About nas Eleições: William Siri propõe políticas permanentes para cultura e Carnaval

William Siri, vereador do Rio de Janeiro por dois mandatos, é candidato ao Governo do Estado pelo PSOL nas eleições de 2026. Com trajetória construída na Zona Oeste e na Baixada Fluminense, ele defende um projeto de governo voltado à descentralização dos investimentos públicos, com foco em territórios que historicamente receberam menos recursos. Sua proposta envolve áreas como transporte, educação, saúde, cultura, segurança pública e desenvolvimento econômico, com a ideia de aproximar o Estado da população e reduzir as desigualdades territoriais.
Na cultura, Siri defende políticas permanentes de financiamento, apoio à produção independente e maior descentralização dos recursos. O Carnaval aparece como uma das principais pautas, tratado como manifestação cultural e cadeia produtiva que movimenta trabalhadores durante todo o ano. Em entrevista ao About, o candidato fala sobre sua trajetória, suas propostas para a cultura fluminense e projetos para fortalecer o Carnaval de rua, ampliar o acesso aos recursos e garantir a ocupação cultural dos espaços públicos.

1. Você costuma destacar sua trajetória na Zona Oeste e na Baixada Fluminense, regiões que historicamente reivindicam mais investimentos públicos. Como essa vivência influencia a forma como você enxerga as prioridades para governar o estado?
Quem mora longe das áreas centrais sabe o que significa precisar atravessar a cidade para acessar direitos básicos e oportunidades. Isso molda o nosso dia a dia. É preciso sair mais cedo de casa, fazer as contas de quanto vai gastar com transporte, pensar duas vezes antes de fazer um programa de lazer no fim de semana e enfrentar mais dificuldades para encontrar trabalho perto de onde se vive. Essa vivência influencia completamente a forma como eu penso o governo do Estado. Para mim, governar o Rio significa inverter prioridades e colocar a periferia e o interior no centro das decisões, fazendo o investimento público chegar aos territórios que, durante décadas, receberam menos atenção e menos recursos. E isso significa fazer o Estado chegar de verdade, oferecendo transporte, educação, saúde, cultura, segurança e
desenvolvimento econômico de forma integrada. Não podemos aceitar um modelo concentrado em poucas regiões. Quero um Rio em que as pessoas possam construir suas vidas perto de onde moram. Garantindo mais qualidade de vida, menos tempo perdido nos deslocamentos e, ao mesmo tempo, uma economia mais descentralizada.
2. Você chega a esta eleição após dois mandatos como vereador do Rio. Quais experiências na Câmara mais prepararam você para assumir o desafio de governar o Estado do Rio?
Até aqui são seis anos como vereador, construindo leis, fiscalizando o Executivo, acompanhando o orçamento e dialogando diretamente com trabalhadores, coletivos e movimentos sociais. Tenho orgulho de leis como a de espaços adaptados para pessoas com TEA em grandes estádios e arenas, a Emergência Climática, a Cidade Esponja e o incentivo ao turismo de base comunitária. Mas talvez o maior aprendizado tenha vindo da fiscalização e da escuta. Quando você acompanha o orçamento, entende onde o poder público trava, onde o recurso não chega e quem continua sendo deixado por último. Por isso, sempre mantive o gabinete aberto e criei um método de trabalho baseado em ir ao território, ouvir as pessoas, identificar os problemas e transformar essas demandas em políticas públicas. Já produzimos dez relatórios dessa forma, sobre diferentes temas da cidade. Eu só sei fazer política assim. Nosso projeto nasceu ouvindo as pessoas nos calçadões da Zona Oeste, com o Papo do Siri, e é esse método que quero levar para o governo do Estado: ouvir, planejar e fazer o poder público funcionar para quem mais precisa.
3. A sua candidatura defende um projeto de mudança para o estado. Que legado você espera deixar para o Rio ao fim de um eventual mandato?
