Com homenagem a Beto Sem Braço, Yayá do Cavaco lança “Seu Laudeni” neste domingo (24)

maio 22, 2026

Entre memórias, ancestralidade e vivências construídas nas rodas de samba, Yayá do Cavaco prepara o lançamento de “Seu Laudeni”, faixa que abre o projeto “De Raiz em Flor”. A música chega às plataformas neste domingo, 24 de maio, como uma homenagem ao legado de Beto Sem Braço. No trabalho, a artista conecta tradição, identidade e trajetória pessoal em composições que atravessam diferentes dimensões do samba contemporâneo.

Com cinco faixas lançadas mensalmente até outubro, “De Raiz em Flor” reúne referências que acompanham a caminhada musical de Yayá, desde o samba de terreiro até narrativas sobre política, território e ancestralidade. Instrumentista há duas décadas, a artista também revisita nomes que moldaram sua formação, como Dona Ivone Lara, Beth Carvalho e Fundo de Quintal, enquanto reafirma o diálogo do samba com novas gerações e pautas atuais.

 

 

O projeto “De Raiz em Flor” nasce como uma homenagem às origens do samba. Como foi o processo de construção desse trabalho e o que ele representa pra você nesse momento da sua trajetória?

“De raiz em flor” é um EP construído a partir da memória, da vivência e da tradição do samba. O projeto será lançado em 5 faixas divulgadas mensalmente, formando aos poucos um universo que conecta samba, ancestralidade e trajetória artística. Cada música representa uma parte dessa construção: sambas nascidos da convivência com rodas, compositores, referências e histórias que atravessam a minha formação. Entre as faixas está A Sua Medida, escolhida para integrar a trilha do curta Cinderela do Samba, com lançamento previsto para o segundo semestre de 2026. Já Chão de Terreiro mergulha na força da ancestralidade dentro da roda de samba, enquanto Sambista Bacana traz uma sátira bem-humorada sobre as tensões culturais entre zona norte e zona sul do Rio de Janeiro. Encerrando o EP, Canto Revolução conecta o samba à luta política, refletindo sobre a música como ferramenta de transformação coletiva.

 

“Seu Laudeni” chega como uma homenagem à obra de Beto Sem Braço e será lançado no aniversário dele. Como surgiu a ideia de revisitar esse legado e qual a importância desse artista na sua formação musical?

Todo ano a família de Beto sem Braço, um grupo de músicos capitaneados pelo Arifan, organizam uma roda de Samba no dia do aniversário do Beto sem Braço, que é 24/05. No ano de 2023 eu comentava com alguns amigos de como é bonito esse movimento de mesmo após a morte, Beto sem Braço ter uma celebração de aniversário. Me lembra uma frase que li no livro Flecha no tempo de Luiz Rufino e Luiz Antônio Simas “O contrário da vida não é a morte, o contrário da vida é o desencantamento”. Foi movida por esse encanto que me veio a inspiração de Seu Laudeni. Comecei uma parte, mandei pro meu parceiro Raul DiCaprio e juntos fizemos essa homenagem.

 

Você vem construindo sua caminhada no samba através do cavaquinho, um instrumento historicamente muito marcante dentro do gênero. Como começou sua relação com o cavaco e quais foram os maiores desafios e aprendizados dessa trajetória?

Minha relação com o cavaquinho começou há 20 anos, junto com a paixão pelo Samba e pela Música Brasileira de forma geral.
Eu me encantei pelo instrumento de cara e lembro que foi muito importante na época ver a referência de mulheres instrumentistas pioneiras como Luciana Rabello e Nilze Carvalho. Eu sempre me interessei muito pela referência aos mais velhos. Então eu ouvia muito Roberto Ribeiro, Clara Nunes, Martinho, João Nogueira e com eles vinha as referências dos cavaquinhistas que gravavam na época: Mané do Cavaco, Jonas, Carlinhos, Canhoto. Gostava de ficar estudando e imitando cada um.

