About nas Eleições: Yuri Moura fala sobre Carnaval, crise climática e defende políticas para cultura

setembro 30, 2026

Yuri Moura, professor de História, gestor público e deputado estadual pelo PSOL, construiu sua trajetória política a partir das demandas de Petrópolis e do interior do Rio de Janeiro. Ex-vereador do município, ele chegou à Alerj levando para o mandato pautas ligadas ao planejamento urbano, participação popular, prevenção de tragédias e redução das desigualdades territoriais. Na Assembleia, preside a Comissão de Legislação Participativa e a Frente Parlamentar de Prevenção às Tragédias. Na entrevista a About, Yuri fala sobre a experiência de percorrer diferentes municípios e ouvir demandas que nem sempre chegam ao Parlamento. Entre os temas abordados estão crise climática, mobilidade, moradia, trabalho, cultura e desenvolvimento regional. Ele também fala sobre o Carnaval de Rua e defende políticas que reconheçam a festa como patrimônio cultural, cadeia de trabalho e forma de ocupação democrática das cidades.

Para Yuri, pensar o desenvolvimento do Estado exige reconhecer as diferenças entre seus territórios e aproximar as políticas públicas da realidade de quem vive nas cidades. Na área climática, ele defende investimentos permanentes em prevenção, adaptação, Defesa Civil e infraestrutura, além da regulamentação da Lei Estadual dos Refúgios Climáticos. No Carnaval, destaca a importância dos blocos de rua para a cultura, a economia e o direito à cidade, propondo menos burocracia e procedimentos mais claros para a ocupação dos espaços públicos. Ele também defende ampliar o financiamento da cultura e criar condições para que trabalhadores e iniciativas populares tenham acesso aos recursos públicos.

1. Você é professor, gestor público especializado em cidades e planejamento urbano e construiu sua trajetória política em Petrópolis, passando pelo movimento estudantil, pela Câmara Municipal e agora pela Alerj. O que essa trajetória te ensinou sobre as diferenças entre pensar políticas para uma cidade e pensar políticas para todo o Estado?

Minha trajetória política começou nas causas populares de Petrópolis e do interior, muito antes de chegar à Alerj. Foi no movimento estudantil, nos projetos comunitários, na Escola Popular e depois como vereador, sempre muito presente nos bairros, ouvindo as pessoas e tentando transformar demandas concretas em política pública.

Esse jeito de fazer política, de pé no chão e olho no olho, foi o que me trouxe até aqui. Em 2024, isso também nos levou ao segundo turno para prefeito de Petrópolis. Naquele ano, Petrópolis e São Paulo, com Guilherme Boulos, tiveram candidaturas do PSOL disputando o segundo turno.

Quando cheguei à Alerj, o desafio passou a ser levar essa mesma lógica para um estado muito maior e muito desigual. A realidade do interior é diferente da Zona Oeste, do subúrbio, das favelas ou da Baixada. Mas muitas causas se encontram: moradia, transporte, saneamento, trabalho, cultura, crise climática e acesso aos serviços públicos. Por isso tento fazer do Mandato Popular um instrumento da Alerj para as causas populares.

2. Você presidiu a Comissão de Legislação Participativa, criada em 2025 por iniciativa do seu mandato, com a proposta de aproximar movimentos, cidadãos e instituições do processo legislativo. Que mudanças você percebeu na relação entre população e Alerj a partir dessa experiência?

Uma coisa que sempre me incomodou é a distância entre a política institucional e quem mais precisa dela. Muitas vezes, a população conhece profundamente o problema, sabe onde ele aperta e até aponta caminhos para a solução, mas encontra muita dificuldade para transformar essa experiência em fiscalização, audiência pública, proposta legislativa ou ação concreta do poder público.

E a gente também precisa reconhecer que a institucionalidade é difícil. Ela tem seus ritos, sua burocracia, seus limites e nem sempre consegue responder no tempo que a vida real exige. Por isso, nosso esforço tem sido justamente aprimorar os mecanismos de participação popular, criando caminhos mais acessíveis para que as pessoas consigam incidir de verdade sobre o Parlamento.