A retomada do desenvolvimento econômico do Rio de Janeiro. Quero que, ao longo dos anos em que o nosso projeto estiver à frente do Estado, a gente volte a ver notícias sobre a criação de novos complexos produtivos, a geração de empregos e a construção de uma economia mais forte e diversificada. Quero um Rio que volte a produzir, que fortaleça suas cadeias produtivas e seja capaz de consumir cada vez
mais aquilo que é produzido aqui. Um estado que atraia novas indústrias, fortaleça o comércio e amplie o setor de serviços, criando oportunidades de trabalho digno para uma população que hoje muitas vezes está submetida à informalidade e à precarização. Tudo isso, alinhado à uma agenda ambiental, baseada no fortalecimento do INEA, na intensificação da fiscalização sobre empresas, e no endurecimento das leis ambientais. Além disso, o desenvolvimento econômico também precisa caminhar junto com educação e formação. Quero deixar uma rede de ensino fortalecida, com escola integral, educadores valorizados, assistência aos estudantes e oportunidades para que a nossa juventude tenha mais perspectiva. E isso também tem relação direta com a segurança pública. Precisamos recuperar os territórios hoje controlados pelo crime organizado, não apenas com a presença policial, mas com a presença permanente do Estado. Quando oferecemos educação, cultura, esporte, emprego e futuro, nós também disputamos a nossa juventude e ajudamos a enfraquecer o poder das organizações criminosas. Esse é o Rio de Janeiro que eu sonho deixar. Vamos trabalhar muito para construir esse legado.
4. A gente costuma dizer que o Carnaval é muito mais do que uma festa: ele é uma forma de ocupar a cidade, gerar renda e fortalecer identidades locais. Você concorda com essa visão? Como pretende incorporar esse entendimento nas políticas públicas do estado?
Eu concordo integralmente. O carnaval é uma das maiores expressões da cultura popular do Rio de Janeiro e precisa continuar sendo uma festa democrática, que pertença ao povo. Vivo o carnaval dessa forma. Eu já acompanhei desfile no Setor 1, todo ano estou no Cordão da Bola Laranja, em Campo Grande, participo dos blocos de rua e desfilo com a minha escola do coração, a Unidos de Cosmos, na Intendente Magalhães. Então, o meu olhar para o carnaval parte dessa essência popular, de quem está na rua e não aceita que uma festa construída pelo povo seja apropriada e limitada por interesses exclusivamente mercadológicos. Como governador, quero fortalecer o carnaval de rua e garantir as condições para que as pessoas possam ocupar a cidade com segurança e liberdade. Isso passa por apoio aos blocos, estrutura, segurança pública e, principalmente, transporte. Imagina o que significaria ter trens e metrô com tarifa zero e funcionando a noite toda durante os dias de folia? É democratizar o acesso à festa e garantir o direito de ir e vir dos foliões e trabalhadores.
5. O Carnaval movimenta a economia, gera milhares de empregos e projeta a imagem do Rio para o mundo. Na prática, qual deve ser o papel do Governo do Estado no fortalecimento dessa cadeia produtiva?
De fato, existe uma enorme cadeia produtiva que funciona o ano inteiro nas escolas de samba, quadras e barracões, envolvendo costureiras, ferreiros, músicos, artistas, aderecistas e tantos outros profissionais. E existe também a economia da rua, dos ambulantes e de quem faz a festa acontecer. Por isso, quero que o Estado deixe de enxergar o carnaval apenas como um grande evento sazonal para receber turistas e
passe a tratá-lo como política permanente de cultura e desenvolvimento econômico. Uma das nossas propostas é construir um calendário permanente de fomento à cultura, com editais lançados com antecedência, menos burocracia e linhas específicas para pequenos e médios produtores, blocos, escolas de samba e iniciativas culturais dos territórios. Quem produz cultura não pode passar o ano inteiro sem saber quando o recurso vai chegar. Fortalecer o carnaval é investir durante todo o ano, porque a festa exige meses de ensaios, planejamento, preparação e produção. É garantir condições para que essa economia continue movimentando o estado e gerando trabalho e renda.
6 Grande parte dos blocos de rua acontece sem financiamento público suficiente e depende do trabalho de produtores independentes. Você pretende criar alguma política permanente de incentivo ao Carnaval de rua?
Sim. A nossa plataforma tem uma seção específica para o Carnaval, pensando tanto nas escolas de samba quanto no carnaval de rua. E eu destacaria três propostas. A primeira é preservar e fortalecer os blocos tradicionais, respeitando sua história e sua relação com os bairros onde nasceram. Queremos criar uma política de incentivo para esses blocos e grupos, garantindo condições para que continuem ocupando as ruas e preservando a memória do carnaval fluminense. A segunda é criar uma política estadual de formação e profissionalização da economia da cultura. O carnaval movimenta profissionais do audiovisual, iluminação, sonorização, cenografia, figurino, músicos e artistas. Esse setor cresceu 71% no nosso estado, e precisamos enxergar a economia da cultura como uma estratégia de desenvolvimento, geração de renda e
criação de oportunidades de trabalho.