Aí quando sai de Minas pra morar no subúrbio do Rio em 2009 comecei a me ligar cada vez mais na sonoridade do Fundo de Quintal e de todos os sambistas envolvidos nesse movimento. Foi um marco na minha trajetória, aquela vivência e repertório traduzido ali moldou completamente o meu caminho. Sobre o aprendizado foi muito grande, afinal 20 anos não são 20 dias. O cavaquinho moveu toda minha trajetória na música, bem antes de ter um trabalho como artista. Fiz parte de muitos projetos e coletivos como musicista e professora também, além de acompanhar muitos artistas diferentes. Nos últimos 4 anos fiz turnê nacional e internacional do Marcelo D2, acompanhei muitos artistas de renome como Martinalia, Leci Brandão, Criolo… Foi uma experiência imensa que marcou minha vida pra sempre.

 

Sua música carrega muita conexão com a tradição, mas também conversa com novas gerações do samba. Como você enxerga esse equilíbrio entre preservar a raiz e trazer sua identidade artística para os trabalhos?

O Samba tem cada vez mais falado dialogado com as novas gerações, fruto de muitos coletivos e artistas que vem defendendo essa bandeira pelo Brasil afora. Fruto também da força ancestral que carrega o Samba e que na sua história, com muita luta, a capacidade de adaptar e se reiventar em contextos diversos. Eu acredito que a inovação está em um caminho natural e não forçado. Pra mim ela vem do movimento das ruas e na nas novas narrativas que são adaptadas ao nosso tempo. Hoje temos discussões sobre machismo, racismo e as diversas pautas dos movimentos LGBTs por exemplo, que antes não estavam colocadas. Muito pelo contrário, muitas músicas eram carregadas desses preconceitos.

 

Ao longo da sua caminhada, quais artistas, rodas de samba ou referências ajudaram a moldar a Yayá do Cavaco que o público conhece hoje?

Ah, são muitas referencias. Dona Ivone Lara é uma grande referência musical. Além de ser uma pioneira, tem uma construção música, uma riqueza em suas melodias que são inspiração. Beth Carvalho uma grande referência enquanto cantora e enquanto posicionamento político também. Sua importância para a construção do som do Samba como conhecemos hoje é muito grande, já que ela abraçou todo esse movimento musical do Cacique de Ramos, que foi revolucionário, e dali surgem inúmeras referências como Almir, Jorge Aragão, Sombrinha, Jovelina…

E trazendo para um cenário mais atual, Nilze Carvalho e Ana Costa são grandes inspirações para mim. Mulheres que além de toda a trajetória artística como cantoras, ocupam lugar como instrumentistas, produtoras musicais (A Ana Costa Inclusive fez a mixagem e masterização do meu trabalho). Marina Íris e Teresa Cristina também são inspirações, cantoras e compositoras incríveis e com posicionamentos que admiro.
Sobre o movimento das rodas de Samba algumas me moldaram nesse período de 2009 pra cá. Eu frequentei muito o Pagode da Tia Doca durante os sábados que rolava um pagode acústico e o Samba da Gameleira que acontecia na época em um quintal na Penha.

Admiro muito o movimento que o Terreiro de Crioulo tem construído nacionalmente e tem também o Samba das Rosalinas, que acontece mensalmente na casa Batuq e é uma roda que fiz parte durante cerca de 5 anos, foi uma época muito rica pra mim, uma escola em termos da dinâmica de uma roda de Samba e construção de repertório.

 

O que o público pode esperar dos próximos passos da Yayá do Cavaco após o lançamento de “Seu Laudeni” e do projeto “De Raiz em Flor”? Tem mais novidades vindo aí?

“De Raiz em Flor” é composto por cinco faixas e se encerra em outubro, então ainda tem muita coisa vindo aí.

O segundo lançamento do álbum é “A Sua Medida”, que chega às plataformas no dia 19/06. A música foi feita como tema principal do curta “Cinderela do Samba”, dirigido e roteirizado por Magna Domingues e produzido por Luciano Vidigal, que será lançado no segundo semestre.

Na gravação, canto ao lado da Cláudia Macedo, que protagoniza a história do curta junto com Jonatan Azevedo, e estamos na expectativa para assistir ao resultado final.

Pra além disso, seguirei pelas ruas e palcos do Brasil levando a palavra do samba com verdade e respeito. Tem muita coisa boa vindo aí.