About nas Eleições: Marcelo Freixo defende Carnaval de Rua como cultura e atividade econômica

Marcelo Freixo, ex-presidente da Embratur e ex-deputado federal, é candidato novamente à Câmara dos Deputados pelo PT nas eleições de 2026. Com uma longa trajetória na política do Rio, ele retorna à disputa após comandar a agência responsável pela promoção do turismo brasileiro no exterior, experiência que ampliou sua visão sobre o potencial do setor para gerar emprego, renda e desenvolvimento. Para Freixo, o turismo pode ser um dos grandes motores da economia brasileira, especialmente quando conectado à cultura e aos territórios.
Em entrevista a About, ele fala sobre Carnaval, cultura popular, turismo de base comunitária e a importância de descentralizar investimentos. O candidato também defende políticas permanentes para o Carnaval de Rua, menos burocracia para produtores independentes e mais estrutura para que diferentes territórios possam transformar cultura em trabalho, renda e identidade.

1. Você tem uma trajetória longa na política do Rio, com passagens pela Assembleia Legislativa, pela Câmara dos Deputados e por disputas ao Executivo. Agora, depois de presidir a Embratur, você volta a disputar uma vaga na Câmara pelo PT. O que essa experiência no turismo acrescentou à sua visão sobre o Rio e sobre as políticas que pretende defender em Brasília?
O turismo foi uma experiência espetacular. Uma missão que o presidente Lula me deu, numa área que não era a minha, mas que se tornou um presente que vou levar para o resto da vida. A gente conseguiu fazer as pessoas entenderem que turismo, enquanto política pública, não é só para quem viaja, mas sobretudo para quem recebe. E pode vir a ser o grande motor de desenvolvimento do país no século 21, porque não podemos ser eternamente dependentes do petróleo, que uma hora vai acabar, inclusive.
Turismo gera emprego e renda em escalas impressionantes. Do dono de hotel à camareira. Do guia no asfalto e favela ao motorista de aplicativo, ao taxista, ao pessoal do artesanato e aos bares e restaurantes. Para vocês terem uma ideia, nós pegamos um país para onde vinham 3 milhões de turistas estrangeiros e hoje são mais de 9 milhões, que deixaram aqui US$ 10 bilhões no ano passado. Recorde absoluto. Muito mais, 50% a mais que na Copa e na Olimpíada, por exemplo.
O turismo pode e deve ser a solução para o país, até mais que o petróleo foi no século passado. Mas um turismo sustentável, não predatório, que seja bom para povo brasileiro. Porque o mundo não quer ir para um lugar onde o povo não seja bem tratado. Essa foi a grande virada de chave que começamos a fazer. Mas tem muito mais a ser feito. É um caminho que, com a vitória de Lula, não vai ter mais volta. A gente vai mudar esse Brasil.
2. Em sua trajetória política você passou 16 anos no PSOL, migrou para o PSB na última eleição e agora está no PT. O que motivou a mudança de partido para as eleições 2026 e o que você acredita que pode construir dentro do PT que não foi possível no PSOL e PSB?
Eu tenho profundo respeito pelo Psol. Ninguém nunca me viu ou verá falando mal do Psol. Construí no partido uma rede de afetos que carregarei com muito orgulho para o resto da vida. Mas ciclos também chegam ao fim. E para a eleição de 2022, era preciso garantir um palanque amplo ao presidente Lula que o ajudasse a vencer as eleições naquele momento. Um palanque para além do campo da esquerda, que não seria possível dentro do Psol. E penso que foi uma campanha vitoriosa. Perdemos porque, segundo a Justiça Eleitoral, foi uma eleição roubada. Não sou eu que digo. É a Justiça. Foi o maior escândalo de corrupção da história do Rio de Janeiro. Ainda assim tivemos mais votos que o Eduardo Paes em 2018, e que a Benedita, em 2002, estando ela no cargo. E para esta eleição, eu não sou maluco de recusar um pedido do presidente Lula (risos). A gente tem uma necessidade de fortalecer a bancada progressista no Congresso Nacional. Uma bancada capaz de ajudar Lula a fazer o melhor dos quatro governos dele. Ele confiou a mim essa missão, pelo Partidos dos Trabalhadores, onde eu comecei minha militância nos anos 80 e 90. Vou dizer não ao presidente? É ruim, hein (risos).
3. Você também teve uma trajetória de oposição ao grupo político de Eduardo Paes e, hoje, está inserido em um campo político que dialoga com a atual gestão municipal. Como você enxerga essa relação hoje e o que mudou na sua avaliação sobre a política do Rio?
