Bloco Hoje Eu Só Chego Amanhã transforma memória em encontro coletivo nas ruas

O bloco Hoje Eu Só Chego Amanhã carrega uma história marcada por afeto, memória e encontros que atravessam gerações. Criado em 1999, o cortejo nasceu com a proposta de ocupar as ruas com música, alegria e liberdade, reunindo amigos, famílias e foliões em uma celebração coletiva. Após anos fora das ruas, sua retomada reacende não só uma tradição familiar, mas também um movimento cultural enraizado na cidade. Mais do que um desfile, o bloco se consolida como um espaço de pertencimento, onde a experiência vai além da festa e se conecta com a construção de memórias. Nesse retorno, o espírito original permanece vivo, fortalecendo laços e reafirmando o carnaval de rua como lugar de encontro.

O bloco tem uma história longa e marcada por memória afetiva na cidade. Você pode contar como e quando o “Hoje Eu Só Chego Amanhã” nasceu e qual era a proposta original dele?
O Hoje Eu Só Chego Amanhã nasceu praticamente junto comigo, em 1999, eu ainda estava na barriga da minha mãe na primeira edição. Meu pai reuniu amigos e músicos para criar um bloco tradicional, prazeroso e acolhedor. Desde o início, a proposta é a mesma, levar alegria para a rua, fazer arte, reunir gente, criar encontros e ocupar a cidade com música, afeto e diversão. É sobre celebrar a vida, as pessoas e a cidade com leveza, festa e liberdade.
O bloco voltou a desfilar em Teresópolis depois de anos. Como foi esse processo de retomada e o que motivou vocês a trazer essa história de volta para a cidade?
O bloco parou de desfilar em 2011, na época em Teresópolis, por conta da tragédia climática que teve, e por isso, em respeito, o meu pai optou em não colocar mais na rua. O Hoje Eu Só Chego Amanhã faz parte da história da minha família, e da minha, desde criança eu sempre frequentei, sempre vi o amor que existia, e sempre foi um sonho nosso tê-lo na rua novamente. O meu pai sempre deixou guardado o estandarte, manteve as camisas do último desfile, os troféus que a gente ganhou na época. Sempre manteve essa história preservada no armário da minha casa, e eu não achava justo isso ficar ali, mantido só pra gente, porque, vivendo tudo o que vivi, eu sempre soube o potencial do bloco. E, além de ser um sonho meu ter o Hoje Eu Só Chego Amanhã na rua de novo, eu imaginava como não era o do meu pai, principalmente. E, como tive a oportunidade de fazer essa movimentação, quis presenteá-lo com o bloco de volta.
O que me levou a retomar essa história, com certeza, foi poder proporcionar para ele a alegria de ver o bloco novamente nas ruas. O nosso primeiro desfile foi no Rio de Janeiro, na Praça da Harmonia, e fez muito sentido pra gente, depois desse acontecimento, voltar para Teresópolis, que é a cidade onde tudo começou e o lugar onde o bloco saiu por tantos anos. Então, foi isso que me motivou, honrar toda essa história, e ela não está de volta, ela nunca deixou de existir.
O bloco foi fundado pelo seu pai e agora você está liderando essa revitalização. Como é assumir esse legado familiar e o que você pretende preservar ou reinventar nessa nova fase?
Para mim, assumir esse legado familiar é uma honra imensa. Poder devolver para a minha família, e principalmente para o meu pai, o bloco que a gente tanto ama, que fez parte da nossa história e trouxe tanta alegria para nossas vidas, é uma vitória muito grande. É algo que me emociona profundamente. E é ainda mais emocionante ver que está dando certo, perceber como as pessoas recebem o bloco com tanto carinho e sentem esse amor que sempre esteve na nossa família.
O que eu pretendo preservar é exatamente a essência que sempre existiu. O sonho do meu pai sempre foi criar um espaço de alegria, de encontro, de afeto, onde amigos, famílias e pessoas queridas pudessem se reunir. Nosso hino diz “porque gente de qualquer idade assim brinca até de manhã”, e isso é muito simbólico para mim. Hoje, meu pai tem 79 anos e muitas vezes não consegue frequentar blocos no Rio por causa da multidão e da dificuldade de acesso. Então, para mim, é fundamental que o Hoje Eu Só Chego Amanhã continue sendo um bloco onde ele possa estar, onde meus avós, crianças, jovens e pessoas de todas as idades possam brincar juntos.
