Entre telas e territórios: o impacto do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul

abril 16, 2026

O Rio de Janeiro recebe, até esta sexta-feira (17), mais uma edição do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, um dos principais eventos do audiovisual negro na América Latina. Com programação gratuita, o festival ocupa diferentes territórios da cidade, do Centro às periferias, reunindo produções do Brasil, África e diásporas. Mais do que exibições, a iniciativa promove debates, encontros e reflexões sobre memória, identidade e resistência. Ao longo de 18 anos, o evento se consolidou como um espaço essencial para a valorização de narrativas negras. E, para quem participa, a experiência vai muito além da tela.

Frequentadora do festival há cerca de quatro anos, a comunicadora Yasmim Guastini acompanhou parte da programação desta edição e destaca o impacto das obras exibidas. Com trajetória ligada ao audiovisual e à cultura popular brasileira, ela vê no encontro um espaço de troca, aprendizado e fortalecimento coletivo. Entre filmes, debates e conexões, o evento reafirma seu papel na construção de novas perspectivas sobre o cinema. Em entrevista, Yasmim compartilha impressões e vivências dentro do festival. E ajuda a entender por que o Zózimo Bulbul segue sendo tão necessário.

Criado pelo Centro AfroCarioca de Cinema, o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul chega à maioridade reafirmando seu compromisso com o pan-africanismo, a ancestralidade e a circulação de narrativas negras pelo mundo. Ao longo de sua trajetória, o evento se tornou uma referência ao conectar produções do Brasil, África e Caribe, além de promover debates sobre cultura, política e identidade. Nesta edição, realizada entre os dias 9 e 17 de abril, o festival ocupa diferentes espaços do Rio de Janeiro, incluindo salas tradicionais no Centro e territórios da Zona Norte, como a Maré, a Penha e o Complexo do Alemão. A proposta é clara: descentralizar o acesso ao cinema e levar as obras para onde o público está.

É nesse contexto que experiências como a de Yasmim Guastini ganham força. Apaixonada por audiovisual e atuando há oito anos na área de comunicação, ela já conhecia o Centro AfroCarioca de Cinema antes mesmo de frequentar o festival. Sua aproximação se intensificou a partir de formações voltadas ao cinema documentário e de sua atuação em produções exibidas no próprio circuito. “Foi nesse momento que me vi inserida no circuito do cinema negro. O que me motiva a estar ali é essa conexão com narrativas negras, com produções que dialogam diretamente com a nossa realidade”, conta.

Mesmo participando de apenas um dia da programação neste ano, a experiência foi marcante. Um dos destaques para ela foi o curta-documentário Janu – A Fotografia como Movimento, que revisita a trajetória do fotógrafo e ativista Januário Garcia. “O filme mostra como ele unia a produção artística com a militância política. Me senti muito próxima dessa narrativa, principalmente porque também trabalho construindo memórias através do audiovisual”, afirma.

A diversidade de olhares também foi um dos pontos que mais chamou sua atenção. Com filmes de diferentes territórios, o festival amplia o repertório do público e propõe conexões entre experiências distintas. “Um dos filmes que mais me atravessou foi Caminho de Volta, dirigido por Rei Black, gravado no Benin. Foi como viajar para outra realidade. Ao mesmo tempo em que eu reconhecia o Brasil, também percebia diferenças, principalmente na estética. Isso desperta curiosidade e amplia o olhar.”

Para além das exibições, o Encontro Zózimo Bulbul se destaca pelo ambiente de troca. Rodas de conversa, debates e encontros com realizadores fazem parte da experiência, transformando o festival em um espaço formativo e político. “A curadoria é muito cuidadosa e diversa. É um espaço que amplia o acesso a obras que muitas vezes não chegam aos circuitos tradicionais, além de fortalecer profissionais do audiovisual negro”, destaca Yasmim.

A presença do festival em territórios como a Maré reforça esse compromisso. Sessões realizadas em espaços como o Galpão Bela Maré integram a programação e ampliam o alcance das obras, promovendo encontros entre público e cinema em contextos periféricos. Ao final da experiência, o impacto é inevitável. Para Yasmim, participar do festival é também um processo de transformação pessoal e profissional. “Saio com um olhar mais sensível e atento, além de novos sonhos e metas. As obras reforçaram em mim a importância de ter responsabilidade ao construir narrativas. Isso contribui diretamente para a forma como enxergo o cinema e o meu fazer no audiovisual.”

Em mais uma edição, o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul reafirma sua potência como espaço de memória, resistência e criação. E, ao ocupar diferentes territórios e conectar histórias, segue ampliando vozes que por muito tempo foram silenciadas, mas agora, cada vez mais, protagonistas.