About nas Eleições: Verônica Lima, criadora da lei de incentivo aos blocos de Carnaval de rua, fala sobre políticas públicas para o Carnaval

Verônica Lima, ex-vereadora de Niterói e atual deputada estadual, busca a reeleição para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em 2026. À frente da Comissão de Cultura da Alerj, ela tem concentrado sua atuação na valorização da cultura popular e periférica e na descentralização das políticas culturais pelo estado. Autora da lei que criou o Programa Estadual de Incentivo aos Blocos de Carnaval de Rua, a parlamentar defende a consolidação de políticas permanentes para quem faz Carnaval e cultura nos territórios.
Para Verônica Lima, o Carnaval de rua precisa ser reconhecido como manifestação cultural e como parte da identidade dos bairros e comunidades. Em entrevista a About, ela fala sobre financiamento, acesso aos editais, ocupação dos espaços públicos e os desafios de estruturar o Carnaval sem comprometer sua espontaneidade. A deputada também defende mais recursos para pequenos blocos, reconhecimento das manifestações populares e políticas culturais construídas a partir das diferentes realidades do estado.
1. Você tem uma trajetória política construída em Niterói, onde foi vereadora e também atuou em diferentes áreas da administração municipal, antes de chegar à Alerj. O que essa experiência nos territórios influencia nas prioridades que você leva hoje para o mandato de deputada estadual?
A experiência em Niterói me ensinou, principalmente, a importância de estar perto das pessoas e de conhecer a realidade para além dos números e dos gabinetes. Foi no território que eu aprendi a ouvir as demandas e entender que uma política pública só faz sentido quando consegue transformar a vida de quem está lá na ponta.
Hoje, na Alerj, eu levo essa mesma forma de fazer política. Meu mandato olha para o estado a partir dos territórios, valorizando aquilo que muitas vezes foi historicamente invisibilizado. Cultura, juventude, mulheres, população negra, periferias, tudo isso está conectado. A política estadual precisa chegar onde as pessoas estão e reconhecer os saberes e as potências que já existem nesses lugares.
2. Na Alerj, você preside a Comissão de Cultura e tem concentrado parte importante da sua atuação na valorização da cultura popular e periférica. Quais são hoje os principais desafios para garantir que a política cultural do estado chegue de fato aos diferentes territórios?
O primeiro desafio é entender que o estado do Rio não termina na capital e que a cultura não acontece apenas nos grandes equipamentos ou nos grandes eventos. Existe uma produção cultural enorme nos bairros, nas favelas, no interior, na Baixada, nas cidades da Região Metropolitana, e muitas vezes quem produz nesses lugares ainda encontra muita dificuldade para acessar os recursos públicos.
Precisamos descentralizar os investimentos, simplificar o acesso aos editais e construir políticas que considerem as diferentes realidades. Não dá para exigir de um coletivo de periferia a mesma estrutura administrativa de uma grande produtora. Democratizar a cultura também é democratizar o acesso ao dinheiro público.
3. Em 2025, entrou em vigor a lei de sua autoria que criou o Programa Estadual de Incentivo aos Blocos de Carnaval de Rua, prevendo inclusive edital anual de apoio aos blocos. O que você considera que ainda precisa avançar para que esse programa se consolide e tenha impacto real para quem faz Carnaval nas ruas?
A criação do programa foi uma conquista importante, mas lei nenhuma se sustenta sozinha. Agora precisamos garantir orçamento, continuidade e acesso. O bloco precisa saber que pode contar com uma política pública todos os anos, e não depender de uma decisão de última hora ou de uma relação individual com o poder público. Também precisamos olhar para os pequenos blocos, que muitas vezes têm uma estrutura muito menor, mas são fundamentais para manter viva a tradição do Carnaval nos bairros. O recurso precisa chegar a quem está efetivamente fazendo a cultura acontecer na rua.
4. O Carnaval de rua cresceu muito nos últimos anos, e isso aumenta também os desafios de infraestrutura, segurança, mobilidade e organização. Como você acredita que o poder público deve se preparar para receber esse movimento sem descaracterizar a espontaneidade dos blocos?
O papel do poder público é criar as condições para o Carnaval acontecer, não tentar controlar a sua essência. A gente precisa ter planejamento, diálogo com os blocos e integração entre cultura, segurança, saúde, mobilidade, limpeza urbana e os municípios. O bloco não pode descobrir na semana do Carnaval que não tem estrutura, banheiro, segurança ou apoio para desfilar. Mas também não podemos transformar uma manifestação popular em um evento engessado. É possível organizar sem burocratizar a alegria e a criatividade de quem faz o Carnaval.
5. Você já defendeu que o Carnaval de rua é uma manifestação cultural que tem como essência a ocupação da cidade. Como garantir que o direito de ocupar as ruas seja preservado diante dos conflitos com trânsito, comércio, moradores e outras demandas urbanas?
A cidade é de todos e o espaço público também. O Carnaval de rua faz parte da nossa identidade cultural e precisa ser tratado dessa maneira. É claro que existem conflitos e que eles precisam ser mediados. O comerciante precisa ser ouvido, o morador precisa ser respeitado e a mobilidade precisa ser planejada.
Mas a solução não pode ser simplesmente tirar o bloco da rua. É preciso construir previamente os percursos, horários e estruturas necessárias, com diálogo entre poder público, organizadores, moradores e comércio. Quando existe planejamento, a gente consegue garantir o direito à festa e, ao mesmo tempo, o direito de quem vive e trabalha naquele território.
6. Existe uma diferença entre apoiar grandes eventos de Carnaval e investir nos blocos menores, que muitas vezes nascem nos próprios bairros e carregam uma identidade territorial muito forte. Como equilibrar esses investimentos?