Eu não quero reinventar essa tradição, quero mantê-la viva. Quero preservar esse espírito de bloco familiar, acessível, acolhedor, onde todo mundo pode ser feliz, brincar, estar junto. Essa é a essência do Hoje Eu Só Chego Amanhã, e é isso que eu quero levar adiante.
Algo que chamou atenção foi a estrutura oferecida no último cortejo, como o ônibus para levar a banda e o clima de confraternização com bebida e churrasco. Como funciona essa logística e por que vocês escolheram esse formato?
A confraternização no último cortejo foi algo muito natural, quando você junta amigos queridos, família e músicos que gostariam de estar juntos e somar, o ambiente vira automaticamente uma grande celebração.
A logística dos ônibus foi uma grande mobilização coletiva. Muita gente quis ajudar para que a banda pudesse ir até Teresópolis sem que isso ficasse pesado para ninguém. Teve gente que contribuiu financeiramente, teve músico que foi por amor ao bloco, por amizade, por acreditar nessa retomada. Foi muito bonito de ver.
Toda a estrutura que a gente conseguiu oferecer foi uma estrutura com muita ajuda, todo mundo que pôde ajudar de alguma forma e no amor realmente ajudou.
A banda foi por livre e espontânea vontade, amigos queridíssimos que inclusive eu quero deixar meu agradecimento a todos que abraçaram a ideia, a todos que estiveram junto com a gente e que foram para Teresópolis para fazer acontecer.
A bebida foi uma coisa muito linda que aconteceu, a marca Mate Shine ouviu a nossa história com muito afeto e carinho e abraçou a nossa causa, eles apoiaram o nosso movimento e ofertaram as bebidas para gente, fica também o meu agradecimento para eles que somaram muito nesse nosso cortejo.
Infelizmente a gente não teve churrasco, o nosso tempo foi muito curto, fizemos um bate e volta em Teresópolis, mas eu e minhas amigas fizemos 90 sanduíches à mão para dar para os músicos com todo amor e carinho.
A logística foi realmente fazer tudo o que estava ao nosso alcance, com muito afeto em cada detalhe, e funcionou a partir de uma rede de apoio muito orgânica, pessoas contribuindo com trabalho, com serviços, com presença. O fotógrafo Bernardo, o videomaker Vudu, todo mundo foi na amizade, no amor pelo bloco, agradeço muito a eles por isso também.
É emocionante ver como essa história mobiliza as pessoas. O formato que escolhemos não é só sobre estrutura, é sobre criar comunidade, cuidar de quem está fazendo o bloco acontecer e manter esse espírito familiar e coletivo que sempre foi a alma do Hoje Eu Só Chego Amanhã.
O bloco parece ter um forte apelo histórico e afetivo, mais do que simplesmente o engajamento nas redes. Como vocês veem o papel dessa memória cultural na construção da identidade do bloco?
O Hoje Eu Só Chego Amanhã nasce muito mais de um lugar de memória e afeto do que de uma estratégia de engajamento digital. Ele é uma história de família, de cidade e de tradição popular, e a gente entende esse bloco como parte de uma memória cultural que atravessa gerações.
A gente sempre se inspirou muito em referências históricas do carnaval de rua, especialmente no Cordão da Bola Preta, que é um dos blocos mais antigos e tradicionais do Rio de Janeiro. Inclusive, a escolha das nossas cores dialoga com essa tradição, como uma forma de homenagem e de conexão com essa história centenária do carnaval carioca.
As redes sociais entraram muito mais como uma ferramenta prática do que como um objetivo em si. Primeiro, para conseguir mobilizar os músicos, reunir quem quisesse somar nessa retomada, e depois para alcançar o público. Mas a essência do bloco não está nas redes, está na memória, no encontro, na história que foi construída desde 1999 pela minha família e que agora está sendo retomada coletivamente.
Para a gente, essa memória cultural não é só nostalgia. É identidade. É o que dá sentido ao bloco, o que faz as pessoas se reconhecerem nele, e o que transforma o Hoje Eu Só Chego Amanhã em algo que vai além de um evento, é um espaço de pertencimento, de tradição viva e de afeto compartilhado.
