“Não foi uma ideia, foi uma oportunidade”: os bastidores e a história do Boto Marinho
março 5, 2026

Quase uma década depois de surgir de forma improvisada, o Boto Marinho se consolidou como um dos encontros mais singulares do Carnaval Carioca. O bloco, que desfila dois domingos após o fim da folia oficial, leva uma multidão até a Ilha de Paquetá em um cortejo marcado pelo mar de fantasias rosas e pelo clima afetivo. O que começou com poucos amigos e um estandarte improvisado cresceu e virou tradição. Hoje, o Boto também ganhou uma edição fora do Carnaval, o Boto de Inverno. E segue reunindo foliões em torno da música, da ilha e da Baía de Guanabara.
Idealizado por Vitor Mazzeo, Danilo Firmino, Dorigo e Caio Victor, o bloco nasceu quase por acaso, após um cortejo improvisado em Niterói, e acabou se transformando em um dos eventos culturais mais movimentados de Paquetá. Além da festa, o Boto Marinho também se conecta com a comunidade local, movimenta a economia da ilha e levanta discussões sobre a preservação da Baía de Guanabara. Em entrevista, Mazzeo e Danilo contam como o bloco surgiu, os desafios de produzir um cortejo cada vez maior e os planos do projeto. Leia a entrevista completa na matéria a seguir.
Vocês podem contar como surgiu a ideia do Boto Marinho? Qual foi o momento ou a conversa que deu início a esse bloco tão singular aqui no Rio, especialmente com esse vínculo com Paquetá?
Então, não foi uma ideia, como geralmente precede tudo. O Boto surgiu de uma oportunidade, de um momento que era a hora que alguns malucos tinham que voltar de Niterói após o Arara Y Boia. Eu, Danilo Firmino, falei com o Mazzeo e o Dorigo que a gente não tinha que voltar em silêncio.
Olhei para a Baía de Guanabara ali na orla de Icaraí e veio o nome, Boto Marinho. Aí veio aquela história do papelão que estava encostado em um poste, a Milla pediu o batom de uma menina e eu escrevi Boto Marinho, levantamos e fomos embora.
Não tínhamos a menor pretensão de sair outra vez, particularmente, achava que tinha parado ali, mas foi o carnaval todo de 2017 o pessoal perguntando quando iria sair o Boto Marinho. Eu fiquei enrolando, dizendo que era no dia seguinte sempre que terminava um crack ali no Buraco do Lume. Teve uns dois dias que até ensaiamos um cortejo até a estação das barcas e voltamos. Aí eu falei que seria dois domingos após o carnaval, com a esperança da galera esquecer… Rsrsrsrs
De onde veio o nome “Boto Marinho”? Quais significados e simbolismos vocês buscam trazer com essa escolha, tanto para quem participa quanto para quem acompanha de fora?
Então, essa pergunta dialoga com a primeira, o nome veio dessa olhada para a Baía de Guanabara, o Boto é um símbolo da saúde ambiental desse pulmão do Rio de Janeiro, que é a Baía de Guanabara. E é aí que explica tudo que construímos e temos com Paquetá e a Cidade.
O Boto Marinho passou a publicar todo nascimento de botos na Baía. Acompanhamos de perto isto, quando surgimos existiam 42 botos na Baía, hoje a população já aumentou para 62 quando teve a última divulgação. Tivemos a alegria, em um cortejo do Boto Marinho de Inverno, sermos escoltados por 6 botinhos nadando ali pela praia da Imbuca. Isso foi lindo!
Também estamos ligados que em setembro do ano passado tínhamos 8 praias próprias para banho em Paquetá, e nesse final de semana somente três. Vamos procurar as autoridades para saber o que está acontecendo. O Boto Marinho tem um compromisso com a Baía de Guanabara e com a população de Paquetá, nossa Ilha do Amor!
Como funciona a produção do bloco, da concepção à realização? Quais foram os maiores desafios no início e o que vocês já sentem que aprenderam ao longo do tempo?
Maior desafio de tudo é crescer, e crescer bem, sem perder o que somos. Adequar algumas coisas é sempre necessário, mas perder o que somos não. Sem dúvida, o maior desafio foi organizar os ambulantes. Por uma razão objetiva, as pessoas precisam trabalhar e o capitalismo faz com que todo mundo lute até o fim para levar o leite das crianças, mas a Ilha tem uma limitação física, mas também é muito objetivo colocar o pão na mesa.