A Comissão de Legislação Participativa nasceu com esse objetivo: abrir essa porta e aproximar a Alerj dos movimentos sociais, das comunidades e dos territórios. Levamos para dentro da Assembleia pautas de moradia, saneamento, educação infantil, trabalho, meio ambiente, esporte, bets e tantas outras que chegaram diretamente da população.

3. A Caravana das Cidades passou por dezenas de municípios levando o mandato para diferentes territórios. O que você identificou nessas andanças que não apareceria necessariamente nas discussões dentro da Alerj?

A Caravana mostrou como o Rio tem realidades muito diferentes e como quem fica apenas dentro da Alerj deixa de enxergar boa parte delas. No interior, aparecem muito as grandes distâncias, a falta de transporte entre cidades, a concentração de serviços e municípios inteiros pouco considerados pelo planejamento estadual. Na capital e na Região Metropolitana existem outros desafios muito fortes: a realidade das favelas, do subúrbio, da Zona Oeste e da Baixada, com transporte precário, segurança pública, especulação imobiliária, déficit de saneamento e ausência do poder público em muitos territórios.

Mas existem pontos de encontro. Uma família atingida por uma tragédia em Petrópolis e outra que perde tudo numa enchente na Baixada vivem territórios diferentes, mas sofrem com a mesma falta histórica de prevenção e planejamento. E há coisas que relatório nenhum mostra. É no território que o morador aponta onde a água invade, o pescador explica o que aconteceu com um rio ou o trabalhador conta que o transporte público não funciona ou que seus filhos estão sem merenda. Por isso faço questão dessa política de pé no chão e olho no olho. Quem quer pensar política para as cidades precisa estar nelas.

4. Uma das marcas da sua atuação é a pauta de prevenção de tragédias e adaptação das cidades às mudanças climáticas. Como transformar a prevenção de desastres em uma política permanente do Estado, e não apenas em uma resposta depois que uma tragédia acontece?

A própria pergunta já aponta parte da resposta: precisamos inverter a lógica. Em vez de o Estado concentrar recursos depois que a tragédia acontece, gastando com reconstrução e respostas emergenciais, é preciso investir antes, de forma permanente, em prevenção, redução de riscos e adaptação das cidades. A Região Serrana é um dos territórios mais vulneráveis a desastres no Brasil. Municípios como Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo carregam na memória tragédias que deixaram centenas de vítimas e mostraram, da forma mais dura possível, o preço da falta de prevenção e de planejamento contínuo.

Mas essa não é uma pauta só da Região Serrana. Existem enchentes recorrentes na Baixada, alagamentos na Zona Oeste e comunidades e favelas que sentem de forma muito dura os efeitos das chuvas intensas, da falta de drenagem e dos problemas de infraestrutura. Prevenção significa investir de forma contínua em contenção de encostas, drenagem e macrodrenagem, Planos de Redução de Risco atualizados, sirenes, sistemas de alerta, pluviômetros e Defesas Civis estruturadas. Significa também ampliar soluções baseadas na natureza, como Cidade Esponja, áreas permeáveis e jardins de chuva.

Essa pauta, para mim, é muito concreta. Depois da tragédia de 2022 em Petrópolis, acompanhei de perto as famílias atingidas e fiscalizei obras de reconstrução e prevenção. Foi inclusive durante a fiscalização de uma dessas obras, a partir de denúncias de moradores, que aconteceu o episódio que resultou no processo movido por Cláudio Castro contra mim. Também defendo um verdadeiro Orçamento Climático, com recursos permanentes e previsíveis para prevenção, adaptação e resiliência. Não faz sentido esperar a tragédia acontecer para só depois mobilizar milhões em reconstrução.

E tem um ponto que considero fundamental: fortalecer os Núcleos Comunitários de Defesa Civil, os NUDECs. Quem mora no território conhece o risco, sabe onde a água sobe, onde a encosta preocupa e quem precisa de mais apoio. A prevenção funciona melhor quando o poder público combina investimento, planejamento técnico e participação da comunidade.

5. Você é autor da Lei Estadual dos Refúgios Climáticos e também coordena a Frente Parlamentar de Prevenção às Tragédias e por Moradia Digna. Como essa política pode ser implementada nos municípios e incorporada ao planejamento urbano das cidades?