O mundo, hoje, é completamente diferente do que era há 10 anos. A conjuntura é outra. O crescimento da extrema-direita, do fascismo, nos impõe responsabilidades. Político tem que ter responsabilidade. Geraldo Alckmin foi adversário do Lula na eleição de 2006. Perdeu. Hoje é o vice-presidente da República e uma figura fundamental para a gente ter tirado o Brasil do pandemônio que virou. Tivemos a pandemia. E tivemos o pandemônio, que foi o governo Bolsonaro. E para tirar o país do buraco em que ele nos meteu, foi preciso muito trabalho e responsabilidade. Continuo tendo muitas divergências com o Eduardo Paes, o que é normal dentro da política. Sobretudo na área da educação. Mas é alguém com quem a gente tem diálogo, que outra coisa fundamental na política. E se em 2022 a minha candidatura foi importante para a vitória do presidente Lula, neste ano o mesmo acontece com a do Eduardo. E eu espero que ele vença as eleições para que a gente possa tirar o Rio de Janeiro das mãos da máfia e do crime organizado.
4. À frente da Embratur, você passou a trabalhar diretamente com turismo e chegou a desenvolver iniciativas de turismo de base comunitária, incluindo roteiros ligados ao samba em Oswaldo Cruz e Vila Isabel, certo? O que essa experiência te ensinou sobre a relação entre cultura, território e turismo?
O turismo me ensinou muita coisa, mas peralá (risos). A ideia da rota de Oswaldo Cruz e Vila Isabel, que teve a curadoria do Marquinhos de Oswaldo Cruz e do Martinho da Vila, foi minha. O Trem do Samba, se não é meu dia preferido no ano, está ali na briga. O que o Marquinhos faz é absolutamente extraordinário, como são também tantas outras iniciativas para além dos cartões postais e que nunca tiveram qualquer tipo de olhar dos governantes, que não entendiam – e até hoje muitos não entendem – como o turismo pode ser fundamental para o desenvolvimento e a valorização da cultura nestes territórios.
5. O Carnaval é um dos principais motores do turismo no Rio, mas existe uma diferença muito grande entre o Carnaval da Sapucaí e o Carnaval de Rua. Na sua visão, como essas duas dimensões podem ser valorizadas sem que uma acabe recebendo atenção e investimento em detrimento da outra?
O Carnaval da Sapucaí e o Carnaval de Rua são duas expressões diferentes, mas complementares, da mesma potência cultural do Rio. Não faz sentido pensar em uma disputa por recursos. A Sapucaí tem uma enorme capacidade de atração turística e geração de emprego e renda, enquanto os blocos levam o Carnaval para toda a cidade e fazem com que o visitante tenha uma experiência muito mais ampla do Rio. O poder público precisa ter políticas específicas para cada realidade, garantindo investimento, infraestrutura e promoção para as duas dimensões. Valorizar o Carnaval de Rua não significa tirar importância da Sapucaí. Significa reconhecer que o Carnaval do Rio, vai, também, além da Sapucaí.
6. O Carnaval de Rua é um movimento espontâneo, que ocupa diferentes bairros e transforma a cidade durante semanas e até meses no pré e pós Carnaval. Como você acha que o poder público deve se preparar para receber esse movimento, garantindo infraestrutura, segurança e mobilidade sem tentar controlar ou descaracterizar a festa?
O papel do poder público não é organizar o Carnaval de Rua, mas criar as condições para que ele aconteça com segurança e dignidade. Isso significa planejamento antecipado, limpeza, banheiros, transporte público, atendimento de saúde, segurança e diálogo permanente com os blocos e com os moradores. O Carnaval de Rua tem uma característica fundamental: ele nasce da cidade e da sociedade. A gestão pública precisa entender essa dinâmica e apoiá-la, não tentar transformá-la em um evento excessivamente controlado ou burocratizado. É preciso garantir infraestrutura sem tirar a espontaneidade que faz do Carnaval de Rua uma das maiores expressões da cultura carioca.
7. Como ex-presidente da Embratur, você viu de perto o impacto que grandes eventos culturais podem ter na imagem e na economia de uma região. Estando na Câmara dos Deputados, quais estratégias poderiam ser pensadas para transformar também o Carnaval de Rua em uma política de turismo, levando visitantes para além dos circuitos mais tradicionais?
Na Embratur, pude acompanhar de perto como a cultura e os grandes eventos são instrumentos de promoção do Brasil e de geração de atividade econômica. O Carnaval de Rua pode cumprir esse papel de maneira ainda mais descentralizada. Podemos criar estratégias nacionais de promoção de destinos associadas aos calendários culturais locais, estimulando o visitante a conhecer diferentes bairros e regiões. O Carnaval pode ser uma porta de entrada para uma experiência mais ampla: gastronomia, samba, patrimônio, música, história e turismo comunitário. A ideia é fazer com que o turista não fique apenas nos circuitos tradicionais, mas conheça a diversidade cultural que existe em toda a cidade.