Quais foram os maiores desafios para colocar o bloco na rua novamente? Tanto na organização quanto no processo de mobilizar antigos e novos foliões?
No campo da organização, a gente começou praticamente do zero. Depois de tantos anos sem o bloco na rua, foi preciso reconstruir tudo, mobilizar músicos, pensar em estrutura, transporte, logística, comunicação, autorizações, e fazer isso com poucos recursos. A retomada foi muito baseada em rede de apoio, em pessoas que acreditaram na ideia e decidiram somar no amor.
Já no processo de mobilizar foliões, o desafio foi reativar essa memória afetiva e, ao mesmo tempo, apresentar o bloco para uma nova geração. Tinha gente que lembrava do Hoje Eu Só Chego Amanhã em Teresópolis com muita saudade, e tinha muita gente que nunca tinha ouvido falar, mas se encantou pela história. Então o desafio foi construir essa ponte entre passado e futuro.
Muita gente da velha guarda que viveu os primeiros anos do bloco já não está mais entre nós, e isso traz uma responsabilidade emocional muito grande, honrar essas histórias, essas presenças, essas memórias que ajudaram a construir o Hoje Eu Só Chego Amanhã.
E, para mim, teve também um desafio pessoal e simbólico, assumir esse legado familiar com responsabilidade, sem perder a essência do meu pai, mas trazendo minha própria energia, minha própria forma de fazer. Colocar o bloco na rua de novo foi um ato de amor, mas também de coragem, e ver as pessoas voltando, se reconhecendo nessa história, foi a maior recompensa.
Como foi a recepção do público de Teresópolis? Vocês perceberam que a galera da cidade abraçou o retorno do bloco?
A recepção do público não poderia ter sido melhor. Foi algo realmente espetacular e muito emocionante. À medida que a gente caminhava, os moradores apareciam nas janelas, os portões das casas se abriam, as pessoas saíam para ver o bloco passar. Muita gente acompanhou, muita gente veio falar com a gente depois, comentando, elogiando, querendo saber quando seria o próximo desfile.
Depois de tanto tempo, ver tanta gente na rua de novo, ver o povo de Teresópolis abraçando essa ideia da forma como abraçou, foi uma verdadeira consagração. E foi muito bonito perceber que tudo aconteceu em paz. Não teve sujeira, não teve confusão, não teve briga, como nunca teve. O bloco é da paz, da alegria, do amor.
Teve também um episódio muito simbólico dessa conexão com a cidade. Durante a divulgação, a musicista Amanda Brittto entrou em contato comigo dizendo que conhecia o bloco porque os avós dela eram de Teresópolis e que o avô frequentava o Hoje Eu Só Chego Amanhã. Quando fui falar com meu pai, descobrimos que o avô dela era um dos grandes amigos dele e esteve em praticamente todas as edições do bloco. A Amanda fez questão de tocar com a gente em Teresópolis. E levou o avô, de 90 anos, em uma cadeira de rodas, para assistir ao cortejo. Foi um encontro de gerações, muito emocionante, que resume exatamente o que esse bloco representa.
O que o público pode esperar das próximas edições? Há planos de expandir o bloco para o Rio também?
O público pode esperar, nas próximas edições, exatamente a mesma essência que sempre guiou o Hoje Eu Só Chego Amanhã, um bloco querido, familiar, divertido, acessível, onde as pessoas se encontram de verdade. A gente acredita que isso é a essência do carnaval, estar junto e criar memória afetiva.
Como meu pai costuma dizer, o Hoje Eu Só Chego Amanhã pratica um “carnaval itinerante”. A gente vai andando conforme os caminhos se abrem, conforme somos recebidos com alegria e carinho. Já estivemos no Rio, na Praça da Harmonia, voltamos para Teresópolis, e na terça-feira de carnaval, desfilamos na Glória, no Rio de Janeiro, e seguimos caminhando por onde essa história puder chegar.
Temos sim, planos de volta para Teresópolis! A cidade pediu, as pessoas quiseram, e essa conexão é muito importante pra gente. Ainda não divulgamos a data, mas ela será em breve e vai ser postada no perfil do Instagram @blocohjeusochegoamanha, deixo o convite para quem quiser nos acompanhar!