E a terceira é criar uma Política Estadual Permanente de Fomento Continuado à Cultura, garantindo financiamento plurianual para grupos, coletivos, espaços e iniciativas que trabalham o ano inteiro. Em 2026, a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa lançou pela primeira vez o edital Ações Continuadas RJ. Nossa proposta é transformar essa experiência em uma política permanente de Estado, com recursos regulares, calendário público efinanciamento continuado. Fortalecer o Carnaval de rua é também garantir condições para que os trabalhadores, blocos e produtores que constroem essa festa possam
trabalhar e produzir cultura durante todo o ano.
7. O Carnaval acontece em praticamente todo o estado, mas muitos investimentos acabam concentrados na capital. Como você pretende descentralizar recursos para fortalecer as manifestações culturais da Baixada, do interior e de outros municípios?
Tem um projeto do qual eu sou um grande entusiasta, que são os Escritórios de Cultura. A gente articulou, junto aos deputados federais do PSOL em Brasília, emendas parlamentares para viabilizar a criação do Escritório de Cultura da Zona Oeste, que hoje funciona como um espaço de apoio e facilitação para os produtores culturais do território. O Escritório ajuda quem produz cultura a acessar leis de incentivo, disputar editais e elaborar, estruturar e inscrever seus projetos. O Estado precisa dar suporte técnico aos produtores locais, fomentar a produção independente e também trabalhar para levar atrações, investimentos e programação cultural para esses territórios. Descentralizar a cultura não é apenas distribuir recursos geograficamente. É criar condições para que quem produz cultura na periferia, na Baixada e no interior consiga acessar o dinheiro público, fortalecer seus projetos e movimentar a economia e a cultura do próprio território. Por isso, vou criar o Programa Estadual de Escritórios Regionais de Cultura para atender todas as regiões de governo do estado.
8. Produtores culturais frequentemente apontam dificuldades relacionadas à burocracia, ao licenciamento e ao diálogo com o poder público. O que você mudaria nessa relação caso seja eleito?
Acabei respondendo anteriormente, mas basicamente a proposta do Programa de Escritórios Regionais de Cultura é fundamental porque, muitas vezes, o recurso existe, mas não chega a quem está na ponta. Muitos produtores independentes perdem oportunidades porque não têm uma equipe especializada para lidar com a burocracia ou experiência na elaboração de projetos. No fim, os recursos acabam sempre
concentrados em quem já possui estrutura, experiência e acesso. Essa experiência tem funcionado muito bem na Zona Oeste, e eu quero levá-la para todo o estado, criando Escritórios de Cultura nas diferentes regiões do Rio de Janeiro, especialmente na Baixada e no interior.
9. Você costuma defender o direito à cidade. Na prática, como isso se traduz para quem organiza ou participa de eventos culturais em espaços públicos?
Logicamente, eu poderia responder falando da importância de ocuparmos as ruas, as praças e os parques, porque acredito muito no poder do encontro nos espaços públicos e em como isso é fundamental para construirmos cidades com mais qualidade de vida. Mas, para mim, o direito à cidade vai além. É também garantir que as pessoas possam circular com dignidade e acessar diferentes partes da cidade, independentemente de onde moram. Em 2014, eu tinha pouco mais de 20 anos e, junto com alguns amigos, fundei o coletivo Tudo Numa Coisa Só. Éramos todos jovens da Zona Oeste, principalmente de Campo Grande, e enfrentávamos uma dificuldade enorme para acessar lazer e cultura. A maior parte dos eventos estava concentrada no eixo Centro–Zona Sul. Sair no fim de semana pesava no bolso e ainda existia toda a dificuldade para voltar para casa. Foi por isso que criamos o coletivo, para promover atividades culturais no nosso próprio território e ampliar a oferta de lazer na Zona Oeste. Já são mais de dez anos realizando atividades, e essa experiência me ensinou, na prática, a importância da descentralização da cultura. Por isso, esse será um dos pilares do nosso governo. Mas não basta levar cultura para diferentes territórios; precisamos também derrubar as barreiras que impedem as pessoas de circular pela cidade. E uma dessas barreiras é o transporte. Nós analisamos as contas públicas e os contratos e sabemos que existem caminhos para avançar. Uma das nossas propostas é reestatizar os trens, avançar para a Tarifa Zero e garantir que trem e metrô funcionem 24 horas em momentos de grande circulação, como fins de semana, feriados e especialmente durante o Carnaval. Esse é o modelo em que acredito, no qual o lugar onde uma pessoa mora ou a classe social que ela pertence não determine quais partes da cidade ela pode viver, ocupar e aproveitar.
