim racistas e não podem fazer parte do cotidiano das escolas, e ter medidas encaminhativas para garantir que estudantes e professores negros possam ser respeitados nesse ambiente.
12. Em 2025, a Alerj aprovou em segunda discussão o seu projeto que proíbe o corte de água e energia elétrica da população de baixa renda durante períodos de calor extremo. O que esse processo revela sobre os desafios de construir políticas estaduais de proteção à população diante dos eventos climáticos extremos?
É necessário coragem para estar naquele espaço e conseguir lutar pelo que é mais necessário para a população mais marginalizada. Mas nós temos mostrado que é sim possível. Não que eu acredite que vamos resolver todos nossos problemas na ALERJ, mas que é um espaço que precisamos ocupar para conquistar certas garantias e não deixar que as máfias sigam controlando as vidas do povo do Rio de Janeiro. Se reeleito, quero muito me debruçar mais sobre os efeitos da crise climática e o que podemos fazer para evitá-la.
13. A cultura produzida nas periferias muitas vezes é vista como entretenimento, mas também funciona como espaço de formação, identidade e organização comunitária. Como o Estado pode reconhecer essa dimensão e criar políticas permanentes para fortalecer artistas e produtores desses territórios?
Com certeza. Uma de nossas propostas é justamente que as escolas sejam abertas aos finais de semana como espaços permanentes de fomento cultural acessíveis para toda a comunidade escolar e dos territórios. E para isso, também serão necessários concursos públicos para agitadores culturais que mantenham esses espaços, sendo assim um política de emprego para as periferias também.
14. Se eleito para um novo mandato, qual seria a principal proposta que você gostaria de aprovar na Alerj para fortalecer a educação, a cultura periférica e o direito à cidade no estado do Rio?
Nosso mandato tem algumas lutas em andamento que são muito importantes. Queremos reduzir a tarifa do metrô, temos uma ação na justiça transcorrendo nesse sentido, até avançarmos para a tarifa zero. É de nossa autoria o PL que adequa os concursos públicos no estado, tal como na lei federal, para garantir 30% das cotas para negros. Só vamos descansar até os 92 municípios estarem adequados à legislação federal. Na educação temos uma luta histórica que é garantir que o piso nacional do magistério seja pago no Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro investe apenas 12% da sua arrecadação em educação, enquanto a média nacional é de 20%. Terei como prioridade a luta pelo aumento do orçamento para a educação.