CarnaLula ocupou Copacabana com música, Carnaval de rua e mobilização política no último domingo (27)

setembro 30, 2026

Blocos de rua, músicos, artistas e coletivos culturais se reuniram no último domingo (27) para o cortejo do CarnaLula, que ocupou a orla de Copacabana. Criado a partir da aproximação entre Carnaval de rua e militância política, o movimento voltou às ruas em 2026 para apoiar a candidatura de reeleição do presidente Lula. A mobilização também levou para o cortejo discussões sobre o fim da escala 6×1, o direito ao lazer, a cultura e a democracia. Com instrumentos, estandartes e manifestações artísticas, o grupo transformou a festa em linguagem de mobilização política. Em entrevista à About, os organizadores relembraram a origem do movimento e explicaram o que motivou a retomada da iniciativa neste ano eleitoral.

A primeira saída do CarnaLula aconteceu em julho de 2022, durante uma agenda de Lula na Cinelândia, e deu início a uma articulação que passou a reunir lideranças de blocos e coletivos culturais do Rio. Naquele ano, o movimento realizou novos cortejos e atividades, incluindo uma mobilização em Copacabana. Em 2026, a organização ficou novamente nas mãos de integrantes ligados ao Carnaval de Rua. Segundo os organizadores, a escolha pela linguagem carnavalesca esteve relacionada à própria história de ocupação política das ruas pelo Carnaval Carioca.

1. Para começar, conta um pouco para a gente quem são as pessoas por trás do CarnaLula e como surgiu essa união de vocês para criar o bloco?

As pessoas por trás do CarnaLula são Barbara Barreto, Bianca Valles, Fernanda Gomes e Vitor Mazzeo, nossa união vem através da nossa relação com a Rua, através do carnaval e da militância, cada um de nós tem uma história de luta diferente, mas com um objetivo comum que é impedir a volta do ódio e da barbárie. Unimos luta, Blocos de Carnaval, nossos instrumentos e arte, para defender a democracia e a soberania do Brasil e reeleger nosso amado presidente Lula.


Idealizadores do CarnaLula:
Vitor Mazzeo, Bianca Valles,
Fernanda Gomes e Barbara Barreto.

2. O grupo que idealizou o CarnaLula reúne pessoas com diferentes experiências na cultura e no Carnaval de rua. Como essas trajetórias se encontraram e o que cada uma delas trouxe para a construção do bloco?

O carnaval e a militância nos uniu, mas principalmente a possibilidade de perpetuação do fascismo. Cada um contribuiu com um pouco da sua experiência nas artes, no circo, na política, na educação e no carnaval de rua.

3. Como surgiu a ideia do CarnaLula e o que fez vocês entenderem que esse projeto deveria ganhar as ruas do Rio justamente em um ano eleitoral?

O CarnaLula surgiu de uma vinda do Lula ao Rio na pré-campanha de 2022, essa ideia veio de uma conversa da Lizete(sobrenome), comigo onde, inclusive, criamos o nome “CarnaLula”. A partir dessa conversa criamos um grupo de WhatsApp e começamos a adicionar pessoas do carnaval e de coletivos de cultura. Foi assim que duas figuras fundamentais para o nosso movimento foram inseridas ao grupo: Bianca Valles e Juliana Rosseto. Nossa primeira saída aconteceu no dia 7 de julho de 2022, dia desse comício do Lula na Cinelândia. Partimos da Candelária tocando nossos instrumentos e já com uma faixa com o nome do nosso coletivo confeccionada pela Bianca, não éramos muitos, mas atraímos muitas pessoas pelo caminho até a praça. Ali nascia o CarnaLula. A partir dali o grupo de WhatsApp foi crescendo muito, assim como a construção do nosso movimento que passou a contar com várias lideranças de blocos do carnaval do Rio e coletivos de cultura.

Por conta disso, a Juliana viu a necessidade de criar um núcleo menor para organizar e operacionalizar as nossas próximas ações. Fernanda Gomes, Nija e William Mululo foram adicionados a esse núcleo e assim formamos um grupo de 7 pessoas, e mais pra frente Bárbara Barreto também se juntou a nós. Quando Lula esteve no Rio na quadra da Portela no dia 25/9 pela manhã, uma parte do grupo foi até lá recebê-lo e prestigiá-lo com instrumentos e pernaltas e à tarde fizemos um lindo e grande cortejo pelo aterro do Flamengo com o apoio de mais de 40 blocos de carnaval e a presença de músicos e artistas de diversos coletivos. Com o sucesso desse cortejo veio a ideia de ocuparmos a praia de Copacabana no segundo turno, como algumas pessoas já tinham sugerido nas conversas do grupo de WhatsApp. Precisávamos resgatar esse bairro lindo e plural que havia sido sequestrado pelos eleitores da extrema-direita.

Foi aí que nossa mobilização cresceu absurdamente nas redes. Fizemos atividades artísticas de vira voto no Parque de Madureira e no aterro. E no domingo anterior à eleição fizemos nosso grandioso cortejo na Princesinha do Mar, contando com a presença de dezenas de músicos dos blocos do carnaval do Rio, vários parlamentares e com parte da bateria da Mangueira. Foi lindo e potente!! Nosso último cortejo de 2022 foi o cortejo da vitória, uma semana depois de elegermos Lula enchendo novamente a praia de Copacabana de música, cores e uma alegria contagiante.
A organização do CarnaLula de 2026 conta com apenas quatro integrantes todos da formação original, eu, Vitor Mazzeo, Bianca Valles, Fernanda Gomes e Bárbara Barreto.

