Com Reggae Little Lions e Esquenta Ladeira, Morro da Conceição se consolida como nova rota do carnaval de rua

fevereiro 11, 2026

Criado em 2025, o Reggae Little Lions nasceu com a proposta de levar o reggae e suas mensagens de paz, resistência e equidade para o Carnaval de rua do Rio de Janeiro. Em 2026, o bloco voltou às ruas no pré-carnaval e teve uma recepção considerada “surreal” pelo público. O cortejo integrou o Esquenta Ladeira, iniciativa do Festejo da Conceição que vem construindo o Morro da Conceição como uma nova rota carnavalesca. A experiência uniu música, território e diálogo com moradores. O resultado aponta para um modelo de Carnaval mais orgânico e conectado à cidade.

Enquanto o Reggae Little Lions consolida sua identidade musical e amplia seu público, o Esquenta Ladeira propõe uma reorganização do Carnaval no Morro da Conceição a partir da articulação local. A ideia é ocupar o espaço com planejamento, estrutura e escuta ativa dos moradores. A parceria entre bloco e território evidencia um movimento que foge do Carnaval de megaeventos. Em vez disso, aposta na diversidade cultural, na economia criativa e na organização popular. Um ensaio do que pode se tornar um novo circuito oficial nos próximos anos.

A ideia de criar o Reggae Little Lions surgiu da necessidade de levar o reggae e suas múltiplas vertentes para o centro da festa popular mais emblemática do país. “O reggae é uma manifestação popular que reflete a realidade de um povo, suas mazelas e virtudes, sempre com mensagens de paz e alegria”, explica Gabriel Gabriel, diretor artístico e fundador do bloco. Para ele, o Carnaval de rua do Rio é o espaço ideal para que esse repertório ganhe corpo e encontre novos públicos.

Após uma estreia experimental em 2025, o bloco retornou às ruas em 2026 com um cortejo mais estruturado e integrado ao calendário do pré-carnaval. A resposta do público surpreendeu. “Foi inesquecível. Muitas pessoas disseram que foi o melhor bloco até agora e que seria difícil superar”, conta Gabriel. O setlist, um dos pontos altos do desfile, mistura clássicos de Bob Marley, como Get Up, Stand Up e Exodus, com ska, reggae brasileiro e versões inusitadas de músicas adaptadas ao ritmo jamaicano.

A apresentação deste ano aconteceu dentro do Esquenta Ladeira, projeto ligado ao Festejo da Conceição que busca organizar o Morro da Conceição como circuito carnavalesco. Segundo David Coelho, produtor cultural e agitador do Esquenta Ladeira, a iniciativa nasceu da necessidade prática. “O morro já vinha sendo usado como rota e até concentração de blocos, sem nenhuma estrutura de segurança, limpeza ou banheiros. Como o poder público não assume essa função, resolvemos nos organizar entre moradores, associações e ambulantes”, afirma.

O Morro da Conceição já tem histórico de festejos populares e, recentemente, recebeu o Festejo Julino da Conceição com grande adesão. A primeira edição do circuito carnavalesco seguiu o mesmo caminho. “Tivemos retorno positivo dos moradores, dos ambulantes, dos músicos e do público”, diz David. A inspiração, segundo ele, vem de experiências como a Banda da Conceição, que há anos articula festa e pertencimento no território.

Para que o modelo funcione, o diálogo é central. E foi justamente esse ponto que aproximou o Reggae Little Lions do projeto. “O bloco teve a sensibilidade de abrir conversa, entender o impacto no território e pensar formas de contemplar os moradores”, explica David. A escuta e a adaptação ajudaram a reduzir conflitos comuns no Carnaval e fortaleceram a relação entre festa e comunidade.

O Esquenta Ladeira funcionou, em 2026, como um teste. A expectativa é usar a experiência para estruturar melhor o pré-carnaval e o carnaval de 2027. Entre os próximos passos estão a apresentação do projeto ao poder público e a atração de marcas interessadas em apoiar um carnaval “mais leve, menos mega”. “Acreditamos que há espaço para todos os formatos. Carnaval é organização popular, é movimento orgânico, inclusive esse carnaval de rua chamado de ‘não oficial’”, afirma David.

Do lado do bloco, os planos incluem ampliar a orquestra, investir em performances e criar homenagens anuais a artistas que inspiram o reggae. O objetivo é também promover eventos ao longo do ano, fortalecendo a cena reggae e jamaicana na cidade. Juntos, Reggae Little Lions e Esquenta Ladeira apontam para um Carnaval que respeita o território, valoriza a diversidade cultural e aposta na construção coletiva da festa.