Nós aprovamos a primeira Lei Estadual de Refúgios Climáticos porque o calor extremo já é uma realidade e, principalmente, porque ele não atinge todos os territórios nem todas as pessoas da mesma forma. A própria cidade do Rio deixa isso muito evidente. Um levantamento citado pelo Instituto Internacional para Sustentabilidade identificou diferenças superiores a 7°C entre bairros: em um mesmo dia, Irajá registrou 39,2°C e o Jardim Botânico 31,6°C. A cidade também tem um déficit estimado de 860 mil árvores, sobretudo nas Zonas Norte e Oeste; entre as 15 áreas com pior classificação de arborização, dez estão na Zona Norte e nenhuma na Zona Sul.

E essa realidade não está restrita à capital. Em dezembro de 2025, Três Rios, no interior do estado, chegou a registrar 39,1°C e foi apontada como a cidade mais quente do país naquele dia. Isso mostra que os efeitos do calor extremo também atingem fortemente os municípios do interior e exigem políticas públicas adaptadas às diferentes realidades do território fluminense. Isso mostra que a crise climática também é uma expressão da desigualdade urbana. Quem mora numa área arborizada enfrenta uma onda de calor de uma forma. Quem está numa favela, numa periferia, na Zona Norte, na Zona Oeste, Interior do RJ ou num bairro historicamente menos atendido pelo planejamento urbano vive de outra.

Os Refúgios Climáticos são uma resposta concreta: utilizar bibliotecas, museus, escolas, equipamentos culturais, centros comunitários, shoppings e outros espaços para oferecer água, ventilação ou climatização, banheiro, descanso e acessibilidade. Transformamos nosso próprio gabinete em um Refúgio Climático para mostrar que é possível e estamos buscando também a adesão de espaços privados. Agora o Estado precisa regulamentar a lei, mapear os territórios mais vulneráveis e incorporar essa rede a um plano para períodos de calor extremo. E isso precisa caminhar junto com arborização, áreas verdes e planejamento urbano.

6. O Carnaval aparece na sua trajetória desde a criação do Bloco Boa Praça, em Petrópolis, e você também foi autor da lei que reconheceu as manifestações carnavalescas do município como patrimônio cultural imaterial. O que essa experiência te mostrou sobre a importância do Carnaval de Rua para a cultura e para a ocupação das cidades?

Eu sou apaixonado por cultura popular, por blocos de rua e por escolas de samba. E acredito muito que a cultura é ordinária: ela está no cotidiano, na rua, na praça, no bairro e no encontro das pessoas. O Carnaval talvez seja uma das maiores expressões disso. Quando um bloco ocupa uma rua ou uma praça, aquele espaço deixa de ser somente lugar de passagem e volta a ser espaço de convivência, encontro e pertencimento.

O Rio sabe melhor do que ninguém que Carnaval não nasce em fevereiro. Existe uma cadeia inteira trabalhando durante o ano: músicos, compositores, produtores, costureiras, aderecistas, técnicos, ambulantes e tanta gente que mantém essa cultura viva. Isso vale para uma escola de samba da capital e também para um bloco construído pelos moradores de uma cidade do interior.

Em Petrópolis, criamos o Bloco Boa Praça justamente com esse espírito de ocupar a cidade com cultura. Depois, como vereador, fui autor da lei que reconheceu as manifestações carnavalescas do município como patrimônio cultural imaterial. Essa experiência me ensinou que o Carnaval é um patrimônio vivo. Defender o Carnaval de Rua é defender memória, identidade e tradição, mas também garantir que ruas e praças continuem sendo espaços democráticos de todos. É defender trabalho, renda, turismo e o direito de viver a cidade.

7. Ainda em Petrópolis, você apresentou uma proposta para estabelecer prazo para a autorização de blocos carnavalescos ocuparem áreas públicas, justamente para evitar que a burocracia impedisse os desfiles. Como você enxerga hoje os obstáculos enfrentados pelos blocos de rua para ocupar o espaço público e o que poderia ser feito em âmbito estadual?