Então, fazer o cara entender que não dá para ele estar ali porque não cabe, não é nada fácil. Mas sem dúvida, isso ficou muito mais fácil quando os próprios ambulantes se organizaram, e fizeram reuniões, fizeram a lista e nós entregamos para a Setram e para os órgãos envolvidos. Aí foi tudo lindo, muito obrigado à Carol, liderança do Elas Por Elas da Providência. Foi crucial essa parceria. O resto é folia, e isso a gente tira de letra!
Muita gente acompanha o Boto Marinho como um momento de celebração depois do Carnaval oficial e também no inverno. Que impacto vocês acham que o bloco tem na comunidade de Paquetá, na cena cultural carioca e na relação das pessoas com o Carnaval além da folia tradicional?
Olha, em Paquetá nós temos um impacto, sem falsa modéstia, que nenhuma festa que rola na Ilha tem. Levamos um público diferente das outras, temos uma movimentação financeira na Ilha que ultrapassa qualquer evento que a Ilha recebe. Geramos renda para quem não tem, renda extra para quem tem e movimentamos o comércio local, hoteleiro de uma forma maravilhosa.
O Boto Marinho em Paquetá é a prova e deve ser usado como estudo de caso de como a Cultura é mola mestra da economia popular e solidária. Temos um orgulho enorme disso, fazendo uma conta boba, entre barcas e pousadas, o município pode ter arrecadado cerca de 20 mil reais de ISS (Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza) nesse final de semana em Paquetá. Para um bairro, isso é gigante!
Quanto ao impacto na cena cultural, as pessoas chamam o Boto de “Botinho”, achamos que isso resume muita coisa, ou melhor aumenta muito o sentimento de carinho e pertencimento que o Boto Marinho gera nas pessoas. Ele meio malandro, ele meio charmoso, ele é meio Carioca escrachado, mas ele é interiorano da Ilha de Paquetá… O Boto Marinho é o Rio de Janeiro, é o Carnaval da perna de pau, da bunda de fora e o carnaval da criança e do idoso também…
Como escolheram a cor rosa? É muito lindo esse mar de rosa nos cortejos do boto, né?
Então, não escolhemos, né? Como falei lá atrás, não tínhamos ideia de que dois domingos após o Carnaval a galera iria para Paquetá para um bloco de 13 malucos com um papelão. Quando vi que a coisa era real, corri na minha tia que sempre tirava os moldes de balão e pipa, ela tinha esse boto lá para um balão do Nemo que tinha feito. Ela tirou o molde, eu corri na Domingos Lopes em Madureira e comprei o tecido azul e rosa. Afinal, o mar é azul. Minha mãe e avó terminaram o estandarte às quatro horas da manhã do domingo. A galera olhou o rosa do boto e adotou, e ficou lindo… Rrsrs… Foi assim!

Financeiramente, vocês conseguem mensurar os impactos para a ilha e para os ambulantes que vão até lá?
Até já falamos no outro tópico sobre isso. É enorme, no último final de semana estimamos que movimentamos modestamente cerca de 400 mil reais na Ilha. Só de barcas a 5 reais, com 8 barcas extras e as normais, já daria quase 200 mil. É disso que estamos falando. Todo mundo trabalhando, e no final o sorriso largo de ter garantido um extra duas semanas após o Carnaval.
Falando em ambulantes, como tem melhorado a relação com eles durante os anos? Eles já esperam o Boto para vender mercadorias que sobraram, mas é difícil ir para Paquetá, né? Como é essa relação com os ambulantes e as barcas?
Olha, com os ambulantes é maravilhosa, como já falamos, eles se organizaram e nos ajudam muito. Temos conversado diretamente com a SETRAM (Secretaria Estadual de Transporte e Mobilidade) do Rio de Janeiro. A conversa com a SETRAM foi ótima e ajudaram muito mesmo, barcas extras e barcas extras só para ambulantes tanto na ida quanto na volta. Só temos a agradecer à Secretária Priscilla Sakalem e a toda sua equipe. Com a empresa que opera ali o serviço, realmente, a gente não sabe o que acontece, porque toda hora tem uns deslizes estranhos, que até arriscam todos os acordos e operações, mas com muita organização entre nós e os ambulantes conseguimos resolver. É pegando o boi no chifre que não se toma chifrada!
O Boto realmente arrasta uma multidão para Paquetá. Vocês já pensaram em se tornar um bloco oficial?