4. Carnaval também é sobre ter tempo para o lazer, para a cultura, para estar na rua e para viver a cidade. Como vocês relacionam essa dimensão do Carnaval com a defesa do fim da escala 6×1?

O fim da escala 6×1 precisa ser uma pauta de todos. A constituição garante ao cidadão o direito ao lazer, dentre tantos outros, e é inviável que um pai e uma mãe de família consigam cuidar de suas casas, resolver suas pendências e ainda ter tempo pra descanso e lazer em apenas um dia livre na semana. É desumano. O carnaval é essencialmente o espaço de brincar a rua, viver o lúdico, ser espontâneo e subverter a ordem. E é justamente por isso que é resistência. Porque descansar e se recusar a viver uma vida dedicada exclusivamente ao enriquecimento alheio é revolucionário e subversivo. Mas como o trabalhador que só tem um único dia de “descanso” por semana vai poder brincar e celebrar a vida com seus pares? Não existe direito ao lazer para um corpo exausto. Por isso, a pauta do fim da escala 6×1 é muito cara para o nosso movimento e é esse um dos motivos pelos quais defendemos a reeleição do presidente Lula e as candidaturas de esquerda para o Congresso Nacional.

6. O Carnaval de rua carioca tem uma longa tradição de usar a festa como espaço de crítica, posicionamento e expressão política. O que significa, para vocês, fazer um cortejo explicitamente político como o CarnaLula em 2026?

Com certeza o carnaval de rua carioca tem uma longa historia de luta politica. Muitos blocos nascem expressamente de uma luta político-social, como o Planta na Mente, o Loucura Suburbana, o Mulheres Rodadas. O Cacique de Ramos e o Bloco Chave de Ouro desfilaram afrontando a ditadura em plenos anos 70. Historicamente vemos representantes de blocos tocando em atos políticos, desde as manifestações anti-golpe, os atos do EleNão, as manifestações cobrando as investigações da execução da vereadora Marielle Franco… Justamente porque é um espaço de subversão da ordem e resistência do direito à cidade, à liberdade de expressão, ao lazer.

Neste momento não poderia ser diferente. O risco de retorno à barbárie instaurada com o resultado das eleições de 2018 é real. Como membros de coletivos que se dedicam a fazer cultura de rua, não teria coerência se posicionar de outra forma. Não dá pra fazer carnaval sem discutir política, não tem como fazer carnaval sem pensar que o povo precisa ter o que comer pra conseguir brincar na rua. Por isso, é fundamental esse movimento de mostrar que diversos blocos e coletivos do carnaval de rua carioca possuem um lado bem marcado e esse lado é o da Justiça Social e o da defesa da democracia.

7. O que vocês prepararam para o cortejo do dia 27 e que experiência vocês queriam proporcionar para quem chegar na rua para participar do CarnaLula?

Nós organizamos um ato ainda maior do que o de 2022. Muitos candidatos do campo esquerdista ao legislativo estiveram presentes no ato. Para manter nossa identidade como um movimento do carnaval, decidimos não dar fala a todos os inúmeros candidatos, porque acabaria se tornando um comício. Decidimos dar fala apenas às nossas duas candidatas da esquerda ao senado [Benedita da Silva e Monica Benicio], representando as duas coligações progressistas, sendo a Benedita também uma representante do próprio presidente Lula. Além disso, tivemos a presença de mais de 20 estandartes de blocos de rua do Rio, a presença de alguns artistas militantes importantes (como Helenice que confecciona estandartes políticos belíssimos, Otavio que confeccionou uma bandeira emblemática para a campanha de 2022, dentre outros). Tivemos a presença de ambulantes e pequeno empreendedores da esquerda, como a brochevique que é bem famosa na esquerda do Rio. E tivemos também a presença de uma artista maravilhosa que cantará no ato.

No fim das contas, o que a gente queria era proporcionar um dia de luta feito na base da arte, da música, da alegria. Política não se faz apenas dentro de gabinetes, política se faz também e principalmente na rua, é e sempre foi assim. E por que não misturar isso com a festa, com o carnaval? A quem incomoda o povo feliz? À extrema-direita, claro. A alegria é revolucionária e é isso que a gente queria que as pessoas presentes no cortejo de domingo sentissem. É importante cantar junto, até por uma questão de renovação de forças pra continuar na luta diária até o fim das eleições, porque combater o neofascismo há já dez anos tá sendo pesado pra todo mundo – candidatos, militância, trabalhadores em geral. A gente quer que as pessoas presentes se sintam unidas e motivadas pra continuar na luta.

8. E como foi a receptividade do público ao CarnaLula? Vocês sentiram que as pessoas que participaram entenderam e abraçaram a proposta que vocês queriam levar para as ruas?

A receptividade do CarnaLula em 2022 foi excelente, recebíamos muitas mensagens pelas redes elogiando e perguntando se teria de novo. O público entendeu que pode-se fazer política com alegria e irreverência, e o carnaval é a cara do Rio, nada melhor do que um bloco na rua para arrastar multidões. E esse ano nosso cortejo foi muito maior, foi gigante. Nada no Rio tem um apelo maior do que o carnaval.