Quem já participou da organização de um bloco sabe que muitas vezes o problema não é falta de vontade ou de organização. É conseguir atravessar uma burocracia enorme para colocar a manifestação na rua. Foi justamente por conhecer essa realidade que, em Petrópolis, apresentei uma proposta para estabelecer prazo para a autorização dos blocos. Quando o poder público responde em cima da hora, muda exigências ou não deixa claro o caminho que precisa ser seguido, quem mais sofre são os blocos menores, populares e os projetos que estão começando.

Precisamos de procedimentos mais simples, claros e previsíveis, sem abrir mão da segurança. E também reconhecer que um bloco pequeno de bairro não pode receber exatamente as mesmas exigências de uma megaestrutura que leva milhares de pessoas para a rua. Defendo calendário antecipado, protocolo claro, prazo para resposta e integração entre Cultura, Segurança Pública, Bombeiros, Saúde, mobilidade e municípios. Mas também canais de orientação para que quem está começando não fique sozinho tentando entender toda essa estrutura. O Carnaval se renova porque novos blocos, bandas e cortejos continuam surgindo. Desburocratizar é justamente permitir que a tradição continue viva e que o novo também tenha espaço para nascer.

8. O Carnaval movimenta uma cadeia que envolve artistas, produtores, trabalhadores da economia criativa, ambulantes e pequenos empreendedores. Que políticas estaduais poderiam fortalecer essa economia para além dos dias de Carnaval?

O primeiro passo é entender que Carnaval não é só entretenimento e muito menos uma atividade de alguns dias do ano. É trabalho, renda, formação profissional, turismo e uma cadeia econômica que começa muito antes do desfile e continua depois dele. Tem músico, costureira, aderecista, técnico, produtor, trabalhador de escola de samba e de bloco, ambulante, bar, comércio e uma série de pequenos empreendedores vivendo dessa cadeia. Por isso defendemos chegar a 2% do orçamento estadual para a cultura, garantindo que esse investimento alcance também a cultura popular e as manifestações carnavalescas.

Mas não basta financiar o desfile. Precisamos criar condições para que esses grupos existam durante o ano inteiro: espaços para ensaios, oficinas e apresentações, crédito acessível, formação profissional, infraestrutura e apoio à produção. Também precisamos democratizar o acesso aos próprios recursos públicos. Muitas vezes existe um grupo com talento, história e trabalho reconhecido na comunidade, mas que fica fora de um edital porque não tem uma produtora ou alguém especializado em elaborar projeto, organizar documentação e prestar contas. O Estado pode oferecer formação, orientação e suporte técnico para diminuir essa desigualdade.

Quero contribuir para um Carnaval que continue crescendo sem perder sua essência popular: valorizando quem construiu essa história, mas abrindo espaço para novos blocos, novas bandas, novos cortejos e novas manifestações. Porque fomentar o Carnaval é também garantir que ele continue se renovando.

9. Seu mandato também criou o programa Faz na Base, que apoia projetos sociais de esporte, cultura, educação, saúde, inclusão e direitos. Como você pensa a relação entre iniciativas comunitárias e políticas públicas permanentes, para que esses projetos não dependam apenas de ações pontuais?

Isso vem muito da minha própria trajetória. Antes de qualquer mandato, construímos a Escola Popular em Petrópolis que já formou mais de 2 mil alunos no EJA. Aprendi ali que muitas vezes uma comunidade encontra uma solução muito antes de o Estado perceber o problema. O Faz na Base parte dessa lógica: reconhecer, apoiar e conectar iniciativas que já estão transformando seus territórios. Hoje a iniciativa reúne dezenas de projetos nas áreas de esporte, cultura, educação, saúde, inclusão e direitos.

E este ano demos um passo importante nessa direção com a parceria com a UERJ, apoiando mais de 40 projetos sociais, tecnologias sociais e iniciativas comunitárias. Essa aproximação com a universidade é fundamental porque permite envolver a comunidade acadêmica na produção de conhecimento, no apoio técnico e no desenvolvimento de soluções construídas a partir das necessidades reais dos territórios. É também uma forma de criar pontes entre o saber popular e o conhecimento produzido dentro da universidade.