Não! A rua é oficial, essa pergunta é boa. Muita gente acha que tornar oficial trará mais organização e estrutura. É ao contrário, vai trazer mais burocracia e mais público também. As pessoas esquecem que entrar para o circuito oficial é uma divulgação de massa desde o pré Carnaval. Em todos os materiais da RioTur, com sorte de RJTV e o que mais tiver. Aí sim, acaba a Ilha. Deixa a gente quietinho aqui com os nossos Botiners…. Rsrsrs
E sobre patrocínio, como é? O bloco dá dinheiro hoje? Vocês conseguem se pagar e pagar os músicos?
Não, tivemos uma primeira parceria cujo objetivo é criar a oficina de música para a criançada do Morro do Coco em Paquetá.
Pagamos os músicos que vão para gigs, como fomos convidados para o Carnaval de Bom Jardim. Mas para o cortejo não. E claro, esses devem ser os instrutores das oficinas também.
Dia 04/04 vamos fazer um evento, vai ser o primeiro Luau do Boto Marinho. Será no Iate Clube de Paquetá. Precisamos vender a bilheteria para comprar os instrumentos da molecada, e aí, é claro, todos os músicos da banda vão receber. Músico é trabalhador e precisa de remuneração.
Dizem por aí que o Boto adora uma polêmica, né? Como vcs veem isso? Vocês gostam mesmo ou faz parte de ter um bloco imenso?
Faz parte de ser visto. Isso é fofoca, e essa resposta vai virar polêmica. Rsrsrsrs
9 anos não são 9 dias, quais foram os momentos mais bonitos do Boto até hoje?
Pergunta mais difícil até agora. Olha, o primeiro a ver acontecer uma loucura dessas. Dona Florise, sem dúvida. Tanta gente e tanta coisa nesses 9 anos. Tem hora que a gente se olha, abraça, ri, chora, xinga… Rsrsrs… Tudo é mágico no Boto.
E, para fechar, impossível falar do Boto e não lembrar da florice; como nasceu esse momento com ela e como pretendem eternizar esse momento depois da partida dela?
Olha, começamos a falar no último ponto. Além da placa que a Prefeitura fez, além de todos os anos que existirmos, vamos parar e tocar pra ela, estamos preparando um estandarte em homenagem a ela e outras pessoas que construíram a magia do Boto e partiram também. E também um hino novo que a Florise tem um verso especial.
O Boto sempre acontece na mesma data, certo? Dois domingos pós-carnaval e dois domingos de setembro. Por que vocês acham que as pessoas ficam perguntando o dia do boto?
Dois domingos após o carnaval, sim. Primeiro sábado de setembro. Por isso que perguntam, devem confundir. Rsrsrs… Brincadeira, eu acho que as pessoas precisam de uma data, de uma arte, de uma coisa nas redes afirmando. Acredito que seja isso, e também tem bloco que divulga em cima, muda local, aí o pessoal deve ficar com medo.
E, para fechar, não podemos esquecer da polêmica que agora estão rolando ensaios fechados e gigs do Boto. Qual é a ideia de vocês sobre esse novo projeto? Já tem gigs marcadas para fazer?
Não tem gigs ainda, queremos! Tem o Luau do dia 04/04 no Iate Clube. Início às 23h e término às 6h do dia 05. Edição Ressuscita Boto. Convidados: Dorina, Edmilson dos Teclados, Zé Luiz do Império, Luiz Caffe, André Lara, Marquinhos Batera.
E como foi essa decisão? Um bloco que nasceu aberto fechar? Imaginávamos que o Boto era parecido com o Boitolo. Mas agora, com ensaios e gig isso está mudando um pouco, né?
“Não é Boi, não é Pérola, é Boto Marinho”. Nada foi planejado, os ensaios surgem de uma necessidade, convenhamos que chegamos a quase um estado em que o instrumento virou abadá. Algumas pessoas sem tocar nada dentro das cordas e ainda atravessando quem toca. O Boto Marinho quer levar música mesmo para Paquetá e que todo mundo curta. Estamos pensando em até um concurso de marchinhas para o ano…. E claro, esses músicos que se dispuseram a ensaiar um bloco aberto, precisam ser remunerados, e por isso, eles fazem a GIG com a gente.
Quando o boto nasceu, eram mais pessoas responsáveis/fundadores pelo Boto e hoje fica mais com vocês dois [Danilo e Mazzeo], certo? Como foi essa transição?
Olha, fundadores fomos nós dois [Danilo Firmino e Vitor Mazzeo], o Caio Victor e o Dorigo. Tinha gente, claro, que estava no dia. Na organização, mesmo sempre ficamos nós dois e o Caio, veio o Borgo e o Gracinha depois. Mas a galera foi tendo também suas próprias demandas pessoais, é natural. E nós resolvemos dedicar mesmo e tornar o Boto Marinho como uma prioridade.