About na Política: Mônica Benício fala sobre cultura, Carnaval e direito à cidade

Mônica Benício, vereadora do Rio de Janeiro em segundo mandato, é candidata ao Senado pelo estado nas eleições de 2026.
Arquiteta e urbanista, ela construiu sua trajetória política a partir da defesa dos direitos humanos, do direito à cidade, da cultura e da redução das desigualdades territoriais. À frente da Comissão de Cultura e da Comissão Especial do Carnaval da Câmara Municipal, Mônica também vem atuando em pautas ligadas à ocupação dos espaços públicos e à valorização da cultura popular. Agora, ela pretende levar essa experiência para o Congresso Nacional, com propostas voltadas ao financiamento da cultura, à proteção dos trabalhadores do setor e à descentralização dos recursos.
O Carnaval aparece entre as principais bandeiras da candidata, não apenas como manifestação cultural, mas como uma cadeia econômica que movimenta trabalhadores e territórios durante todo o ano. Em entrevista a About, Mônica fala sobre sua candidatura, suas prioridades para o Rio e os projetos que pretende defender no Senado. A conversa também aborda segurança pública, trabalho digno, moradia, cultura de rua e o direito da população de viver e ocupar a cidade.

1. Você é arquiteta e urbanista, está no segundo mandato como vereadora do Rio e atualmente preside a Comissão de Cultura e a Comissão Especial do Carnaval da Câmara. Como essa trajetória influenciou a decisão de disputar uma vaga no Senado?
Minha trajetória me ensinou que a política precisa transformar a vida concreta das pessoas. Como arquiteta e urbanista, aprendi a olhar para a cidade e perguntar quem pode ocupá-la e quem fica de fora. Como vereadora, transformei essa visão em leis, fiscalização e defesa de direitos. Agora quero levar essa experiência para o Senado. Na Câmara entendi que muitos dos problemas que enfrentamos no Rio não se resolvem apenas no município. A proteção da cultura, os direitos dos trabalhadores, o financiamento das cidades e o combate ao crime organizado dependem de decisões tomadas em Brasília. Quero levar para o Senado a experiência de quem conhece a cidade de perto.
2. Sua atuação política tem sido marcada pela defesa dos direitos humanos, do direito à cidade e da cultura. Quais pautas você considera prioritárias para representar o Rio de Janeiro no Senado?
Quero defender um projeto de segurança pública que proteja a vida e enfrente o poder econômico das milícias. Quero lutar por trabalho digno, serviços públicos de qualidade, direito à moradia e redução das desigualdades entre os territórios. Também vou defender as mulheres, a população LGBTQIA+ e a democracia. A cultura estará no centro desse mandato. Ela não pode ser tratada como enfeite ou como pauta secundária. Cultura gera trabalho, renda, pertencimento e memória. O Rio precisa de uma senadora que reconheça essa força e ajude a transformá-la em investimento permanente.
3. A gente costuma dizer que o Carnaval é muito mais do que uma festa: ele é uma forma de ocupar a cidade, gerar renda e fortalecer identidades locais. Você concorda com essa visão? Como uma senadora pode contribuir para transformar esse entendimento em políticas públicas?
Concordo completamente. O Carnaval não é apenas o que acontece nos dias de folia. Ele movimenta uma enorme cadeia de trabalhadores durante o ano inteiro. São músicos, costureiras, artesãos, aderecistas, vendedores ambulantes, técnicos, produtores e profissionais de muitas outras áreas. O Carnaval também expressa o direito de ocupar a cidade. Uma senadora pode lutar por recursos, pela proteção dos trabalhadores dessa cadeia e pela defesa do uso democrático do espaço público. Também pode ajudar a construir uma política nacional para o Carnaval, com participação de quem faz a festa acontecer. Quando o Estado trata o Carnaval apenas como um evento, ele esquece que existe uma economia funcionando durante doze meses. Quem costura fantasias em agosto, quem constrói alegorias em novembro e quem vive dos blocos o ano inteiro também faz parte do Carnaval.
4. Você presidiu a Comissão Especial do Carnaval na Câmara do Rio. Quais aprendizados dessa experiência você levaria para um eventual mandato no Senado?
A Comissão me ensinou que o poder público precisa ouvir quem constrói o Carnaval. Muitas decisões ainda são tomadas de cima para baixo. Isso produz regras que ignoram a realidade dos blocos, das escolas de samba, dos trabalhadores e dos territórios. Também aprendi que Carnaval exige planejamento durante o ano inteiro. Não basta montar uma operação quando a festa está perto. É preciso garantir financiamento, infraestrutura, transporte, segurança, saúde e condições dignas de trabalho. Vou levar esse compromisso com escuta e planejamento para o Senado. Presidir a Comissão também mostrou que quem faz Carnaval conhece melhor seus problemas.