Uma das propostas para o próximo período é justamente criar uma incubadora de projetos sociais, garantindo apoio técnico, formação, construção de redes e caminhos para financiamento e institucionalização. O Poder Público precisa fortalecer aquilo que a comunidade construiu e, quando uma tecnologia social funciona, criar condições para transformá-la em política pública permanente.

10. Você também tem atuação na defesa da economia solidária e dos trabalhadores de aplicativos, inclusive com a Lei dos Pontos de Apoio para Entregadores. Como o estado pode avançar na proteção de trabalhadores que estão em relações de trabalho cada vez mais informais ou mediadas por plataformas?

Não foram só as relações de trabalho que mudaram. A própria percepção do trabalhador sobre o trabalho também mudou. Isso passa pelas novas formas de vínculo, pela organização da jornada e por debates como o fim da escala 6×1. Mas a mudança não pode significar ausência de direitos, insegurança ou abandono. Não dá para falar em autonomia quando o trabalhador fica sem proteção ao adoecer, sofrer um acidente ou enfrentar condições extremas de trabalho. A tecnologia transformou profundamente essas relações, mas não pode apagar direitos básicos. Não é aceitável, por exemplo, um entregador passar horas na rua sem água, banheiro, lugar para carregar o celular ou fazer uma refeição.

Por isso somos coautores da Lei dos Pontos de Apoio e estamos trabalhando para levar estruturas como o Parada Certa para a capital e outras cidades. Também precisamos avançar na proteção contra o calor extremo, na segurança, no acesso a crédito, na formação profissional e no direito desses trabalhadores de participar das decisões que afetam seu trabalho. O desafio que estamos enfrentando é justamente esse: acompanhar as transformações do mundo do trabalho sem permitir que elas sejam usadas para enfraquecer direitos. Dignidade, segurança e proteção precisam continuar no centro dessa luta.

11. O Bilhete Único Intermunicipal foi uma das pautas do seu mandato, com a ampliação para municípios como Petrópolis, Cachoeiras de Macacu e Rio Bonito. Como você avalia hoje a política de mobilidade intermunicipal do estado e o que ainda precisa mudar para reduzir as desigualdades territoriais?

A inclusão de Petrópolis, Cachoeiras de Macacu e Rio Bonito no Bilhete Único foi uma conquista importante, mas é só o começo. Sou coautor dessa ampliação e tenho uma proposta para levar o benefício a todos os municípios do estado. Os problemas de mobilidade são diferentes conforme o território. No interior, pesam muito a distância, o preço da passagem e a falta de integração entre as cidades. Na Região Metropolitana, milhões de pessoas saem diariamente da Baixada, da Zona Oeste, do subúrbio e das periferias e enfrentam deslocamentos enormes, muitas vezes dependendo de mais de um modal.

Isso também acontece porque grande parte das oportunidades de trabalho e de estudo ainda está concentrada na capital e nos grandes centros. Quando garantimos integração entre diferentes modais, com uma tarifa acessível, ampliamos o acesso a essas oportunidades e ajudamos a reduzir desigualdades territoriais. Mas também precisamos olhar para o outro lado dessa questão. Não basta apenas melhorar o deslocamento até onde os empregos estão concentrados. É importante criar novos polos de desenvolvimento e reindustrialização no interior, gerando trabalho, renda e oportunidades mais perto de onde as pessoas vivem. Isso passa também pela ampliação da oferta de ensino superior nessas regiões.

Mobilidade é também combate à desigualdade. O CEP de uma pessoa não pode determinar quanto ela vai gastar, quantas horas da vida vai perder no transporte, onde pode estudar ou quais oportunidades de trabalho consegue acessar. O desafio é integrar o estado e, ao mesmo tempo, descentralizar desenvolvimento e oportunidades.

12. Você tem defendido políticas de moradia e é autor do projeto que cria uma Política de Moradia Assistida e Vida Independente para pessoas com deficiência. Como pensar habitação não apenas como acesso a uma casa, mas também como autonomia, serviços públicos e direito à cidade?