10. Segurança pública e grandes eventos costumam entrar em conflito. Como garantir que blocos, rodas de samba e outras manifestações culturais possam ocupar as ruas com segurança, sem que isso resulte em restrições desproporcionais?
Em momentos como esses, eu sempre penso na segurança das mulheres. Recentemente, uma amiga muito próxima sofreu uma agressão durante uma roda de samba. E isso me marcou muito, porque a gente costuma orientar as mulheres a estarem acompanhadas, cercadas de amigos, em um lugar público. Ela tinha tudo isso. Estava numa roda de samba tradicional, cercada de pessoas conhecidas, e, ainda assim, foi agredida com socos por um homem que nunca tinha visto na vida e com quem não tinha qualquer relação. Isso mostra que precisamos garantir que as manifestações culturais ocupem as ruas com liberdade, mas que o Estado esteja presente para proteger as pessoas. Uma das nossas propostas é criar um Protocolo Estadual de Segurança para Eventos Culturais de Rua, com planejamento específico para blocos, rodas de samba e outras manifestações, além de núcleos de atendimento humanizado para mulheres durante os grandes eventos. Também queremos criar um quadro permanente na Polícia Civil, formado por mulheres concursadas, para fortalecer as Delegacias de Atendimento à Mulher e garantir um atendimento mais preparado e humanizado às vítimas de violência. Em eventos como esses, essas equipes também
poderão atuar com pontos de acolhimento para mulheres vítimas de violência. Outro problema recorrente são os roubos e furtos. Por isso, vamos criar o Programa Estadual de Combate ao Roubo e Furto de Celulares, estabelecendo um protocolo de rastreamento, bloqueio e recuperação dos aparelhos a partir do IMEI e fortalecendo a investigação das redes que receptam e comercializam esses equipamentos. Tudo isso exige também recompor o efetivo das forças de segurança. Hoje temos um déficit expressivo de policiais militares e civis. Ampliar esses quadros por meio de concursos públicos significa aumentar a capacidade de policiamento, investigação e presença do Estado nos territórios, inclusive durante grandes eventos. E, por fim, mas não menos importante, no nosso governo, camelôs e ambulantes não serão vistos como
criminosos. São trabalhadores que fazem parte da economia e da própria dinâmica dos grandes eventos e precisam de organização, condições dignas e apoio do poder público para trabalhar, gerar renda e sustentar suas famílias.
11. Se eleito governador, qual seria a primeira medida voltada para a cultura fluminense nos seus primeiros 100 dias de governo?
Vamos lançar um programa de descentralização da cultura fluminense, começando pelo mapeamento e pelas primeiras intervenções para recuperar equipamentos culturais ligados ao Estado, como teatros, lonas, anfiteatros e salas de cultura, com prioridade para o interior e as periferias. A nossa meta ao longo do governo será recuperar pelo menos 50 desses espaços. E, onde não houver equipamentos culturais,
vamos começar a construir uma política de portas abertas, utilizando escolas, auditórios e outros espaços públicos para receber atividades culturais. Também vamos preparar e lançar, por meio do Fundo Estadual de Cultura, um primeiro pacote de editais regionalizados, garantindo que uma parcela dos recursos chegue aos pequenos produtores, artistas locais e territórios que historicamente tiveram menos acesso ao financiamento público. E vamos iniciar, em parceria com a FAETEC e a UERJ, a construção de um programa estadual de formação e profissionalização dos trabalhadores da cultura, com cursos em áreas como produção cultural, audiovisual, iluminação, sonorização, cenografia, figurino, elaboração de projetos e prestação de contas. A ideia é começar os primeiros 100 dias organizando essas políticas e
colocando as primeiras ações na rua, para construir uma política cultural permanente, descentralizada e presente em todo o estado.