8. Muitos blocos e manifestações culturais de rua surgem de forma independente e têm dificuldade para acessar financiamento, estrutura e políticas públicas. Que mecanismos você defenderia no Congresso para garantir investimentos mais permanentes nesse tipo de produção cultural?
Precisamos diminuir a distância entre a política cultural e quem efetivamente produz cultura na ponta. Muitos blocos e manifestações culturais têm enorme relevância para a cidade, mas encontram dificuldades para acessar editais e mecanismos de financiamento. No Congresso, eu defenderei políticas de financiamento mais simples, permanentes e descentralizadas, com editais específicos para a cultura popular e de rua e menos burocracia para pequenos produtores. Também é importante fortalecer mecanismos de incentivo que permitam que recursos públicos e privados cheguem a essas iniciativas. Cultura popular não pode ser tratada como algo menor ou apenas como entretenimento. Ela é patrimônio, identidade e também uma importante atividade econômica.
9. Quando falamos em Carnaval de Rua, estamos falando também de território: blocos, rodas de samba, festas e eventos culturais ajudam a construir a identidade de diferentes bairros e comunidades. Como você acredita que as políticas públicas podem reconhecer e fortalecer essas identidades locais?
O Carnaval também é uma forma de contar a história dos territórios. Um bloco de bairro, uma roda de samba ou uma festa tradicional muitas vezes carregam décadas de memória e identidade daquela comunidade. As políticas públicas precisam reconhecer isso e apoiar quem preserva essas tradições. Isso passa por financiamento, ocupação dos espaços públicos, preservação da memória e valorização dos fazedores de cultura. Quando fortalecemos a cultura de um território, também fortalecemos o sentimento de pertencimento e a própria capacidade daquele lugar de receber visitantes sem perder sua identidade. Na Embratur, por exemplo, fizemos uma série de ações dentro da área de atuação da agência, que é o turismo internacional, de promoção do Carnaval de rua, não só do Rio de Janeiro, como de todo o Brasil. Ações que nos ajudaram a bater recordes de turismo ao longo do ano, e também no período do Carnaval.
10. Existe uma discussão recorrente sobre até onde vai o direito à ocupação cultural da rua e onde começam as questões de mobilidade, segurança e organização urbana. Como encontrar esse equilíbrio sem transformar a burocracia em um obstáculo para a cultura popular?
É perfeitamente possível conciliar cultura, mobilidade e segurança. O problema é quando a burocracia deixa de ser instrumento de organização e passa a ser uma barreira para a manifestação cultural. O caminho é planejamento e diálogo. O poder público precisa saber com antecedência onde os blocos estarão, quais serão os impactos e como organizar transporte, trânsito, limpeza e segurança. Isso permite estabelecer regras claras e razoáveis. A rua é um espaço público e a cultura tem direito de ocupá-la. O desafio é organizar essa ocupação de forma democrática, e não impedir que ela aconteça.
11. O Rio tem uma das maiores festas de rua do mundo, mas ainda existe uma diferença grande entre a estrutura destinada aos grandes eventos e aquela disponível para iniciativas menores e independentes. O que poderia ser feito para democratizar esses investimentos?
Democratizar os investimentos significa reconhecer que a economia do Carnaval não está concentrada apenas nos grandes eventos. Um bloco pequeno também movimenta comércio, bares, restaurantes, transporte, trabalhadores da cultura e uma cadeia enorme de serviços. Precisamos distribuir melhor os recursos e criar mecanismos específicos para iniciativas independentes e de menor porte. Isso inclui infraestrutura pública, editais simplificados, apoio à produção e acesso aos mecanismos de financiamento. Investir na cultura de rua é também investir na economia dos bairros e na geração de renda.
12. Se você for eleito deputado federal, qual seria a principal pauta relacionada ao Carnaval, à cultura de rua e ao turismo que gostaria de levar para Brasília?
Eu gostaria de levar para Brasília uma agenda que trate cultura e turismo como políticas de desenvolvimento. O Carnaval é um exemplo muito claro disso. Precisamos criar condições para que a riqueza gerada pela cultura popular seja distribuída por mais territórios e alcance mais trabalhadores. Minha principal pauta seria fortalecer o Carnaval de Rua como patrimônio cultural, atividade econômica e instrumento de promoção turística, com financiamento, infraestrutura e políticas permanentes. O Brasil tem uma das maiores riquezas culturais do mundo. Precisamos parar de enxergar isso apenas como festa e passar a tratar como uma política estratégica de desenvolvimento.