Na pauta das pessoas com deficiência existe uma pergunta muito dura para milhares de famílias: “quem vai cuidar do meu filho ou da minha filha e familiares quando eu não estiver mais aqui?”. Foi ouvindo essas famílias que construímos a proposta de Moradia Assistida e Vida Independente. A ideia é garantir moradia com os apoios necessários para que pessoas com deficiência possam construir autonomia e viver em comunidade. E esse princípio serve para pensar toda a política habitacional. Não adianta construir uma casa longe do transporte, da saúde, da escola, da cultura e do trabalho. Produzir habitação sem produzir cidade pode criar uma nova forma de exclusão.

13. Na sua atuação parlamentar, você também tem enfrentado questões relacionadas às concessionárias de água, saneamento e energia, além de ter proposto a CPI da Enel. Como equilibrar a fiscalização dessas empresas com a necessidade de garantir serviços públicos de qualidade e tarifas que caibam no orçamento da população?

Quando um serviço essencial é concedido a uma empresa privada, o Estado precisa ter capacidade real de fiscalização e regulação. Água, energia e saneamento não podem ser tratados simplesmente como mercadorias comuns. Foi por isso que propusemos a CPI para investigar as falhas no fornecimento de energia, cobrar investimentos, planos de contingência e o cumprimento das obrigações das concessionárias, tanto da Enel quanto da Light. É preciso fiscalizar de perto a qualidade do atendimento, a manutenção adequada da rede, a prevenção de interrupções e o respeito aos consumidores.

Quando há apagões recorrentes, demora no restabelecimento do serviço ou descumprimento das obrigações contratuais, isso precisa ter consequência, inclusive com aplicação de sanções e compensação aos consumidores prejudicados. No saneamento, precisamos cobrar metas de universalização, investimento efetivo, transparência nos contratos e tarifas compatíveis com a qualidade do serviço prestado. Não é aceitável a população pagar cada vez mais e continuar convivendo com falta d’água, apagões ou saneamento precário. Quando se trata de um direito básico, o Estado precisa garantir que a busca por rentabilidade não se sobreponha à qualidade do serviço, ao acesso e ao interesse público.

14. Se reeleito, entre as propostas apresentadas para um possível novo mandato, qual pauta você considera prioritária para aproximar cultura, direito à cidade, trabalho e desenvolvimento dos diferentes territórios do Estado do Rio?

Quero aprofundar uma agenda que enfrente a crise urbana e as desigualdades territoriais a partir das vocações e das necessidades de cada região. Cultura, trabalho, mobilidade, educação, moradia, clima e desenvolvimento não podem continuar sendo tratados como assuntos separados. Na cultura, defendemos chegar a 2% do orçamento estadual, fortalecer blocos e trabalhadores das escolas de samba, apoiar a economia criativa e diminuir a burocracia para que iniciativas populares possam ocupar ruas e espaços públicos.

Isso precisa caminhar junto com turismo sustentável, mobilidade, infraestrutura e crédito para pequenos empreendedores, valorizando aquilo que cada território tem de próprio, seja samba, gastronomia, patrimônio histórico, moda, natureza ou turismo de base comunitária. Também precisamos melhorar a integração entre as regiões, com mais fiscalização sobre as BRs, as RJs e as concessões rodoviárias, porque não dá para falar em desenvolvimento com estradas precárias, perigosas ou com pedágios que pesam no bolso da população.

Ao mesmo tempo, integrar o estado não pode significar apenas levar as pessoas até onde hoje estão as oportunidades. Precisamos descentralizar o desenvolvimento, fortalecer as cadeias produtivas de cada região, gerar emprego mais perto de onde as pessoas vivem e ampliar a oferta de cursos nos polos universitários do interior. Eu não acredito em desenvolvimento feito de cima para baixo. Quem já produz cultura, trabalha, empreende, organiza a comunidade e mantém viva a identidade dos territórios precisa participar dessa construção.

Esse é, para mim, o sentido do Mandato Popular: fazer da estrutura da Alerj um instrumento para as causas populares e para enfrentar a crise das nossas cidades. Não esperar que todos os problemas cheguem ao gabinete, mas estar nos territórios e transformar essas lutas em fiscalização, orçamento e política pública.