Precisamos parar de pensar que investimento cultural é uma disputa entre o grande e o pequeno. Os grandes eventos têm sua importância, movimentam a economia e atraem pessoas, mas os blocos de bairro cumprem outra função: preservam memória, fortalecem vínculos e dão identidade aos territórios.
Por isso, defendo políticas específicas para quem historicamente teve menos acesso aos recursos. Se o dinheiro público só consegue chegar a quem já tem estrutura para disputar grandes editais, a desigualdade cultural continua sendo reproduzida. O equilíbrio passa justamente por criar mecanismos que garantam espaço para os pequenos.
7. Em uma de suas propostas na Alerj, você destacou a importância de reconhecer a cultura produzida nas periferias a partir de sua dimensão territorial. Como as políticas culturais podem fortalecer manifestações que surgem nesses territórios sem obrigá-las a se adaptar aos circuitos culturais tradicionais?
Primeiro, reconhecendo que essas manifestações já são cultura. Elas não precisam receber um selo de qualidade de uma instituição tradicional para terem valor. O Estado precisa chegar nesses territórios para ouvir, conhecer e apoiar, e não para dizer como aquela cultura deve ser feita. Isso significa pensar em editais mais acessíveis, recursos descentralizados e políticas construídas com quem produz. Temos inclusive propostas específicas no mandato para valorização e fortalecimento das culturas periféricas, populares e faveladas.
8. Você foi autora do projeto que criou o Programa Estadual de Incentivo aos Blocos de Carnaval de Rua e também apresentou propostas de valorização de blocos específicos, como o Afoxé Filhos de Gandhi e o Cordão do Me Enterra na Quarta. O reconhecimento de manifestações culturais como patrimônio pode ser uma ferramenta efetiva de preservação e financiamento?
Com certeza. O reconhecimento como patrimônio é uma forma de dizer que aquela manifestação faz parte da história e da identidade do nosso estado e que, por isso, merece ser preservada. Mas eu sempre faço uma ressalva, patrimônio não pode ser só uma placa ou um título. Ele precisa vir acompanhado de políticas de preservação, memória, financiamento e valorização de quem mantém aquela tradição viva. O Afoxé Filhos de Gandhi, por exemplo, foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial do estado por uma iniciativa do nosso mandato. E temos seguido esse caminho com outras manifestações, como o Cordão do Me Enterra na Quarta.
9. O Carnaval não acontece apenas em fevereiro: muitos blocos promovem ensaios, oficinas, festas e atividades culturais durante todo o ano. Você acredita que as políticas públicas deveriam tratar o Carnaval como uma cadeia cultural permanente, e não apenas como um evento sazonal?
Sem dúvida. O Carnaval começa muito antes de fevereiro e termina muito depois. Existe trabalho de músicos, costureiras, aderecistas, artesãos, produtores, artistas, técnicos, ambulantes e uma série de trabalhadores que fazem essa cadeia funcionar durante o ano inteiro. Quando a gente olha para o Carnaval apenas como uma festa de alguns dias, deixa de enxergar toda essa economia e toda essa produção cultural. Precisamos pensar em formação, ensaios, oficinas, manutenção das sedes e instrumentos, circulação e memória. É uma política cultural permanente, não uma ação pontual de calendário.
10. Em 2026, você defendeu recursos no orçamento estadual tanto para o fomento aos blocos de Carnaval de rua quanto para o fortalecimento da cultura popular e periférica. Como você avalia a distribuição desses recursos entre diferentes regiões e manifestações culturais do estado?
O critério principal precisa ser a descentralização. O recurso público não pode ficar concentrado sempre nos mesmos lugares e nas mesmas linguagens. O estado tem uma diversidade cultural enorme e isso precisa aparecer também na distribuição do orçamento. Precisamos olhar para a Região Metropolitana, para a Baixada, para o interior, para as regiões serrana, dos lagos, norte e noroeste. E precisamos garantir que diferentes expressões tenham espaço, do Carnaval ao jongo, do hip hop às festas populares. O nosso mandato tem uma atuação muito voltada justamente para reconhecer essa diversidade e ampliar o acesso às políticas culturais.
11. Em uma audiência sobre a organização do Carnaval de rua, você destacou que o crescimento do número de blocos e foliões aumenta os desafios para o poder público. Na sua avaliação, o que ainda falta para que o Estado tenha uma política mais estruturada de apoio ao Carnaval de rua?
Falta transformar o Carnaval de rua em uma política de Estado. Hoje ainda existe muito de planejamento emergencial, quando o que precisamos é de planejamento permanente. É preciso ter orçamento definido, calendário, diálogo com os blocos durante todo o ano e uma articulação mais forte entre Estado e municípios. Também precisamos olhar para quem trabalha no Carnaval e para a infraestrutura necessária para que ele aconteça com segurança. A criação do Programa Estadual de Incentivo aos Blocos foi um passo nessa direção, mas agora precisamos fazer essa política funcionar de forma contínua.
12. Se reeleita, qual seria a próxima pauta relacionada ao Carnaval de rua, à cultura popular e à ocupação dos espaços públicos que você gostaria de transformar em política permanente no estado?
Eu gostaria de avançar para uma política estadual mais ampla de valorização da cultura popular e da ocupação cultural dos espaços públicos. O Carnaval é uma porta de entrada para essa discussão, mas ela é muito maior.
Quero que a gente tenha recursos permanentes para os blocos, para as manifestações populares e para os coletivos que ocupam as ruas durante todo o ano. Quero também fortalecer a ideia de que praça, rua, equipamento público e território são espaços de cultura e convivência.
A cidade precisa ser vivida pelas pessoas. E quando a gente garante que a cultura popular possa ocupar esses espaços com liberdade, estrutura e respeito, a gente também está garantindo o direito à cidade.