5. O Carnaval movimenta uma das maiores cadeias da economia criativa do país. Quais iniciativas legislativas você acredita que o Senado pode discutir para fortalecer o financiamento e a valorização das manifestações culturais populares?
O primeiro passo é tratar o financiamento cultural como política permanente de Estado. A cultura não pode depender da vontade de um governo ou de editais esporádicos. Precisamos fortalecer os fundos públicos e garantir a continuidade das políticas nacionais de fomento. O Senado também pode discutir incentivos mais justos e medidas de proteção social para quem realiza o carnaval. Hoje, muitos recursos ficam concentrados nas mesmas regiões e instituições. Quero defender critérios de descentralização, investimento nas culturas populares e proteção social para os trabalhadores da cultura. Quem produz riqueza para o país não pode viver sem renda previsível e sem direitos.
6. Muitos blocos de rua, coletivos culturais e produtores independentes enfrentam dificuldades para acessar recursos públicos. Que mudanças na legislação poderiam tornar esse acesso mais democrático?
Precisamos simplificar os editais e reduzir as exigências que afastam os grupos menores. Um bloco comunitário ou uma roda de samba não pode ser obrigado a ter a mesma estrutura administrativa de uma grande produtora. Isso transforma a burocracia em uma barreira. Também defendo assistência técnica gratuita e formas mais acessíveis de inscrição e prestação de contas. O Estado deve ajudar os grupos a acessar os recursos, não criar uma corrida de obstáculos. Os critérios de seleção também precisam considerar a relevância cultural e territorial de cada iniciativa. O Estado precisa apoiar quem produz cultura, e não apenas quem consegue vencer a burocracia.
7. Você costuma defender o direito à cidade. Como essa pauta dialoga com a ocupação cultural das ruas por blocos, rodas de samba, bailes, feiras e outras manifestações populares?
Direito à cidade é o direito de viver a cidade por inteiro. Isso inclui circular, trabalhar, morar, festejar e produzir cultura. Quando um bloco, uma roda de samba, um baile ou uma feira ocupa a rua, aquele espaço público ganha vida e identidade. A cidade não pode ser organizada apenas para os carros, para os grandes eventos privados ou para quem pode pagar. O espaço público existe para ser vivido. O poder público deve garantir estrutura, diálogo e segurança para as manifestações populares. Não deve tratá-las como problema.
8. Boa parte da produção cultural acontece nas periferias, favelas e municípios do interior, mas muitas vezes recebe menos investimento e visibilidade. Como o Senado pode contribuir para reduzir essa desigualdade entre os territórios?
O orçamento precisa enfrentar a desigualdade territorial. Não basta dizer que o acesso é universal quando os recursos continuam concentrados. Precisamos estabelecer critérios que priorizem favelas, periferias, municípios do interior e regiões com menor investimento cultural. O Senado pode propor transferências diretas para estados e municípios e cobrar transparência na distribuição dos recursos. Também pode apoiar circuitos de circulação cultural. Assim, uma produção criada na Baixada, na Maré, no Norte Fluminense ou na Costa Verde pode alcançar outros públicos sem precisar de uma grande produtora.
9. A cultura de rua frequentemente enfrenta entraves burocráticos e disputas sobre o uso do espaço público. Que mudanças você considera importantes para garantir que essas manifestações possam acontecer com mais segurança e menos obstáculos?
Precisamos criar regras nacionais que reconheçam a cultura de rua e simplifiquem as autorizações. Hoje, muitos grupos lidam com exigências diferentes de vários órgãos. Isso gera insegurança, custo e demora. Defendo um processo integrado, com prazos claros e critérios transparentes. A gratuidade das manifestações populares também precisa ser respeitada. Organização é diferente de repressão. O Estado deve oferecer infraestrutura, prevenção e diálogo para que a rua seja ocupada com liberdade e responsabilidade.
10. Se eleita senadora, qual seria a principal pauta relacionada à cultura e ao Carnaval que você gostaria de colocar em discussão no Congresso Nacional?
Como senadora, quero ser uma defensora da cultura popular e de quem faz o Carnaval acontecer. Vou ouvir o setor, apoiar suas demandas e trabalhar para fortalecer seus trabalhadores e realizadores.